4 de jan de 2013

Preconceito


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31 - Disse Jesus: nenhum profeta é aceito em sua cidade, nenhum médico cura aqueles que o conhecem.

A primeira destas palavras é conhecida pelo Evangelho de Lucas, quando se refere à incredulidade dos nazarenos.

A segunda parte é peculiar ao Evangelho de Tomé.

Ambas estas sentenças de Jesus focalizam uma verdade fundamental da vida humana: o que é cotidiano não impressiona nem exerce impacto decisivo. O fator “mistério” é importantíssimo. Mistério é tudo aquilo que transcende a zona empírica dos sentidos e o mundo analítico do intelecto. A palavra grega mystés, de que derivamos mistério, místico, corresponde ao vocábulo latino sacrum, de que vem sacramento, sagrado. Ambas as palavras significam: oculto, secreto, e ignoto.

O que está ao alcance do ego não é misterioso, não é sagrado, e por isto não exerce nenhum impacto decisivo sobre o homem. O que pode curar os males do ego é somente o misterioso, o sacro, o carismático, o Eu cósmico.

Ego não cura ego.

"Pecador" não redime "pecador".

Horizontal não retifica horizontal.

Profano não sacraliza profano.

Onde não há mistério, sacralidade, nada de grande acontece.

Se Deus não fosse eterno mistério, não haveria religião sobre a face da terra. Se Deus fosse apenas imanente, e não transcendente, toda a religiosidade acabaria em camaradagem banal. Se Deus fosse apenas uma longínqua transcendência, poderíamos temê-lo, mas não amá-lo. Mas, quando Deus nos é assaz propínquo para ser amado, e assaz longínquo para ser temido, então nasce uma religiosidade tão fascinante que eclipsa tudo que se possa dizer e pensar.

Este mesmo fenômeno ocorre também nas relações humanas, sobretudo no plano do masculino e feminino: onde há somente distância sem proximidade, não há amor verdadeiro. Por outro lado, onde há excessiva proximidade sem a devida distância nas relações de homem e mulher, forma-se uma intimidade sem reverência, que não tardará a enfastiar um homem genuinamente masculino e uma mulher autenticamente feminina.

A natureza toda, desde o macrocosmo sideral e atômico, e até ao microcosmo hominal, obedece à lei da bipolaridade. Atração e repulsão, centripetismo e centrifuguismo – são os dois pólos sob os quais gira toda a harmonia cósmica, o Uno e o Verso que formam o Universo.

Ninguém é profeta em sua terra, por falta de distância, transcendência, mistério.

Um médico não pode curar os seus familiares e conhecidos, porque a parte material da medicina é apenas um excipiente ou veículo; o que realmente cura o doente é a fé no homo-natura, e não a confiança no homo-medicus. E esse elemento natura é algo eternamente misterioso. Até um simples copo dágua pode curar uma doença, desde que o doente tenha 100 por cento de fé nessa água. Sugestão não é ilusão – é uma subgestão, uma gestão de profundidade, uma atuação da alma do Universo. Em toda e qualquer terapia, o ingrediente fé é decisivo, porque é o impacto cósmico sobre a natureza humana. E esse ingrediente mistério é tanto maior quanto mais distante e ignoto for o seu veículo. Nunca nenhum médico nem remédio curaram o doente; o que cura é sempre a natureza, e a alma da natureza é infinitamente misteriosa – é a própria Divindade.

Só um profeta longínquo exerce impacto decisivo.

Só um médico ignoto erradica a raiz de uma doença.


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