27 de mar de 2011

Visões - Por Carl Gustav Jung (Parte 2) "As bodas do Cordeiro"

"E, depois destas coisas ouvi no céu como que uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia! Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus;
Porque verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos.
E outra vez disseram: Aleluia! E a fumaça dela sobe para todo o sempre.
E os vinte e quatro anciãos, e os quatro animais, prostraram-se e adoraram a Deus, que estava assentado no trono, dizendo: Amém. Aleluia!
E saiu uma voz do trono, que dizia: Louvai o nosso Deus, vós, todos os seus servos, e vós que o temeis, assim pequenos como grandes.
E ouvi como que a voz de uma grande multidão, e como que a voz de muitas águas, e como que a voz de grandes trovões, que dizia: Aleluia! pois já o Senhor Deus Todo-Poderoso reina.
Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória; porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou.
E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos.
E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E disse-me: Estas são as verdadeiras palavras de Deus."
Apocalipse 19:1-9
 
CONTINUAÇÃO...

"Durante essas semanas o ritmo de minha vida foi estranho. Durante o dia sentia-me freqüentemente deprimido, miserável e fraco e ousava com dificuldade fazer um movimento; melancolicamente pensava: “Agora preciso voltar a este mundo cinzento”. De tarde, adormecia e o sono durava até perto de meia-noite. Então acordava e ficava desperto, talvez uma hora, mas num estado muito particular. Ficava como que num êxtase ou numa grande beatitude. Sentia-me pairando no espaço como que abrigado no meio do universo, num vazio imenso, embora pleno do maior sentimento de felicidade possível. Era a beatitude eterna; não se pode descrevê-la, é extraordinariamente maravilhosa, eu pensava. Os que me cercavam também pareciam encantados. A essa hora da noite, a enfermeira tinha o hábito de esquentar minha refeição, porque somente então podia tomar algum alimento e comer com apetite. 

Durante certo tempo pareceu-me que a enfermeira era uma velha judia, muito mais velha do que na realidade, e que preparava pratos rituais. Quando a olhava, acreditava ver uma halo azul em torno de sua cabeça. Eu próprio me encontrava nos Pardes Rimmonim, o jardim das romãs, e aí se celebrava o casamento de Tiphereth com Malchuth. Ou então era como se eu fosse o rabino Simão ben Yochai, cujas bodas eram celebradas no além. Era o casamento místico tal como aparecia nas representações da tradição cabalística. Não poderia dizer o quanto tudo isso era maravilhoso. Eu não deixava de pensar: “É o jardim das romãs! É o casamento de Malchuth com Tiphereth!” Não sei exatamente que papel eu desempenhava na celebração. No fundo, tratava-se de mim mesmo: eu era o casamento, e minha beatitude era a de um casamento feliz. Pouco a pouco a visão do jardim das romãs se dissipou e se transformou. A essa visão se sucedeu o “casamento do cordeiro”, numa Jerusalém pomposamente ornamentada. Sou incapaz de descrever os pormenores. Eram inefáveis estados de beatitude com anjos e luzes. E eu próprio era o “casamento do cordeiro”. Isso também se dissipou e deu lugar a uma última visão. Eu seguia um largo vale até ao fundo, aos pés de uma suave cadeia de colinas; o vale terminava num anfiteatro antigo que se situava, admiravelmente, na paisagem verdejante. E neste teatro desenrolava-se o Hieros Gamos (matrimônio sagrado): dançarinos e dançarinas apareceram e, sobre um leito ornado de flores, Zeus - Pai do universo e Hera consumavam o Hieros Gamos tal como está descrito na Ilíada.

Todas essas visões eram magníficas. Eu estava mergulhado, noite após noite, na mais pura beatitude, “no meio das imagens de toda a criação”. Pouco a pouco, os motivos se misturavam e empalideciam. Comumente as visões duravam aproximadamente uma hora, depois tornava a dormir e logo de manhã sentia: “De novo uma manhã cinzenta! Volta o mundo sem cor com seu sistema de alvéolos. Que estupidez! Que terrível loucura!” Esses estados interiores eram tão fantásticos que o mundo se me afigurava risível. À medida que retornava à vida, exatamente três semanas após a primeira visão, esses estados visionários cessaram completamente. É impossível ter uma idéia da beleza e da intensidade do sentimento durante as visões. Foi o que vivi de mais prodigioso. E que contraste o dia! Vivia então atormentado e meus nervos estavam completamente esgotados. Tudo me irritava, tudo era muito material, grosseiro, pesado e espiritualmente limitado; tudo parecia artificialmente diminuído com uma finalidade desconhecida e, no entanto, parecia ter uma força hipnótica tão decisiva que era como se fosse a própria realidade, e ao mesmo tempo era claramente discernível sua insignificância. No fundo, a partir dessa época, apesar de recuperar minha crença no mundo, jamais me libertei totalmente da impressão de que “a vida” é este fragmento da existência, que se desenrola num sistema universal de três dimensões com essa finalidade específica. 

Tenho ainda uma lembrança precisa: no início, na época do jardim das romãs, pedia à irmã que me perdoasse caso sofresse algum dano; havia tal sacralidade no quarto que lhe poderia ser prejudicial. Naturalmente ela não compreendia. Para mim a presença do sagrado criava uma atmosfera mágica, no entanto, eu temia que fosse insuportável para outra. Era por esse motivo, que me desculpava; pois nada podia fazer para evitá-lo. Foi então que compreendi porque dizem que um quarto recende a “odor de santidade”. Era isso! Havia no espaço um pneuma de inefável santidade, do qual o mysterium conjunctionis era a manifestação. Nunca pensei que se pudesse viver uma tal experiência, e que uma beatitude contínua fosse possível. Essas visões e acontecimentos eram perfeitamente reais. Nada havia de artificialmente forçado; pelo contrário, tudo era de extrema objetividade. Teme-se usar a expressão “eterno”; não posso, entretanto descrever o que vivi senão como a beatitude de um estado intemporal, no qual presente, passado e futuro são um só. Tudo o que ocorre no tempo concentrava-se numa totalidade objetiva. Nada estava cindido no tempo e nem podia ser medido por conceitos temporais. Poder-se-ia, antes, evocar o que fora vivido como um estado afetivo, no entanto inimaginável. Como representar que vivi simultaneamente o ontem, o hoje, e o amanhã? Havia o que ainda não começara, havia o mais claro presente e algo que já chegara ao fim e, no entanto, tudo era uma-e única coisa. O sentimento só poderia apreender uma soma, uma brilhante totalidade na qual está contida à espera do que vai começar, tanto quanto a surpresa do que acaba de ocorrer e a satisfação ou a decepção quanto ao resultado do que já passou. Um todo indescritível no qual estamos mergulhados e que, no entanto, podemos perceber com plena objetividade. Mais tarde, tive ainda uma vez ocasião de viver esta objetividade: foi depois da morte de minha mulher. 

Ela me apareceu em sonho como se fosse uma visão. Postara-se a alguma distância e me olhava de frente. Estava na flor da idade,tinha cerca de trinta anos e trajava o vestido que minha prima, a médium, lhe fizera, talvez o mais belo que jamais usara. Seu rosto não estava alegre nem triste, mas expressava conhecimento e saber objetivos, sem a menor reação sentimental, além da perturbação dos afetos. Sabia que não era ela, mas uma imagem composta ou provocada por ela em minha intenção. Nessa imagem estava contido o início de nossas relações, os acontecimentos de nossos trinta e cinco anos de casamento e também o fim de sua vida. Diante de tal totalidade permanecemos mudos pois dificilmente podemos concebê-la. A objetividade vivida nesse sonho e nas visões pertence à individuação que se cumpriu. Esta é desprendimento dos juízos de valor e do que nós designamos por liames afetivos. Em geral o homem atribui grande importância aos laços afetivos. Ora, estes encerram sempre projeções que é preciso retirar e recuperar para chegar ao si-mesmo e à objetividade. As relações afetivas são relações de desejo e de exigências, carregadas de constrangimento e servidão: espera-se sempre alguma coisa do outro, motivo pelo qual este e nós mesmos perdemos aliberdade. O conhecimento objetivo situa-se além dos intrincamentos afetivos, e parece ser o mistério central. Somente ele torna possível a verdadeira conjunctio.

Depois dessa doença começou um período de grande produtividade. Muitas de minhas obras principais surgiram então. O conhecimento ou a intuição do fim de todas as coisas deram-me a coragem de procurar novas formas de expressão. Não tentei mais impor meu próprio ponto de vista, mas submetia-me ao fluir dos pensamentos. Os problemas apoderavam -se de mim, amadureciam e tomavam forma. Minha doença teve ainda outras repercussões: elas consistiram, poder-se-ia dizer, numa aceitação do ser, num “sim” incondicional ao que é, sem objeções subjetivas, numa aceitação das condições da existência como as vejo e compreendo; aceitação do meu ser como ele é simplesmente. No início da doença sentia que minha atitude anterior tinha sido um erro e que eu próprio era de qualquer forma responsável pelo acidente. Mas quando seguimos o caminho da individuação, quando vivemos nossa vida, é preciso também aceitar o erro, sem o qual a vida não será completa: nada nos garante – em nenhum instante – que não possamos cair em erro ou em perigo mortal. Pensamos talvez que haja um caminho seguro; ora, esse seria o caminho dos mortos. Então nada mais acontece e em caso algum ocorre o que é exato. Quem segue o caminho seguro está como que morto. Foi só depois da minha doença que compreendi o quanto é importante aceitar o destino. Porque assim há um eu que não recua quando surge o incompreensível. Um eu que resiste, que suporta a verdade e que está à altura do mundo e do destino. Então uma derrota pode ser ao mesmo tempo uma vitória. Nada se perturba, nem dentro, nem fora, porque nossa própria continuidade resistiu à torrente da vida e do tempo. 

Mas isso só acontece se não impedirmos que o destino manifeste suas intenções. Também compreendi que devemos aceitar os pensamentos que se formam espontaneamente em nós como uma parte de nossa própria realidade e isso fora de qualquer juízo de valor. As categorias do verdadeiro e do falso certamente sempreexistem, mas porque não são constrangedoras, ficam à margem.
Porque a existência das idéias é mais importante do que seu julgamento subjetivo. Os julgamentos, entretanto, enquanto idéias existentes, não devem ser reprimidos, porque fazem parte da expressão da totalidade."




 

  
  

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