2 de abr de 2015

Parabrahman (e Paramâtman, Para-Purusha, Paranishpanna)

"A Luz Absoluta só pode parecer, aos nossos olhos (mentais) relativos, como Trevas, Obscuridade.
Ser Absoluto é Não Ser; Consciência Absoluta é Inconsciência; Som Absoluto é Silêncio; Luz Absoluta é Obscuridade e Trevas. A Luz, o Verbo, o Logos inicia a criação, espoleta e ordena o Cosmos – o Cosmos manifestado, relativo, condicionado… A luz implica relatividade, distinção entre o Conhecedor, o Conhecido (objecto do Conhecimento) e o meio do Conhecimento."
Introdução

O étimo Para, em sânscrito, transmite a ideia de “infinito”, “de absoluto”, de “supremo”, de “derradeiro”, de “último limite”, de mais elevado, de superior, de alheio, de diferente, de anterior e posterior; em geral, de “aquilo que está mais além de”.

O recurso, de algum modo frequente, a palavras com este prefixo Para justifica-se, em Ocultismo, pela necessidade incontornável de fazer referência a algo que seja absoluta e radicalmente, a algo que seja independentemente de qualquer condicionamento, de qualquer relatividade; a algo que seja permanente (logo, real), face à impermanência (logo, à irrealidade) das coisas contingentes, das coisas que adquirem novas propriedades e perdem outras anteriormente exibidas; a algo que não esteja envolvido na sucessão fenomenal, a algo que não seja causado e dependente, a algo que seja o fundamento e o substratum da existência; a algo que seja o Ser mais além do ir sendo, a algo que seja infinito e eterno, face à limitação ontológica, espacial e temporal; a algo que seja Causa de si mesmo, por detrás do fluxo das coisas causadas ou criadas; a algo que, depois de desvanecido tudo quanto é objectivo, manifestado, concreto, individual e específico neste universo, subsista como pura unidade, como o “ser todo” num eterno agora, como o que “sempre foi, é e será”; a algo, enfim, que seja plenitude de Ser e ausência de atributos particulares.

Nenhum sistema filosófico-científico sério pode estar fundado sem uma tal referência de algo permanente (nem que seja o movimento absoluto), nenhuma tradição espiritual pode apresentar como meta algo que não esteja mais além das contingências, que lhes seja alheio e superior. Até as teologias de Igrejas destituídas de Ciência espiritual e profundidade filosófica falam (ainda que confusamente) de Deus como Alfa e Ómega de tudo quanto existe. Mesmo as doutrinas materialistas postulam a eternidade da matéria. Entretanto, a Ciência Oculta, bem como as filosofias religiosas mais profundas e subtis, sustentam e demonstram que esse Algo não é, não pode ser, uma Pessoa (mesmo que dita, paradoxalmente, Divina); e que o fundamento de Ser é tanto Espírito como Matéria, ou melhor, é Algo que está além de toda a dualidade, incluindo a dualidade Espírito-Matéria, e de que estes são apenas dois aspectos.

Parabrahman

A palavra, por excelência, que procura designar aquilo que, em última instância, não pode ser expressado, mas que corresponde à necessidade atrás referida, é Parabrahman.
Acerca de Parabrahman (ou Parabrahm, como também se grafa), esclarece Helena Blavatsky, em algumas das suas obras: 

Literalmente, é “superior a Brahmâ”. É o supremo e infinito Brahma, o “Absoluto”, a Realidade sem atributos e sem segundo; supremo universal, impessoal e inominado. É o Princípio eterno, omnipresente, infinito, imutável, inconcebível e inefável. É o Único Todo Absoluto, a Única Realidade Absoluta, Aquele, o supremo e eternamente não manifestado, que antecede a todo o manifestado. É a Causa incausada do Universo, Raiz sem raiz de ‘tudo o que foi, é e será’. Tal Realidade Una é, naturalmente, desprovida de todo e qualquer atributo, e permanece essencialmente sem relação nenhuma com o Ser manifestado e finito. Parabrahman não é ‘Deus’ pela razão de que não é um Deus. Como diz o Mândûkya Upanishad, é Aquele “que é supremo e não supremo (parâvara)”: é supremo como causa e não supremo como efeito. É o Espaço infinito, no mais elevado sentido espiritual. Para os nossos sentidos e para a percepção dos seres finitos, é Não-Ser, no sentido de que é a única Seidade (Beness); porque neste Todo se encontra oculta a sua coetânea emanação ou radiação inerente, que, convertendo-se periodicamente em Brahmâ (a Potência masculino-feminina), desdobra-se (transformando-se) no Universo manifestado. O Espírito (ou Consciência) e a Matéria são os dois símbolos ou aspectos de Parabrahm, o Absoluto, que constituem a base do Ser condicionado, seja subjectivo ou objectivo”1. 

O entendimento de que se tenta aludir o inefável e indizível está suposto na etimologia da palavra em causa (Parabrahman). Com efeito, não se define ou restringe de modo algum Isso ou Aquilo mesmo que está além (Para) de Brahman. É “apenas” Aquilo ou Isso (e não Isto) que é diferente e que está mais além de Brahman, sem que nenhum atributo lhe seja referido, porque dele carece (o Absoluto não pode ter atributos, pois os atributos, circunscrevendo, delimitando, são do domínio do relativo). Toma-se o Brahman – o Todo manifestado – como aquilo que é cognoscível; e o Para, como Algo de ainda além, é colocado como simples negação. Qualquer pergunta ou afirmação sobre a sua natureza, recebe a clássica resposta neti, neti – não é isso, não é isso. 

De resto, mesmo nas concepções mais elevadas, “Parabrahman aparece-nos como Mûlaprakriti (…). Esta Mûlaprakriti não é mais Parabrahman do que o feixe de atributos deste pilar é o pilar em si mesmo; Parabrahman é uma realidade absoluta e incondicionada, enquanto Mûlaprakriti é uma espécie de véu que lhe é lançado”2. O melhor que podemos “visualizar”, mesmo com a razão mais lúcida, é esta primeira coisificação da Realidade Una e Absoluta. Mûlaprakriti, a raiz pré-cósmica da Substância, as Águas primordias, é aquilo de que ainda é possível tentar definir e apreender mentalmente; e, contudo, é meramente um véu sobre a verdadeira e única Realidade – de que só podemos concordar que É. Sobre o Absoluto (ou talvez melhor, a Absoluteza), só poderemos falar por negação ou distinção do que é susceptível de ser conhecido (logo, relativo).

Esta formulação, de cunho vedantino, encontra adequada correspondência no ensinamento da Cabala acerca da Existência Negativa. “A Árvore da Vida define o Universo relativo em todos os seus níveis. É o padrão prototípico. No entanto, acima dele, mais além de Kether – a Coroa oca (…) – jaz o oculto da existência negativa. 

A existência negativa é (…) a pausa que precede a música, o silêncio por detrás de cada nota, a tela em branco detrás de cada pintura e o espaço vazio pronto para ser preenchido. Sem esta Existência inexistente nada chegaria a ser. É um vazio e, contudo, sem ele e o potencial nele encerrado, o universo relativo jamais poderia manifestar-se.

A existência negativa está sempre presente em todos os níveis da criação. Subjaz ao tempo e ao espaço. (…) A existência negativa permite a um homem ser quem é” 3 – tal como permite a um Cosmos ser o que é, acrescentamos nós.

Entre o Absoluto e o universo relativo estão os três véus da existência negativa, ainda no ensinamento cabalístico: Ain, o Nada; Ain Soph, o Nada Ilimitado; Ain Soph Aur, a Luz Ilimitada do Nada.
Note-se que está aqui em causa um domínio de Transcendência (face ao relativo, ao condicionado, ao manifestado) mas não à maneira das teologias das Igrejas Cristãs, da maioria dos postulados Islâmicos ou de outras formulações teístas. Com efeito, embora não activamente envolvido no processo de manifestação, o Absoluto, como Todo, é o espaço ilimitado onde todos os mundos e todos os seres despontam para a existência, cumprem o seu curso, e se dissolvem finalmente – dele estando, portanto, necessariamente permeados.

O mesmo autor que citámos imediatamente antes, expressa isto de forma muito clara e sintética: “O Absoluto não mantém contacto directo com a criação mas o Ser penetra a matriz do universo, sustendo-o como o silêncio detrás de cada som. Sem esta realidade negativa, nada poderia existir” 4.

Um Ensinamento Universal…

Não é apenas na Sabedoria Oculta, na Vedanta e na Cabala que encontramos este mesmo Ensinamento. Na verdade, a referência ao Absoluto Ser que é Não-Ser qualquer coisa condicionada, a menção a um mais além mesmo da divina actividade logóica ou criativa, está universalmente disseminada, nas grandes Religiões, nas grandes Tradições Espirituais, nas Filosofias mais profundas.

… Nas Religiões…

Comecemos pelas Religiões, referindo essencialmente os seus textos fundamentais.
No Hinduísmo ou Sanatana Dharma5 podemos ler no Rig Veda: “O Não-Ser e o Ser estão no céu mais elevado, no nascedouro de Daksha, no seio de Aditi” (Mandala I, Sukta 166). Aditi é o espaço infinito – sendo o espaço infinito, porventura, a melhor representação da ilimitação, do não-condicionamento, da transcendência (estar alheio, estar mais além) de todas as circunstâncias6. É, nos Vedas, a deusa-Mãe, correspondendo a Mûlaprakriti. Daksha alude ao poder gerador – inclusive gerador dos deuses criadores, que, justamente, despontam (nascem) do Espaço matricial e pré-cósmico.

São inúmeras as citações que poderíamos fazer de frases contidas nos Upanishades, que aliás são base essencial da Filosofia Vedanta. Limitemo-nos, porém, a alguns exemplos mais expressivos:
“No início, havia esse Ser puro, uno, em verdade, sem segundo. Dizem que antes d’Ele era o puro Não-ser, uno, em verdade, sem segundo; desse Não-ser nasceu a existência” (Chandogya-Upanishade);

“A respeito desta verdade, está escrito: antes de surgir o universo, Brahman existia como o Não-manifesto. Do Não-manifesto, foi emanado o manifesto” (Taittirya-Upanishade);
“Embora preencha o Universo, Ele transcende-o… Ele se tornou este Universo: Contudo, permanece para sempre imutável” (Idem);

No Bhagavad Gîtâ deparamo-nos com afirmações como estas:

“Tendo penetrado o Universo inteiro com um fragmento de Mim Mesmo, Eu permaneço (além dele)” (X, 42) 7;

“Ó Causa Primeira, Parabrahman, Infinito, Deus dos deuses, continente de todos os mundos, Imperecível Ser e Não-Ser, Isso, Supremo! Primeiro dos deuses (…) supremo contenedor de tudo o que vive” (XI, 37, 38).

Nas Leis de Manu podemos ler, por exemplo: “Daquele que É e, portanto, não É, do não-Ser, Causa Eterna, nasceu o ser Purusha” (Capítulo I, 11). Purusha é o Espírito manifestado (sacrificado, como se lê nos Vedas) em todo o Universo, de que é o Logos. “Antes de”, “para além” do próprio Espírito está o Uno Ser/Não Ser Absoluto…

No Budismo setentrional, existe o ensinamento acerca de Amitabha, “o esplendor infinito” ou “o espaço infinito” (correspondente ao Parabrahman e ao Mûlaprakriti vedantinos e, portanto, ao Imanifestado).

No Taoismo, bastará recordar as seguintes frases do Tao-te-King: “Não-Ser e Ser saindo de um fundo único só se diferenciam pelos seus nomes. Este fundo único chama-se Obscuridade” (I, 7-10); “Todos os seres provêm do Ser; o Ser provém do Não-Ser” (XL, 3-4).

Por sua vez, no Confucionismo, o equivalente de Parabrahman é Tian (“Céu”), o imanifestado não-criador, ou Tian-sin (“Céu da Mente”).

No Mazdeísmo, menciona-se Zeroana Akerna, o Tempo sem limites ou a Causa desconhecida. Dele exsurge o Logos, Ahura-Mazda, “trino diante das outras criaturas”.

Esta mesma noção aparece também no Judaísmo e no Cristianismo ortodoxo, que tratamos em conjunto, dado partilharem parcialmente as mesmas Escrituras.

Assim, o Génesis, o primeiro livro da Biblía, refere-se ao estado anterior a uma criação nestes termos: “O mundo estava informe e vazio; as trevas cobriam o abismo e o Espírito Santo pairava sobre as águas” (Idem, 1: 2). Estas águas primordiais correspondem a Mûlaprakriti, a Virgem Celestial. As Trevas ou Obscuridade, no sentido superior, sempre aludem ao Ante-Cosmos (logo, para além do Cosmos Manifestado): a Luz Absoluta só pode parecer, aos nossos olhos (mentais) relativos, como Trevas, Obscuridade. O aparente paradoxo é evidente: Ser Absoluto é Não Ser; Consciência Absoluta é Inconsciência; Som Absoluto é Silêncio; Luz Absoluta é Obscuridade e Trevas. A Luz, o Verbo, o Logos inicia a criação, espoleta e ordena o Cosmos – o Cosmos manifestado, relativo, condicionado… A luz implica relatividade, distinção entre o Conhecedor, o Conhecido (objecto do Conhecimento) e o meio do Conhecimento.

Podemos assim entender melhor o muito conhecido início do Evangelho segundo São João: “O Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus … Tudo foi feito pelo Verbo e sem ele nada foi feito… A luz resplandeceu nas trevas e as trevas não a reprimiram… Ninguém jamais viu a Deus. O Filho Uno, que está no seio do Pai, é quem o revela” (1: 3, 5 e 18).

No mesmo sentido, encontramos esta frase na 1ª Epístola de João, “… a vida eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou” (1: 2).

Mesmo no Livro Sagrado do Islamismo, apesar da sua repetida unicidade de Deus, encontramos uma expressiva e belíssima referência ao Divino Imanifestado, que não é o criador:
“Deus, Ele, é Uno. É a plenitude absoluta, bastando-se a Si mesmo. Não engendrou nem foi engendrado” (Alcorão, CXII, 3).

… Nas Tradições Espirituais…

Nos textos do Hermetismo, apesar de terem sido corrigidos (isto é, desvirtuados) por mãos Cristãs, e de grande parte deles se ter perdido, deparamo-nos com a mesma distinção, como, por exemplo, nestas passagens: 

“Deus sempre esteve em repouso; sempre, também, a eternidade, do mesmo modo que Deus, permanece imóvel – encerrando dentro de si, antes de nascer, este mundo (…). Na verdade, o tempo, por muito que sempre esteja em movimento, possui a força e a natureza da estabilidade sob uma modalidade que lhe é própria, em virtude dessa necessidade que o força a voltar ao seu princípio” (Asclépio, 31).
Já anteriormente nos referimos à Cabala (Judaica); mas evoquemos agora um dos seus textos fundamentais, o Sepher Ietzirah: “O número dez das esferas de existência [Sephiroth] emanadas da não-existência” (I, 7).

No Gnosticismo, era frequente a alusão a Bythos, o Abismo ou Profundidade (embora se deva notar que tal corresponde mais propriamente ao 1º Logos – que, de qualquer modo, é o Logos Imanifestado); Simão, o Mago, mencionava o Bem Aventurado e Imperecível Princípio ou, ainda, o Pai; Basílides aludia a “Aquele que não é”, ao “Não-Ser” ao “Deus-Nada” (ouk no Theos); num texto valentiniano, lia-se: a “Raiz do Todo, o Inefável que vive na Mónada. Ele residia sozinho em silêncio, visto que ele era, e ninguém existiu antes dele”.

… Nas Mitologias…

Vejamos agora Ensinamentos ou menções contidos em algumas das assim chamadas Mitologias.
No Antigo Egipto, postulava-se sobre Nouth ou Neith – a Deusa do Espaço Celestial, o Espaço que É para além de toda a Manifestação. É a Noite Primordial, o Caos Primordial, a Mãe dos Deuses, especialmente de Ammon-Ra. Nouth era também Mehueret, a vaca celestial da qual nascera o céu antes de a vida despertar. 

Fazendo a transição para a Mitologia Grega, os nomes Egípcios Nouth e Neith não podem deixar de nos fazer evocar Nux ou Nix. Na Mitologia Grega, e, aliás, também na Romana, existia, antes de tudo, a referência ao Caos primordial (ou seja, antes do exsurgimento do Cosmos manifestado) e a deuses incriadores (ou que devoram os próprios filhos – assim configurando o 1º Logos, o Logos Imanifestado), só depois se chegando ao Demiurgo, Zeus ou Júpiter. Ora, numa variante da cosmogonia órfica, o Caos e Nix ou Nux (a Noite) estão na origem do mundo: Nix põe um ovo (correspondente a Hiranyagarbha, o Ovo do Mundo ), de que nasce Eros, enquanto Urano e Gaia se formam das duas metades da casca partida. Nesta acepção, Nix corresponde a Mûlaprakriti – a raiz imanifestada da Matéria.

Nas cosmogonias da Suméria, da Babilónia, da Caldeia e da Assíria, encontramos também o Espaço, o Caos Primordial – Absu, Apsu, Abiss ou Mummu – onde mora Ab, o Pai das Águas, e Tiamat (a Grande Mãe, princípio deífico feminino, idêntico a Mûlaprakriti).

A Caldeia justifica uma referência especial, não só pelas várias fases de desenvolvimento da sua Mitologia Cosmogónica, como pela influência directa que exerceu na Cosmogénese Judaica, nomeadamente a vertida no Genesis bíblico.

Damos a palavra a Helena Blavatsky: “… Se nos viramos para a Caldeia, encontramos aí Anu, a Divindade oculta, o Uno, cujo nome, de resto, revela ser de origem sânscrita. Anu, que em sânscrito significa ‘átomo’, aníyámsam anîyasâm (o mais pequeno dos pequenos), é um nome de Parabrahm na filosofia Vedantina; Parabrahaman sendo descrito como menor que o mais diminuto dos átomos, e maior que a mais imensa esfera ou universo: ‘Anagraniyam e Mahatorvavat’.

Nos primeiros versículos do Genesis acadiano, tal como encontrado nos textos cuneiformes sobre os ladrilhos babilónicos, ou ‘Lacteras Coctiles’, e segundo foi traduzido por George Smith8, vemos Anu, a Divindade Passiva ou Ain-Soph; Bel, o Criador, o Espírito de Deus ou Sephira, movendo-se na Face das Águas, e, portanto, a própria Água; e Hea, a Alma Universal ou a Sabedoria dos Três reunidos.

Eis como são expressos os oito primeitros versículos:
1. Quando, acima, ainda existiam os Céus;
2. e abaixo, na Terra, nenhuma planta havia brotado;
3. o abismo não havia quebrado as suas fronteiras.
4. O Chaos [ou a Água] Tiamat [o mar] era a mãe produtora de todos eles. [São os Aditi e o Sephira Cósmicos]
5. As Águas foram, no princípio, ordenadas; mas
6. nem uma árvore havia crescido, nem uma flor havia desabrochado.
7. Quando nenhum deus ainda havia surgido,
8. nenhuma planta crescia, e a ordem não existia.
Era a fase caótica ou ante-genésica; o duplo Cisne e o Cisne Negro, que se tornou branco quando a Luz foi criada”9. 

… Nas Filosofias

Alguns dos grandes Filósofos do Ocidente, tal como fizeram os seus congéneres Orientais, também expressaram a necessidade deste domínio de ilimitação, de não-condicionamento, de puro-Ser além de qualquer circunstância, que está antes e depois de qualquer Cosmos, como Espaço inamovível.
Entre outros, podemos mencionar Anaximandro, com a sua noção de Ápeiron, o Ilimitado, a partir da qual trabalharam Pitágoras e os seus discípulos; Parménides, com o seu Ser Uno, que “é e não pode não ser”, que “nunca foi nem será, porque é agora todo de uma vez, uno e contínuo”, que é indivisível, necessário, auto-suficiente; Fílon de Alexandria, com o seu “Primeiro Deus”, o inefável, o inexprimível, que só se pode conceber de maneira negativa; os neoplatónicos que, afirmando o Uno como raiz de tudo, colocavam ainda além do Uno (manifestado) o “para além”, o “não-ser anterior ao ser” (como Porfírio), o princípio absolutamente inefável (como Jâmblico), o Proto-Uno ou a Proto-Causa (como Proclo); o Pseudo-Aeropagita, com a sua teologia negativa, do que Deus não é; João Escoto Erígena, com a essência incognoscível de Deus; Meister Eckart, com o seu “não-Deus, não-Espírito, não-pessoa, não-imagem”; Giordano Bruno, com o Deus “Todo Infinito”; Schelling, com a sua referência ao Absoluto que “nada pode gerar a não ser ele mesmo”; Hartmann, com o seu Inconsciente, etc., etc.. 

Mais além do Eu Condicionado

A palavra “Eu”, em Ciência Oculta, pode ser referida a vários níveis, desde o Eu Inferior – o Kama-Manas, a Personalidade –, passando pelo Eu Humano pensante e reencarnante – o Manas, a Mente Superior –, até ao Eu Espiritual – Âtma-Buddhi, Âtman, o Espírito, manifestando-se através de Buddhi, a Alma Espiritual.

Âtman é o Princípio mais elevado no Homem – e enfatizamos o no em vez de do, porque é uma realidade Universal, embora se ligue a uma existência individual.

Mas, ainda além, transcendendo qualquer condicionamento, é Paramâtman. Este é
o Eu Supremo, que é um com o Espírito Universal ou Espírio Supremo (como no Bhagavad Gîta é designado); é “eu mais além” (a Testemunha!), no qual mesmo a mais leve tinta de sepatividade inexiste.

Este Eu Universal é a fonte do nosso ser e de todos os seres que existem na mesma Hierarquia Universal, do mesmo modo como também a meta para o qual todos estamos a caminhar. É de Paramâtman (o que está além de Âtman) que radia Âtman. Conforme as expressões de Subba Row, Advaitista e Teósofo do século XIX, Jivâtman – o Espírito Divino no Homem, o Espírito individual, o “Cristo real, o puro espírito” – é, “por assim dizer, o filho de Paramâtman” 10.

“Somente Paramâtman é auto-existente, simples, eterno, imutável, e comum a todas as criaturas, tanto as mais elevadas como as inferiores” 11.

Analogamente à identidade Âtman-Brahman, postulado vedantino que ecoa o Ensinamento da Eterna Sabedoria, Paramâtman é idêntico com Parabrahman. E Âtman, semelhantemente ao Brahman manifestado num particular universo, é o Logos de uma particular individualidade. Todos somos Logoi de nós mesmos – ou, se quiseremos dizer de outra forma, todos somos a criação do nosso Logos radiando do Eu Absoluto. E, assim, Paramâtman “pode ser considerado como fora do Ovo Áurico Humano, tal como está também fora do Ovo Macrocósmico ou Ovo de Brahmâ” 12. 

Ao termo Âtman corresponde Purusha, na Filosofia Samkhya. E também neste caso, mais além, existe Parapa-Purusha – “O Principio Masculino supremo; o Ser ou Espírito supremo” 13. Note-se que Purusha significa etimologicamente “o que tem atributos masculinos”, como Prakriti, a Substância, significa “o que tem atributos femininos” 14.

Na mesma esteira, e correspondentemente, se há um estado de Samâdhi, também há Para-Samâdhi, que “é um estado que não é um estado e no qual não é possível nenhum novo progresso”15.
Por excelso que seja o estado de Samâdhi, o Nirvâna, segundo a interpretação esotérica, é-lhe ainda superior, representando a libertação definitiva de toda a existência condicionada. Entretanto, em relação ao Nirvâna, há ainda além, o Para-Nirvana, a mais perfeita e ultérrima bem-aventurança e omnisciência 16.

Um termo com significado idêntico a Para-Nirvâna é Paranishpanna. Acerca dele, ensinou Helena P. Blavatsky em A Doutrina Secreta: “Paranishpanna é o summum bonum, o Absoluto, o mesmo que Paranirvâna. Além de ser o estado final, é aquela condição de subjectividade relacionada exclusivamente com a Verdade Una Absoluta (Paramârthasatya), no seu próprio plano. É o estado que conduz à verdadeira apreciação do significado pleno do Não-Ser, que é, como já explicámos, o Absoluto Ser.

Mais cedo ou mais tarde, tudo quanto agora parece existir, existirá real e verdadeiramente no estado de Paranishpanna. Mas há uma grande diferença entre o Ser consciente e o Ser inconsciente. A condição de Paranishpanna sem Paramârtha, a consciência que se analisa a si mesmo (Svasamvedâna), não é a bem-aventurança, mas simplesmente a extinção durante Sete Eternidades. Uma bola de ferro, por exemplo, aquece quando exposta aos raios ardentes do Sol, mas não sente nem percebe o calor, como sucede com o homem.

Só ‘com uma inteligência clara, não obscurecida pela personalidade, e com a assimilação do mérito de múltiplas existências consagradas ao Ser na sua colectividade (todo o Universo vivente e senciente)’ é que poderemos libertar-nos da existência pessoal e realizar a união com aquele Absoluto, identificando-nos com ele e continuando em plena posse de Paramârtha” 17.

José Manuel Anacleto

Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural
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1 Estas afirmações, por palavras textuais ou muito aproximadas, podem encontrar-se em Glossário Teosófico (Ed. Ground, S. Paulo) e A Doutrina Secreta (Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973), Vol. I, págs. 81 e 75-6.
2 Subba Row, Philosophy of the Bhagavad Gîtâ, The Theosophical Publishing House, Adyar, 2ª ed., 1994; pág. 17.
3 Z’ev ben Shimon Halevi, Árbol de la Vida, Editora y Distribuidora Yug, México, 1999; pág. 31.
4 Idem, pág. 16.
5 Sanatana Dharma , uma das designações que os hindus dão à sua religiosidade matriz, significa Lei Eterna, Sabedoria Perene.
6 O Espaço é, “no plano da abstracção absoluta, a sempre incognoscível divindade, que é vazia apenas para as mentes finitas, e, no da percepção mayávica, o Plenum divino, o absoluto Continente de tudo quanto existe, tanto manifestado como não-manifestado, sendo portanto o Todo Absoluto (…). O Espaço sempre foi é, e será; é a causa eterna de tudo, a divindade incompreensível, cujas vestimentas invisíveis constituem a mística raiz de toda a matéria e do Universo. É a única coisa eterna que podemos facilmente imaginar, imóvel na sua abstracção e não influenciada pela presença nem pela ausência de um universo objectivo nele. Carece de dimensões em todos os sentidos e é existente por si mesmo”. Helena Blavatsky, A Doutina Secreta, op. cit., vol. I, págs. 77 e 100.
7 Krishna, em vários passos do Bhagavad Gita, é posto a discursar como se fosse a Divindade, tanto imanifestada, como manifestada.
8 George Smith foi um famoso e pioneiro Assiriologista inglês, que descobriu e traduziu pela primeira vez o Épico de Gilgamesh.
9 A Doutrina Secreta, op. cit., Vol. II, págs. 63-4.
10 Cfr. Esoteric Writings, The Theosophical Publishing House, Adyar, Chennai, 1951, pág. 9.
11 Echoes of The Orient, Vol. I, Point Loma Publications, San Diego, 1975, pág. 148.
12 Helena Blavatsky, Collected Writings, Vol. XII, The Theosophical Publishing House, Wheaton, 1980, pág. 623.
13 Helena Blavatsky, Glossário Teosófico, op. cit..
14 Há bem pouca diferença entre Parapa-Purusha e Para-Prakriti – a natureza superior, o ainda além da Natureza ou Matéria, a Prakriti não manifestada, o Elemento vital que anima e sustenta todos os seres. Para-Prakriti é o mesmo que “Daiviprakriti, a vida una pela qual todo o universo é suportado” (Bhagavad Gîtâ, VII, 5). Como já referimos, o Imanifestado, o Eterno, o Ilimitado, não é Espírito e Matéria mas, sim, Proto-Espírito (Parabrahman) e Proto-Matéria (Mûlaprakriti) ou, ainda mais propriamente, aquilo que transcende toda a dualidade Espírito-Matéria (Para-Parabrahman).
15 Helena Blavatsky,Glossário Teosófico, op. cit.. Eis como a autora aqui define Samadhi: “É um estado de arrebatamento extático completo. Tal palavra deriva das palavras sam-âdha, ‘posse de si mesmo’. Quem possui tal poder é capaz de exercer um domínio absoluto sobre todas as suas faculdades, tanto físicas como mentais. É o supremo grau do Yoga”.
Por sua vez, numa nota de A Voz do Silêncio, H. P. Blavatsky escreveu: “Samadhi é o estado em que o asceta perde a consciência de toda a individualidade, incluindo a sua. Torna-se o Todo” (cfr. Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1921, pág. 32; Ed. Pensamento, S. Paulo, pág. 57).
16 Acerca do Nirvâna e do Para-Nirvâna, remetemos para o nosso artigo publicado, nesta mesma secção, no nº 31 da Biosofia (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2007).
17 Op. cit., Vol. I, pág. 115. 

biosofia.net





Eu tenho um corpo, mas eu não sou meu corpo.
Eu posso ver e sentir meu corpo,
E o que pode ser visto e sentido não é o verdadeiro Vidente.
Meu corpo pode estar cansado ou excitado,
Doente ou saudável, pesado ou leve,
mas isso nada tem a ver com meu Eu interior.
Eu tenho um corpo, mas eu não sou meu corpo.

Eu tenho desejos, mas eu não sou meus desejos, eu posso conhecer meus desejos,
e o que pode ser conhecido não é o verdadeiro.
Desejos vêm e vão, flutuando através de minha percepção,
mas eles não afetam meu Eu interior.
Eu tenho desejos, mas não sou desejos.

Eu tenho emoções, mas eu não sou minas emoções.
Eu posso sentir minhas emoções,
e o que pode ser sentido não é o verdadeiro Senciente.
As emoções passam através de mim,
mas elas não afetam meu Eu interior.
Eu tenho emoções, mas eu não sou emoções.

Eu tenho pensamentos, mas eu não sou meus pensamentos.
Eu posso conhecer e intuir meus pensamentos,
E o que pode ser conhecido não é o verdadeiro Conhecedor.
Pensamentos vêm a mim e pensamentos me deixam,
mas eles não afetam meu Eu interior.
Eu tenho pensamentos, mas não sou meus pensamentos.

Eu sou o que permanece, um centro puro de percepção,
uma testemunha impassível de todos esses
pensamentos, emoções, sentimentos e desejos.







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