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13 de abr. de 2012

O Diabo Fascinosum

Lygia Aride Fuentes - Instituto Junguiano do Rio de Janeiro

Vou iniciar este trabalho com uma declaração:

“Eu faço um profissão amoral, onde todas as possibilidades humanas podem ser discutidas. Numa profissão como essa você tem que se lambuzar na alma humana! Nada que é próprio do homem pode te estarrecer ou inibir.”

A propósito, essa declaração é da atriz Fernanda Montenegro que nos faz questionar se, como analistas, temos a mesma disponibilidade para acolher imagens tão aterradoras quanto as que se apresentaram a nós. Estou convidando vocês a experimentarem a emoção do encontro com o Diabo, ou seja, com essa imagem que surge autonomamente na psique humana.


A experiência emocional com o Diabo, esse ser monstruoso, nos faz constatar o quanto ele é, também, sagrado e divino. Nas palavras de Rudolf Otto: “O divino, sob forma do demoníaco, é para a alma objeto de terror e de horror. A imagem demoníaca é, também, numinosa por conter em si um mysterium terrible et fascinans. O mistério não é só o espantoso, é também o maravilhoso.” Este é ao mesmo tempo terrível, porque se dá como prufundo choque, e fascinante porque, paradoxalmente, exerce uma atração irresistível.

Jung diz que, mesmo que não possuíssemos nenhuma imaginação para o mal, ele ainda assim nos possuiria. E isso nos fez compreender o que nos ocorreu, pois que nós não procuramos o Diabo, ele é que veio até nós.

Foi mais ou menos assim como nos fala um personagem de Guimarães Rosa:

“Enquanto a gente brincava, descuidoso, as coisas ruins já estavam armando a assanhação de acontecer. Elas esperavam a gente atrás das portas.”3



E foi assim que ele se apresentou num sonho de uma cliente, o primeiro de uma série. Em suas palavras:
“Encontro-me diante de uma grande porta pesada que está se fechando. Isso se dá num rítmo compassado, e conta-se assim: ’1, 2, 3, ...’. No instante em que a porta vai se fechar, num milionésimo de segundo, o Diabo passa por ela, sorrateiramente, e então ela se fecha no compasso de número 4.” Lá do outro lado da porta, ela diz, “sei que é a casa de Deus. E agora sei, também, que Deus e o Diabo se encontram ali reunidos.”

A cliente fica assustada e atônita com esta constatação, pois vivencia este sonho como uma verdade irrefutável, a ponto de sentir necessidade de dividir essa experiência com todo mundo. Ou, como ela diz, “pelo menos com aquelas pessoas que se iludem sobre um Deus que está no Céu, e que o Inferno fica lá embaixo, bem separado.” Não interpretamos este sonho enquanto referido à Sombra Pessoal da cliente, mas à Sombra Arquetípica, a partir da observação de que essa imagem do inconsciente estaria tratando da transformação da visão maniqueísta de Bem e Mal, constelado na consciência dessa cliente a partir da cultura judeu-cristã, onde ela está inserida. Compreendemos essas imagens como uma experiência gnóstica.

Tanto a cliente quanto os gnósticos foram fortemente afetados por experiências íntimas dessa natureza, e essas experiências contêm uma idéia que compensa uma assimetria divina introduzida e preconizada pela Igreja Cristã, influenciada tanto pela doutrina da Privatio boni, ou seja, da idéia do mal apenas como privação do bem, tanto quanto pela idéia de Deus como Summum Bonum, isto é, totalmente bom. Idéias essas que influenciaram toda a cultura Ocidental.

Esse sonho parece compensar a cisão que se deu na divindade Cristã, resgatando uma coniunctio oppositorum, melhor dizendo, uma antinomia interna total em Deus.

A cliente, após este sonho, entrou em contato com um problema profundo, apresentado não racionalmente, que é a relação entre o homem e a Sombra de Deus. Ou seja, aqui, a questão que se coloca é a do Mal Absoluto preexistindo em Deus. Em termos psicológicos, inicia-se uma profunda relação dialética entre o Ego e a Sombra do Arquétipo do SI-Mesmo.

Segundo Jung4, é bem possível que o indivíduo possa reconhecer o aspectorelativamente mau de sua natureza, isto é, confrontar-se com a Sombra Pessoal ou com a Sombra Coletiva, mas defrontar-se com o absolutamente mau, ou seja, com a Sombra Arquetípica, representa uma experiência ao mesmo tempo rara e assustadora. A O mal é uma realidade e não é possível desembaraçar-se dele por meio de eufemismo, de negação ou de projeção, por isso é necessário aprendermos a conviver com ele. E, ainda, como diz Jung: “o Diabo quer participar da vida, mesmo que até a hora atual, ainda é inconcebível como isso será possível, sem maiores danos.”5

Jung também reconhece que há algo intrínsico ao próprio Si-Mesmo que não se coaduna, não se relaciona, e que, fundamentalmente, não se submete a uma hierarquia. Considerar o Si-Mesmo apenas como o centro ordenador da psique é deixar “escapar” este aspecto sombrio do próprio Si-Mesmo, que é o diabólico, o suicida, o terrorista, etc. Ou como diz Hillmann: “atrás da escuridão reprimida e da sombra pessoal (...) existe a sombra arquetípica, o princípio do não-ser, que foi chamado e descrito como o Demônio, o Mal, o Pecado Original, a Morte, o Nada.”6

Isso nos faz pensar nas palavras de Jung quando ele diz ter esperança que o homem possa, APESAR do mal, libertar-se Deo concendente (pela Graça de Deus), ou seja, obter o impossível que só é possível por Graça. Da mesma forma que Jó, que, após ter esgotado racionalmente suas tentativas para compreender seu sofrimento, abandona-se à antinomia divina dizendo: “(...) meus olhos recorrem a Deus, desfeitos em lágrimas, para que Deus defenda o homem diante de Deus”. 7

A partir daquele primeiro sonho, outros vieram, e o Diabo não mais deixou a cliente em paz até que lhe déssemos a devida atenção, até que dialogássemos com ele, até que o acolhêssemos e o entendêssemos. Soubemos, então, que o Diabo tem seus motivos, e podemos afirmar, agora, que eles são bem legítimos.
A questão da existência ou não do Diabo, enquanto uma entidade externa, real, no sentido literal, perdeu, então, a razão de ser. Pois que se tratava, com efeito, e que efeitos!, da experiência emocional com ele. 

Com isso nos limitamos a confirmar a terrível presença da fenomenologia do Diabo na vida e nos sonhos dos homens; sua relaidade transcendental, enquanto realidade psíquica; a evidência de sua sacralidade, e o significado psicológico correspondente a profundos conflitos internos que ele vem representar.

Na compreensão psicológica de Jung, os enunciados religiosos, tais como Deus, Diabo, Espírito, constituem uma realidade psíquica que não se pode duvidar, pois são a expressão de afetos autônomos da alma. Falamos, então, não da existência do Diabo literalmente, mas sim de um fenômeno que tem seu quantum de energia psíquica, ou afeto, constelado num complexo, desligado da consciência, que podemos observar somente através de símbolos ou imagens organizados a partir de estruturas arquetípicas. A imagem do Diabo é sempre uma projeção da experiência emocional, vivida no momento de uma confrontação e uma tensão entre opostos, criada por uma cisão psíquica, e que tem uma função psicológica.

Percorreremos, então, a imagem do Diabo, tal como um espírito ou um daimon, cuja existência jamais poderá ser provada no mundo exterior, nem ser conhecida por via racional.

Jung recomenda que esse daimon, que foi traduzido por demônio sob a influência dos valores cristãos, não seja tomado neste sentido, mas sim, no sentido do vocábulo grego usado por Diotima, quando se dirige a Sócrates, no Symposium de Platão, correspondendo, então, a um poder determinante, sem consciência, que vem ao nosso encontro, tal como o poder da Providência e do destino. Ficando as decisões éticas, resultantes dessa confrontação, relegadas ao próprio homem.

Assim também se faz necessário explicar que o termo espírito é empregado no Oriente com uma conotação metafísica, mas que, no Ocidente, desde a Idade Média, ele perdeu esse sentido e, posteriormente, se diferenciou a partir do pensamento de Kant, filósofo este que influenciou Jung em algumas de suas idéias.

Jung diz: “A psicologia não os considera [os espíritos] como possuidores de valor absoluto, nem também lhes reconhece a capacidade de expressar uma verdade metafísica”.8

Jung nos diz, ainda, que “os enunciados religiosos são uma espécie de confissão da alma, os quais (...) têm suas raízes em processos inconscientes e (...) transcendentais.”9

Ao utilizar o termo transcendental, Jung baseia-se em Kant, referindo-se àquilo que torna possível o conhecimento da experiência e não vai mais além da experiência, diferindo do termo transcendente, que alude ao que se encontra mais além de toda experiência, é incognoscível e, portanto, inominável.
Jung, tal como Kant, nos fala da falta de meios intelectuais que nos permitam verificar a existência de algo transcendental, pois que “a imagem e o enunciado são processos psíquicos que não se confundem com o seu objeto transcendental”.10 Os processos psíquicos não produzem o objeto transcendental, simplismente o indicam. Dito isto, concluimos que menos meios teríamos, ainda, para conhecer o transcendente. Vemos, então, que Jung trabalha com conceitos tais como: o Inominável, Deus, Diabo, Espírito, Realidade, Verdade, como transcendentais, no sentido kantiano, e não num sentido absoluto. Jung constata também o quanto é reduzida a nossa capacidade de representação e as limitações e pobreza de nossa linguagem para apreendermos esses conceitos na sua realidade última.

Encontramos no filósofo Alain Badiou idéias que corroboram as de Jung a este respeito. Sobre a Verdade Alain Badiou diz: “Que a verdade não tenha potência total significa (...) que a língua-sujeito, produção do processo de verdade, não tem poder de nomeação sobre todos os elementos da situação. Deve haver ao menos um elemento real (...) que permanece inacessível às nominações. (...) Chamaremos esse elemento de o inominável de uma verdade.”11

Mais importante ainda, para a nossa discussão, é percebermos a aproximação das idéias de Jung e desse filósofo acerca, não da existência ou não do Mal ou do Diabo no sentido absoluto, mas sobre a origem do Mal, quando Badiou diz que “toda a absolutização da potência de uma verdade organiza um mal.”12

Jung nos ensina sobre as estruturas arquetípicas, que estas são potencialidades, como o arquétipo do Si-Mesmo, e que este, apesar de constituir a potencialidade da totalidade da psique, não é possível ser apreendido enquanto tal. Sabemos com Jung, que só podemos apreender partes ou aspectos do Si-Mesmo quando estes se constelam na consciência. Se entendemos Deus como uma representação desse arquétipo total, podemos considerar o Diabo como o Todo em forma de parte, ou mesmo, a expressão daquela parte que ficou fora do Todo. Dito isto, nos parece, então, que o Diabo não é, em si, o Mal, mas um mal é criado dependendo de como nos relacionamos com qualquer das potências arquetípicas inconscientes. Quando tomamos, por exemplo, a parte pelo Todo, aí se cria um mal.Além do que, com isso, nos aproximamos do perigo da inflação, ou seja, em função da possessão pela hybris, o homem possuído por uma imagem de totalidade corre o risco de entrar num estado de inflação.

Ao pesquisarmos sobre o Diabo, estamos irremediavelmente ligados à religiosidade e à idéia de Deus, contudo, restringimo-nos à idéia de divindade formulada pela religião judeu-cristã.
Como nos diz a historiadora Karen Armstrong: “Sempre que um conceito de Deus deixou de ter sentido ou importância, foi discretamente abandonado e substituído por uma nova ideologia. (...) Apesar de sua transcendência, a religião é muitíssimo pragmática.”13

Acompanhamos as teorias de Jung, a partir de seus estudos sobre o processo da metamorfose nessa divindade judeu-cristã, e compreendemos como esta metamorfose antecipa uma transformação histórica, na consciência ocidental. Através das mudanças ocorridas em Javeh, da criação de um Deus cristão e da atualização desse Deus, na figura de Cristo, o homem acreditou vislumbrar a totalidade da divindade. Ã primeira vista, pode parecer que os homens haviam se libertado das trevas, do inconsciente, mas o que surgiu foi um monoteísmo unilateral: Deus havia se despojado de seus elementos sombrios e nefastos e se tornara o Summum bonum.

O Mal, era, inicialmente, deflagrado pela mão esquerda de Javeh, além do que, o próprio Javeh operava através de inversões tais como a exigência à Abraão para que matasse o próprio filho Isaac, desobedecendo o mandamento “não matarás”; ou como na história de Jacó, onde este, ludibria seu irmão Esaú, e também o pai. Ele luta contra um anjo durante toda a noite e é ferido na coxa. Jacó exige ao anjo que se revele, este o abençoa, então Jacó vê a sua face e vê que é Deus. Com isso, tornou-se um iniciado e recebeu um novo nome: Israel, que significa, aquele que lutou contra o Senhor.

É com esses homens que Deus fará uma aliança, os terá como “o filho eleito” e dará sua proteção. Mas não nos enganemos, pois a natureza dessa aliança com Deus significava responsabilidade, não privilégio. Ou seja, num nível psicológico, essas experiências requerem uma atitude moral do indivíduo que com elas se relacionam. Nas palavras de Jung: “o critério da ação ética não pode consistir no fato de que aquilo que é considerado bom tome o caráter de um imperativo categórico; inversamente, o que é considerado mau não deve ser evitado de modo absoluto.”14

Goethe parece ir ao âmago da questão ao confessar jamais ter ouvido falar de um crime que ele mesmo não fosse capaz de cometer.

Acompanhamos esse jogo de inversões como um exercício fundamental para que não nos esqueçamos e não nos mantenhamos rigidamente acreditando apenas em um dos lados de qualquer história.

Em uma das passagens mais interessantes do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo15, o romancista português José Saramago, apresenta-nos um diálogo entre Jesus, Deus e o Diabo numa barca em alto mar. Jesus ao perguntar ao Diabo se é mesmo verdade que ele, com a finalidade de levar os homens à tentação, atormentava suas pobres vidas, obtem do Diabo a seguinte resposta: “Mais ou menos, limitei-me a tomar para mim o que Deus não quis, a carne, com a sua alegria e a sua tristeza, a juventude e a velhice, a frescura e a podridão, mas não é verdade que o medo seja uma arma minha, não me lembro de ter sido eu quem inventou o pecado e o seu castigo, e o medo que nelas há sempre.” Além do que, Saramago inverte que seja o Bem algo de Deus, e o Mal, do Diabo, quando, ao continuar o diálogo, Jesus pergunta à Deus: “Com quanto de sofrimento e de morte se pagarão as lutas que, em seu nome e no meu, os homens que em nós vão crer travarão uns contra os outros?”. E Deus desfia inúmeros feitos terríveis: atrocidades, carnificinas, torturas, perseguições, guerras, assassinatos e mortes; que, em nome Dele ou pelas suas próprias mãos, já teriam havido e continuariam ocorrendo ao longo da história da humanidade.

Percebemos nesses confrontos entre o homem e essas entidades tais como Deus, anjos, e o Diabo, a presença do numinoso, e a busca de significação que esse conflito moral impõe.

Jung diz que o problema da moralidade e da ética se apresenta psicologicamente ao homem quando, por um lado, ele tem que refletir e agir de acordo com um julgamento moral que esteja em concordância com sua própria consciência, e por outro, estar em relação com as exigências supra-ordenadas do Si-Mesmo, que é capaz de fazer as mais arbitrárias e penosas solicitações. Ele enfatiza que por trás da ação de um homem não se encontra nem a opinião pública nem o código moral, mas a personalidade da qual ele ainda é inconsciente. E é por ela, por esta personalidade inconsciente, que o homem terá que responsabilizar-se.

1 - Tema Livre apresentado no V Simpósio da Associação Junguiana do Brasil, realizado em setembro de 1997, em Belo Horizonte, M.G., baseado na Dissertação O Diabo Fascinosum apresentada ao Instituto Junguiano do Rio de Janeiro como requisito para obtenção do título de analista no mesmo ano.
2 - OTTO, Rudolf. O Sagrado. Ed. Edições 70. Série Perspectivas do Homem. RJ. 1992. Pg 49.
3 -APUD, Guimarães ROSA, in O Sertão Místico de Rosa. Caderno Mais do Jornal Folha de São Paulo. SP.30/06/96.
4 - JUNG, Carl Gustav. Aion. Vol.IX/2 das Obras Completas. Ed. Vozes. RJ. 1986. Pg 08.
5 - JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos e Reflexões. Ed. Nova Fronteira. 6a Edição. RJ. 1984. Pg 284.
6 - APUD James HILLMANN, in Ao Encontro da Sombra, Connie ZWEIG e Jeremiah ABRAMS (Org.). Ed. Cultrix. SP.1991. Pg 150.
7 - JUNG, Carl Gustav. Resposta à Jó. Vol. XI/4 das Obras Completas. Ed. Vozes. RJ. 1979. Pg 10.
8 - JUNG, Carl Gustav. Psicologia da Religião Ocidental e Oriental. Vol. XI das Obras Completas. Ed. Vozes. 1983. Pg 481.[O grifo é nosso].
9 - JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó. Vol. XI/4 das Obras Completas. Ed. Vozes. RJ. 1979. Pg 02. [O grifo é nosso].
10 - JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó. Vol. XI/4 das Obras Completas. Ed. Vozes. RJ. 1979. Pg 05.
11 - BADIOU, Alain. Ética - Um Ensaio sobre a Consciência do Mal. Ed. Relume-Dumará. RJ. 1995. Pg 94.
12 - BADIOU, Alain. Ética - Um Ensaio sobre a Consciência do Mal. Ed. Relume-Dumará. RJ. 1995. Pg 93. [O grifo é nosso].
13 - ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus: Quatro Milênios de Busca do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Ed. Companhia das Letras. SP. 1994. Pg 10.
14 - JUNG, Carl Gustav. Memórias,Sonhos e Reflexões. Ed. Nova Fronteira. 6a Edição. RJ. 1984. Pg 284.
15 - SARAMAGO, José. O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Ed. Companhia das Letras. SP. 1992. Pgs 380 e 386.


   

12 de set. de 2010

Sete Sermões aos Mortos - C. G. Jung

http://g.psychcentral.com/blog/2009/09/jung_redbook02.jpg“A produção deste pequeno livro foi precedida por eventos estranhos e esteve repleta de fenômenos de natureza parapsicológica.. Primeiro, vários filhos de Jung viram e perceberam ‘entidades fantasmagóricas’ dentro de casa, enquanto ele próprio sentiu uma ‘atmosfera ameaçadora’ à sua volta. Uma das crianças teve um sonho de tom religioso um pouco ameaçador, envolvendo um anjo e um demônio. Então, numa tarde de domingo, o sino da porta de entrada soou furiosamente. Podia-se vê-lo movendo freneticamente, mas não havia ninguém à vista que fosse responsável pelo ato. Uma multidão de ‘espíritos’ parecia encher a sala, na verdade a casa, e ninguém podia respirar normalmente no vestíbulo infestado de ‘fantasmas’. O Dr. Jung gritou com voz perturbadora e trêmula: ‘Em nome de Deus, o que significa isso?’ A resposta veio num coro de ‘vozes fantasmagóricas’: ‘Voltamos de Jerusalém, onde não encontramos o que buscávamos’. Com essas palavras começa o tratado que se intitula em latim Septem Sermones ad Mortuos, e então continua em alemão com o subtítulo: “Sete Exortações aos mortos escrito por Basilides de Alexandria, a cidade onde oriente e ocidente se encontram”.
(Hoeller, p. 41)


HISTÓRICO:
* Sua primeira edição foi em alemão e poucas cópias foram distribuídas entre seus amigos íntimos uma versão impressa, sem data nem reserva de direitos.
* Houve também uma edição inglesa em 1952, impressa particularmente por John M. Matkins, traduzido para o inglês por H. G. Baynes. Essa edição também não possui reserva de direitos.
* Anos mais tarde, a Random House Inc. publicou este tratado - copyright 1961, 1962 e 1963.
* Terceira edição inglesa, impressa e publicada por Robinsos & Watkins, Ltd. Londres, copyright 1967.
* A primeira edição americana de “Memórias Sonhos e Reflexões”, de 1961, editada por Aniela Jaffé, com tradução de Richard e Clara Winston, publicada pela Pantheon Books de Nova York, reproduziu fielmente a primeira edição alemã deste livro que não incluía “Os Sete Sermões aos Mortos”.
* Logo após surgiu uma edição americana, da Vintage Books, com este tratado incluso no “Memórias Sonhos e Reflexões” sob a forma de apêndice (copyright 1961, 1962, 1963)

OBSERVAÇÃO: O ANAGRAMA contido no final deste tratado jamais foi “traduzido”, Jung nunca mencionou seu significado…

SEPTEM SERMONES AD MORTUOS
Sete exortações aos mortos, escritas por Basilides em Alexandria, a cidade onde Oriente e Ocidente se encontram.

Por Carl Gustav Jung

O PRIMEIRO SERMÃO

Os mortos retornaram de Jerusalém, onde não encontraram o que buscavam. Eles pediram para serem admitidos à minha presença e exigiram ser por mim instruídos; assim, eu os instruí:

Ouvi: Eu começo com nada. Nada é o mesmo que plenitude. No estado de infinito, plenitude é o mesmo que vazio. O Nada é ao mesmo tempo vazio e pleno. Pode-se também afirmar alguma outra coisa a respeito do Nada, ou seja, que é branco ou negro, existente ou inexistente. Aquilo que é infinito e eterno não possui qualidades porque contém todas as qualidades.
O Nada ou plenitude é por nós chamado de o PLEROMA. Nele, pensamento e existência cessam, porque o eterno é desprovido de qualidades. Nele, não existe ninguém, porque se existisse alguém, este então se diferenciaria do Pleroma e possuiria qualidades que o distinguiriam do Pleroma.

No Pleroma não existe nada e existe tudo: não é bom pensar sobre o Pleroma, pois fazê-lo significaria dissolução.

O MUNDO CRIADO não está no Pleroma, mas em si mesmo. O Pleroma é o princípio e o fim do mundo criado. O Pleroma penetra o mundo criado como a luz solar penetra toda a atmosfera. Embora o Pleroma penetre-o por completo, o mundo criado não participa dele, da mesma forma que um corpo sumamente transparente não se torna escuro ou colorido como resultado da passagem da luz por ele. Nós mesmos, no entanto, somos o Pleroma e assim sendo, o Pleroma está presente em nós. Mesmo no ponto mais minúsculo, o Pleroma está presente sem limite algum, eterna e completamente, porque pequeno e grande são qualidades estranhas ao Pleroma. Ele é o nada onipresente, completo e infinito. Eis porque vos falo do mundo criado como uma porção do Pleroma, mas unicamente em sentido alegórico; pois o Pleroma não se divide em partes, por ser o nada. Somos também o Pleroma como um todo; visto que num aspecto figurativo o Pleroma é um ponto excessivamente pequeno, hipotético, quase inexistente em nós, sendo igualmente o firmamento ilimitado do cosmo à nossa volta. Por que então discorremos sobre o Pleroma, se ele é o todo e também o nada?

Eu vos falo como ponto de partida, e também para eliminar de vós a ilusão de que em algum lugar, dentro ou fora, existe algo absolutamente sólido e definido. Tudo o que chamam de definido e sólido não é mais do que relativo, porque somente o que está sujeito a mudança apresenta-se definido e sólido.

O mundo criado está sujeito a mudar. Trata-se da única coisa sólida e definida, uma vez que possui qualidades. Em verdade, o próprio mundo criado nada mais é que uma qualidade.
Indagamos: como se originou a criação? As criaturas de fato têm origem, mas não o mundo criado, porque este é uma qualidade do Pleroma, da mesma forma que o incriado; a morte eterna também representa uma qualidade do Pleroma. A criação é eterna e onipresente. O Pleroma possui tudo: diferenciação e indiferenciação.

Diferenciação é criação. O mundo criado é de fato diferenciação. A diferenciação é a essência do mundo criado e, por essa razão, o que é criado gera também mais diferenciação. Eis porque o próprio homem é um divisor, porquanto sua essência é também diferenciação. Eis por que ele distingue as qualidades do Pleroma, qualidades essas que não existem. Essas divisões, o homem extrai de seu próprio ser. Eis por que o homem discorre sobre as qualidades do Pleroma, que são inexistentes

Vós me dizeis: Que benefício existe então em falar sobre o assunto, uma vez que se afirmou ser inútil pensar sobre o Pleroma?

Eu vos digo essas coisas para libertar-vos da ilusão de que é possível pensar sobre o Pleroma. Quando falamos de divisões do Pleroma, falamos da posição de nossas próprias divisões, falamos de nosso próprio estado diferenciado; mas embora procedamos desta forma, na realidade nada dissemos sobre o Pleroma. No entanto, é necessário falarmos de nossa própria diferenciação. Eis por que devemos distinguir qualidades individuais.

Dizeis: Que mal não decorre do discriminar, pois nesse caso transcendemos os limites de nosso próprio ser; estendemo-nos além do mundo criado e mergulhamos no estado indiferenciado, outra qualidade do Pleroma. Submergimos no próprio Pleroma e deixamos de ser seres criados. Assim, tornamo-nos sujeitos à dissolução e ao nada.

Essa é a verdadeira morte do ser criado. Morremos na medida em que não somos capazes de discriminar. Por essa razão, o impulso natural do ser criado volta-se para a diferenciação e para a luta contra o antigo e pernicioso estado de igualdade. A tendência natural chama-se Princípio de Individuação. Esse princípio constitui de fato a essência de todo ser criado. A partir de tudo isso, podeis prontamente reconhecer por que o princípio indiferenciado e a falta de discriminação representam um grande perigo para os seres criados. Eis por que devemos ser capazes de distinguir as qualidades do Pleroma. Suas qualidades são os PARES DE OPOSTOS, tais como:

o eficaz e o ineficaz
plenitude e o vazio
o vivo e o morto
diferença e igualdade
luz e treva
quente e frio
energia e matéria
tempo e espaço
bem e mal
beleza e fealdade
o um e os muitos
e assim por diante.
Os pares de opostos são as qualidades do Pleroma: também são na verdade inexistentes, porque se anulam mutualmente.

Como nós mesmos somos o Pleroma, também possuímos essas qualidades presentes em nós. Visto que a essência do nosso ser é a diferenciação, possuímos essas qualidades em nome e sob o sinal da diferenciação, o que significa:

Primeiro: que em nós as qualidades estão diferenciadas, separadas, umas das outras e, dessa forma, não se anulam mutualmente; ao contrário, encontram-se em atividade. Eis por que somos vítimas dos pares de opostos. Porque em nós o Pleroma divide-se em dois.

Segundo: as qualidades pertencem ao Pleroma, e nós podemos e devemos partilhá-las somente em nome e sob o sinal da diferenciação. Devemos nos separar dessas qualidades. No Pleroma, elas se anulam mutualmente; em nós não. Porém, se soubermos percebermo-nos como seres à parte dso pares de opostos, obteremos a salvação.

Quando lutamos pelo bom e pelo belo, esquecemo-nos de nosso ser essencial, que é a diferenciação, e nos tornamos vítimas das qualidades do Pleroma, os pares de opostos. Lutamos para alcançar o bom e o belo, mas ao mesmo tempo obtemos o mau e o feio, porque no Pleroma estes são idênticos àqueles. Todavia, se permanecermos fiéis à nossa natureza, que é a diferenciação, então nos diferenciaremos do mau e do feio. Só assim não imergimos no Pleroma, ou seja, no nada e na dissolução.

Discordareis, dizendo: Afirmastes que diferenciação e igualdade constituem também qualidades do Pleroma. O que ocorre, quando lutamos pela diferenciação? Não somos no caso fiéis à nossa natureza e, portanto, devemos também ficar eventualmente em estado de igualdade , enquanto lutamos pela diferenciação?

O que não deveis esquecer jamais é que o Pleroma não tem qualidades. Somos nós que criamos essas qualidades através do intelecto. Quando lutamos pela diferenciação ou pela igualdade, ou por outras qualidades, lutamos por pensamentos que fluem para nós a partir do Pleroma, ou seja, pensamentos sobre as qualidades inexistentes do Pleroma. Enquanto perseguis essas idéias, vós vos precipitais novamente no Pleroma, chegando ao mesmo tempo à diferenciação e à igualdade. Não a vossa mente, mas o vosso ser constitui a diferenciação. Eis por que não deveríeis lutar pela diferenciação e pela discriminação como as conheceis, mas sim por VOSSO PRÓPRIO SER. Se de fato assim o fizéssemos, não teríeis necessidade de saber coisa alguma sobre o Pleroma e suas qualidades e, ainda assim, atingiríeis o vosso verdadeiro objetivo, devido à vossa natureza. No entanto, como o raciocínio aliena-vos de vossa real natureza, devo ensinar-vos o conhecimento para que possais manter vosso raciocínio sob controle.

O SEGUNDO SERMÃO

Os mortos se ergueram durante a noite junto às paredes e gritaram: Queremos saber sobre Deus! Onde está Deus?

- Deus não está morto; Ele está tão vivo quanto sempre esteve. Deus é o mundo criado, na medida em que é algo definido e, portanto, diferenciado do Pleroma. Deus é uma qualidade do Pleroma, e tudo o que afirmei sobre o mundo criado é igualmente verdadeiro no que a Ele se refere.

Entretanto, Deus se distingue do mundo criado, pois é menos definido e definível do que o mundo criado em geral. Ele é menos diferenciado que o mundo criado, porque a essência do seu SER é a efetiva plenitude; e só na medida se Sua definição e diferenciação que Ele é idêntico ao mundo criado; portanto, Ele representa a manifestação da efetiva plenitude do Pleroma.

Tudo o que não diferenciamos precipita-se no Pleroma e anula-se com seu oposto. Portanto, se não discernimos Deus, a plenitude efetiva elimina-se para nós. Deus é também o próprio Pleroma, da mesma forma que cada um dos pontos mais minúsculos dentro do mundo criado, bem como no plano incriado, constitui o próprio Pleroma.

O vazio efetivo é o ser do Demônio. Deus e Demônio são as primeiras manifestações do nada a que chamamos de Pleroma. Não importa se o Pleroma existe ou não existe, porque ele se anula em todas as coisas. O mundo criado, entretanto, é diferente. Na medida em que Deus e Demônio são seres criados, eles não se suprimem mutualmente, mas resistem um ao outro como opostos ativos. Não necessitamos de prova da sua existência; basta que sejamos obrigados a falar sempre deles. Mesmo que eles não existissem, o ser criado (devido à sua própria natureza) os produziria continuamente, a partir do Pleroma.

Tudo o que se origina no Pleroma pela diferenciação constitui pares de opostos; portanto, Deus sempre tem consigo o Demônio.

Como aprendestes, esse inter-relacionamento é tão íntimo, tão indissolúvel em vossas vidas, que se apresenta como o próprio Pleroma. Isso porque ambos permanecem muito próximos do Pleroma, no qual todos os opostos se anulam e se unificam.

Deus e Demônio distinguem-se pela plenitude e pelo vazio, pela geração e pela destruição. A atividade é comum a ambos. A atividade unifica-os. Eis por que ela permanece acima de ambos, sendo Deus acima de Demônio, por unificar plenitude e vazio em seu trabalho.

Há um Deus sobre o qual nada sabeis, porque os homens esqueceram-no. Nós o chamamos por seu nome: ABRAXAS. Ele é menos definido que Deus ou o Demônio. Para distinguir Deus dele, chamamos a Deus Hélios, ou o Sol.

Abraxas é a atividade; nada pode resistir-lhe, exceto o irreal, e assim, o seu ser ativo desenvolve-se livremente. O irreal não existe, portanto, não pode de fato resistir. Abraxas permanece acima do sol e acima do demônio. Ele é o improvável provável, que é poderoso no plano da irrealidade. Se o Pleroma pudesse ter uma existência, Abraxas seria sua manifestação.

Embora ele seja a própria atividade, não constitui um resultado específico, mas um resultado em geral.

Ele representa a não-realidade ativa, porque não possui um resultado definido.
Ele é ainda um ser criado, na medida em que se diferencia do Pleroma.

O sol exerce um efeito definido, assim como o demônio; portanto, eles se nos apresentam muito mais efetivos do que o indefinível Abraxas.

Pois ele é poder, persistência e mutação.

-Nesse ponto, os mortos provocaram uma grande rebelião, porque eram cristãos.

O TERCEIRO SERMÃO

Os mortos aproximaram-se como névoa saída dos pântanos e gritaram: -Fala-nos mais sobre o deus supremo!

- Abraxas é o deus a quem é difícil conhecer. Seu poder é verdadeiramente supremo, porque o homem não o percebe de modo algum. O homem vê o summum bonum (bem supremo) do sol e também o infinum malum (mal sem fim) do demônio, mas Abraxas não, porque este é a própria vida indefinível, a mãe do bem e do mal igualmente.
A vida parece menor e mais fraca do que o summum bonum (bem supremo), daí a dificuldade de se conceber que Abraxas possa suplantar em seu poder o sol, que representa a fonte radiante de toda a força vital.

Abraxas é o sol e também o abismo eternamente hiante do vazio, do redutor e desagregador, o demônio.

O poder de Abraxas é duplo. Vós não podeis vê-lo, porque a vossos olhos a oposição a esse poder parece anulá-lo.

O que é dito pelo Deus-Sol é vida.
O que é dito pelo Demônio é morte.

Abraxas, no entanto, diz a palavra venerável e também a maldita, que é vida e morte ao mesmo tempo.

Abraxas gera a verdade e a falsidade, o bem e o mal, a luz e a treva, com a mesma palavra e no mesmo ato. Portanto, Abraxas é verdadeiramente o terrível.

Ele é magnífico como o leão no exato momento em que abate sua presa. Sua beleza equivale à beleza de uma manhã de primavera.
De fato, ele próprio é o Pã maior e também o menor. Ele é Príapo.
Ele é o monstro do inferno, o polvo de mil tentáculos, o contorcer de serpentes aladas e da loucura.
Ele é o hermafrodita da mais baixa origem.
Ele é o senhor dos sapos e das rãs que vivem na água e saem para a terra, cantando juntos ao meio-dia e à meia-noite.
Ele é plenitude unindo-se ao vazio;
Ele constituí as bodas sagradas;
Ele é o amor e o assassino do amor;
Ele é o santo e o seu traidor.
Ele é a luz mais brilhante do dia, e a mais profunda noite da loucura.
Vê-lo significa cegueira;
Conhecê-lo é enfermidade;
Adorá-lo é morte;
Temê-lo é sabedoria;
Não resistir-lhe significa libertação.

Deus vive detrás do Sol; o demônio vive atrás da noite. O que deus traz à existência a partir da luz, o demônio arrasta para a noite. Abraxas, entretanto, é o cosmo; sua gênese e sua dissolução. A cada dádiva do Deus-Sol, o demônio acrescenta sua maldição.

Tudo aquilo que pedis a Deus-Sol leva a uma ação do demônio. Tudo o que abstendes através do Deus-Sol aumenta o poder efetivo do demônio.

Assim é o terrível Abraxas.
Ele é o mais poderoso ser manifestado e nele a criação torna-se temerosa de si mesma.
Ele é o terror do filho, que ele sente contra a mãe.
Ele é o amor da mãe por seu filho.
Ele é o prazer da terra e a crueldade do céu.
Diante de sua face o homem fica paralisado.
Ante ele, não há pergunta nem resposta.
Ele é a vida da criação.
Ele é a atividade da diferenciação.
Ele é o amor do homem.
Ele é a fala do homem.
Ele é tanto o brilho como a sombra escura do homem.
Ele é a realidade enganosa.

- Nesse ponto, os mortos clamaram e deliraram porque ainda eram seres incompletos.

O QUARTO SERMÃO

Resmungando, os mortos encheram a sala e disseram: - Tus que és maldito, fala-nos sobre deuses e demônios!

-Deus-Sol é o bem supremo, o demônio é o oposto; portanto, tendes dois deuses. Há, contudo, inúmeros grandes bens e numerosos grandes males; entre eles existem dois deuses-demônios, um dos quais é o FLAMEJANTE e o outro, o FLORESCENTE. O flamejante é EROS em sua forma de chama. Ele brilha e devora. O florescente é a ÁRVORE DA VIDA; ela cresce verdejante e acumula matéria viva enquanto cresce. Eros flameja e então se apaga; a árvore da vida, no entanto, desenvolve-se lentamente através de incontáveis eras.

Bem e mal estão unidos na chama.
Bem e mal estão unidos no crescimento da árvore.
Vida e morte opõem-se mutualmente em sua divindade.

Imensurável como os agrupamentos de estrelas é o número de deuses e demônios. Cada estrela representa um deus e cada espaço ocupado por uma estrela, um demônio. E o vazio do todo é o Pleroma. A atividade do todo é Abraxas; só o irreal opõe-se a ele. O quatro constitui o número das divindades principais, porque quatro é o número das dimensões do mundo. O Um é o princípio; Deus-Sol. O Dois é Eros, porque ele se expande com uma luz brilhante e combina duas. O Três é a Árvore da Vida, porque ela preenche o espaço com corpos. O quatro é o demônio, porque ele abre tudo o que está fechado; ele dissolve tudo o que tem forma e corpo; ele é o destruidor, no qual todas as coisas dão em nada.

Abençoado sou, porque me é dado conhecer a multiplicidade e a diversidade dos deuses. Lastimo-vos, porque substituístes a unidade de Deus pela diversidade que não se pode converter em unidade. Por meio disso, criastes o tormento da incompreensão e a mutilação do mundo criado, cuja essência e lei é a diversidade. Como podeis ser leais à vossa natureza quando tentais fazer um dos muitos? O que fazeis aos deuses, também vos sobrevém. Todos vós se tornam, assim, iguais e, por isso, vossa natureza também, fica mutilada

Em benefício do homem pode reinar a unidade, mas nunca em benefício de Deus, pois existem muitos deuses, porém poucos homens. Os deuses são poderosos e suportam sua diversidade, visto que, como as estrelas, eles permanecem em solidão e separados por vastas distâncias uns dos outros. Os seres humanos são fracos e não conseguem suportar sua diversidade, por viverem próximos uns dos outros e desejarem companhia; assim sendo, não podem suportar os próprios e distintos isolamentos. Em prol da salvação, eu vos ensino aquilo que se deve eliminar, em favor do que eu próprio fui banido.

A multiplicidade dos deuses iguala a multiplicidade dos homens. Incontáveis deuses aguardam para tornarem-se homens. Inúmeros já o foram. O homem é um partícipe da essência dos deuses; ele vem dos deuses e vai para Deus.

Do mesmo modo que é inútil pensar sobre o Pleroma, é inútil adorar essa pluralidade de deuses. Menos útil ainda é adorar o primeiro Deus, a efetiva plenitude e o bem supremo. Através de nossas preces, não podemos nem acrescentar-lhe algo nem subtrair-lhe, porque o efetivo vazio tudo absorve. Os deuses de luz compõem o mundo celestial, que é múltiplo e estende-se até o infinito, expandindo-se ilimitadamente. Seu senhor supremo é o Deus-Sol.

Os deuses das trevas constituem o inferno. Eles não são complexos e têm a capacidade de diminuir e encolher infinitamente. Seu senhor mais profundo é o demônio, o espírito da lua, o servo da terra, que é menor, mais frio e mais inerte do que a terra.

Não há diferença no poder dos deuses celestiais e terrestres. Os celestiais expandem-se, os terrestres contraem-se. As duas direções estendem-se ao infinito.

O QUINTO SERMÃO

Os mortos cheios de escárnio, gritaram: - Ensina-nos, ó tolo, sobre a Igreja e santa comunidade!

- O mundo dos deuses manifesta-se na espiritualidade e na sexualidade. Os deuses celestiais expressem-se na espiritualidade e os terrenos, na sexualidade.

A espiritualidade recebe e compreende. Ela é feminina, por isso nós a chamamos de MATER COELESTIS, a mãe celestial. A sexualidade gera e cria. Ela é masculina, portanto nós a chamamos de PHALLOS, o pai telúrico. A sexualidade do homem é mais terrena enquanto a sexualidade da mulher, mais celestial. A espiritualidade do homem é celestial, porquanto se move na direção do maior. Por outro lado, a espiritualidade da mulher é mais terrena porque se move na direção do menor.

Ilusória e demoníaca é a espiritualidade do homem que se dirige ao menor. Ilusória e demoníaca é a espiritualidade da mulher que se dirige ao maior. Cada uma deve dirigir-se a seu próprio lugar.

Homem e mulher tornam-se demônios um para o outro quando não separam seus caminhos espirituais, pois a natureza dos seres criados é sempre a natureza da diferenciação.

A sexualidade do homem volta-se para o terreno; a sexualidade da mulher volta-se para o espiritual. Homem e mulher tornam-se demônios um para o outro quando não distinguem suas duas formas de sexualidade.

O homem deve conhecer o que é menor, a mulher o que é maior. O homem deve separar-se da espiritualidade e também da sexualidade. Ele deve chamar a espiritualidade e mãe e entronizá-la entre o céu e a terra. Ele deve chamar a sexualidade de phallos, colocando-a entre o próprio ser e a terra, porque a mãe e phallos são demônios super-humanos e manifestações do mundo dos deuses. Eles se apresentam mais eficientes para nós do que os deuses por estarem mais próximos do nosso ser. Quando não puderdes distinguir entre vós próprios, de um lado, a sexualidade e espiritualidade, de outro, e quando não fordes capazes de considerar que ambos são seres superiores e exteriores a vós, então sereis vitimados por eles, i. e., pelas qualidades do Pleroma. Espiritualidade e sexualidade não constituem qualidades vossas, não são coisas que podeis possuir e apreender, ao contrário, trata-se de demônios poderosos, manifestações de deuses e, portanto, são muito superiores a vós e existem em si mesmas. Ninguém possui espiritualidade ou sexualidade para si mesmo; antes, estamos sujeitos às leis da sexualidade e da espiritualidade. Portanto, ninguém escapa a esses dois demônios. Deveis considerá-los demônios, causas comuns e perigos graves, assim como os deuses e, acima de tudo, o terrível Abraxas.

O homem é fraco, portanto a comunidade torna-se indispensável; se não a comunidade sob o signo da mãe, então aquela sob o signo de phallos. Não haver comunidade constitui sofrimento e enfermidade. A comunidade traz consigo fragmentação e dissolução. A diferenciação conduz à solidão. A solidão é contrária à comunidade. Devido à fraqueza da vontade humana, em oposição aos deuses e demônios e suas leis que não se pode escapar, a comunidade é necessária.

Eis por que devem existir tantas comunidades quantas forem necessárias; não por causa dos homens, mas por causa dos deuses. Os deuses forçam-nos a uma comunhão. Eles vos forçam a associar-vos tanto quanto necessário; mais do que isso, porém, converte-se num mal.

Em comunhão, cada um deve sujeitar-se ao outro, para a preservação da comunidade, visto que dela tendes necessidade. No estado de solidão, cada qual será colocado acima dos demais, para que possa conhecer-se e evitar a servidão. Na comunidade haverá abstinência.

Na solidão, deixai que haja desperdício de abundância. Porque a comunidade é profundidade enquanto a solidão, altura.
A verdadeira ordem na comunidade purifica e preserva.
A verdadeira ordem na solidão purifica e aumenta.
A comunidade dá-nos calor; a solidão, luz.

O SEXTO SERMÃO

O demônio da sexualidade insinua-se em nossa alma como uma serpente. Trata-se de uma alma semi-humana e chama-se pensamento-desejo.

O demônio da espiritualidade pousa em nossa alma como um pássaro branco. Trata-se de uma alma semi-humana e chama-se desejo-pensamento.

A serpente constitui uma alma telúrica, semi-demoníaca, um espírito relacionado com o espírito dos mortos. Com o espírito dos mortos, a serpente penetra vários objetos terrenos. Ela também instila temor de si no coração dos homens e inflama-lhes o desejo. A serpente geralmente tem caráter feminino e busca a companhia dos mortos. Ela se associa aos mortos presos à terra que não encontraram o caminho pelo qual se passa ao estado de solidão. A serpente é uma prostituta que se consorcia com o demônio e maus espíritos; ela é um espírito tirano e atormentador, sempre tentando as pessoas a cultivar a pior espécie de companhia.

O pássaro branco representa a alma semi-celestial do homem. Ele vive com a mãe, descendo ocasionalmente da morada materna. O pássaro é masculino e chama-se pensamento efetivo. Ele é casto e solitário, um mensageiro da mãe. Voa alto sobre a terra. Comanda a solidão. Traz mensagens de longe, daqueles que nos antecederam na partida, daqueles que alcançaram a perfeição. Leva nossas palavras até a mãe. A mãe intercede e adverte, mas não possui poderes contra os deuses. Ela é um veículo do sol.

A serpente desce às profundezas e, com sua astúcia, ao mesmo tempo paralisa e estimula o demônio fálico. Ela traz das profundezas os pensamentos mais ardilosos do demônio telúrico; pensamentos que rastejam por todas as passagens e tornam-se saturados de desejo. Embora não deseje sê-lo, ela nos é útil. A serpente escapa ao nosso alcance, nós a perseguimos, e assim ela nos mostra o caminho, o qual, com nossa limitada capacidade humana, não poderíamos encontrar.

-Os mortos ergueram o olhar com desprezo e disseram: - Cessa de falar-nos sobre deuses, demônios e almas. Sabemos de tudo isso em essência há muito tempo!

O SÉTIMO SERMÃO

À noite novamente retornaram os mortos, dizendo entre queixas: - Uma coisa mais devemos saber, pois esquecemos de discuti-la: ensina-nos a respeito do homem!

- O homem é um portal por meio do qual penetramos, do mundo exterior dos deuses, demônios e almas, no mundo interior; do mundo maior no mundo menor. Pequeno e insignificante é o homem; logo o deixamos para trás e assim entramos uma vez mais no espaço infinito, no microcosmo, na eternidade interior.

À imensurável distância cintila solitária uma estrela, no ponto mais alto do céu. Trata-se do único Deus desse solitário ser. É seu mundo, seu Pleroma, sua divindade.

Nesse mundo, o homem é Abraxas, que dá discernimento a seu próprio mundo e devora-o.
Essa estrela é o Deus do homem e seu destino.
Ela é sua divindade tutelar; nela o homem encontra o repouso.

A ela conduz a longa jornada da alma após a morte; nela reluzem todas as coisas que, de outro modo, poderiam afastar o homem do mundo maior, com o brilho de uma grande luz.

A esse Ser, o homem deveria orar.
Tal prece aumenta a luz da estrela.
Tal prece constrói uma ponte sobre a morte.
Ela aumenta a vida no microcosmo; quando o mundo exterior esfria, essa estrela ainda brilha.

Nada poderá separar o homem de seu Próprio Deus, se ele ao menos conseguir desviar o olhar do feérico espetáculo de Abraxas.

Homem aqui, Deus lá. Fraqueza e insignificância aqui, eterno poder criador lá. Aqui, há somente treva e frio úmido. Lá tudo é luz solar.
Tendo assim ouvido, os mortos silenciaram e elevaram-se como a fumaça da fogueira do pastor que guarda o seu rebanho à noite.


ANAGRAMA:
Nahtriheccunde
Gahinneverahtunin
Zehgessurklach
Zunnus
  
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