7 de mai de 2013

Uma só Realidade

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112 - Disse Jesus: Ai da carne que depende da alma; ai da alma que depende da carne.

Ai do homem que se prende à alma ao ponto de a escravizar com os seus desejos humanos! Esse homem não permite à alma voar às alturas, assim como um pássaro ou uma borboleta de asas molhadas não consegue voar.

Ai da alma que se prende à carne ao ponto de só conhecer e desejar coisas carnais!
Responderão que isto é impossível, porque a alma é Deus no homem, e Deus não pode ser aprisionado nem onerado pela matéria.

É frequente esse equívoco, mesmo entre certos Mestres espirituais.
Alguns deles até evitam a expressão “auto-realização”, porque Deus não pode ser realizado, e preferem a palavra “auto-revelação”.

A alma é Deus, sim, mas não um Deus atualizado; a alma é apenas um Deus atualizável ou potencial. A alma humana é, por assim dizer, um Deus embrionário, que, pelo livre arbítrio do homem deve tornar-se plenamente realizado. Toda a semente é potencialmente uma planta, mas não o é atualmente. Se a alma fosse simplesmente Deus em toda a sua plenitude, não poderia extinguir-se jamais. Entretanto, todos os Mestres espirituais, do oriente e do ocidente, admitem que a alma é imortalizável, mas também mortalizável; pode tanto evolver para o Infinito positivo como também involver para o Infinito negativo. Se a alma fosse simplesmente Deus, seria desnecessária a auto-realização, bastaria uma auto-revelação ou auto-manifestação.


SAKYAMUNI - Fernando Pessoa



SAKYAMUNI – Quantas vezes, antes de a verdade ter em mim a sua aurora, eu, já na antemanhã da revelação, quando a alma em mim pressentia a ilusão do mundo, dizia, dentro do meu coração, para o Mestre escondido que se aproximava: Deixa que ainda um momento eu descanse à sombra da árvore do esquecimento, e um momento mais me banhe nas águas do rio da Aparência. Suaves são as flores, e são falsas; doce, pela tarde de todos os estios, o canto morno das aves, e elas são aparência apenas. É quente ter pai ou mãe, e ter esposa e filhos, e tudo isso eu sei que não é mais, no Todo Imanente, que a sombra que a árvore lança no chão, e não o chão nem a árvore, do que o vento que passa e esquece, e não é o ar onde passa nem as árvores em que mexe, nem as flores cujo perfume leva para longe, entre cicios.

SEMICORO – Boddhisattva, todos são tentados e à passagem de todas as portas alguma cousa nos quer fazer olhar para o lado. Mas o sábio caminha sem olhar para o lado, porque à Direita está a Verdade falsa, e à Esquerda a Mentira verdadeira; uma e outra filhas do Lado e do Desvio, fruto sombrio da árvore do Aniquilamento.

SEMICORO – Os raios do sol não são o sol, nem o trigo o pão que há-de ser. Tudo, porém, é uma só cousa.

Sete são as portas da Iniciação e todas as portas são a mesma Porta. Sete são os desejos que prendem o homem à terra e à ilusão, sete as libertações; sete, também, as renúncias com que a alma se liberta. Fazei por que a Morte guarde os portais do teu Desejo e a Peste caia por sobre as cidades da tua Ambição. Filho, as horas regulares medem o tempo para os homens, como os desejos e as esperanças marcam o tempo para as almas; mas as horas, como os desejos, são frutos da Árvore da Morte, a que damos o nome a Árvore da Vida.
 


Boddhisattva, quem passa as sete portas, que lhe não doa deixar tanto amor? A mãe que velou a nossa infância, e o pai a quem confiámos os nossos primeiros cuidados, o irmão com quem nos sentávamos à porta, a irmã que vinha chamar-nos ao jardim; aquela que amámos e foi nossa esposa, e de quem são filhos os nossos filhos e irmãs as esperanças que temos na sua fortaleza e na sua sabedoria; os nossos filhos, que são a nossa sombra na carne, a nossa esperança feita Vida — tudo isto devemos nós considerar como o fumo que no silêncio da tarde deixa devagar os cimos das casas e se perde no ar como o voo das aves que não voltam nunca? Tivemos amigos, a quem demos aquela metade da nossa alma que é a confiança, e discípulos que quiseram receber da nossa mão a ciência, aquela esmola que não dá orgulho a quem a dá, e que não faz humildade em quem a recebe. Quisemos que os que eram nossos sócios na vida fossem felizes, que os propínquos nos amassem como a pais, e que os homens da nossa terra dissessem: ele foi entre nós como a sombra no estio e como a lareira no inverno; ele passou, ficando no exemplo e no nosso amor. Tudo isso, ó Boddhisattva, valerá tão pouco que hajamos de o pôr de lado como um fardo inútil, ou que passar por cima dele como por cima do riacho que atravessa o caminho?

Tudo quanto vimos somos nós, e tudo quanto amámos somos nós. A tua mãe e o teu pai és tu, a tua esposa és tu, e és tu os teus próprios filhos. O que desejaste e o que amaste é o corpo do teu desejo, feito não da terra, mas da alma, não do barro das horas, mas do limo humilde das afeições. Se houvéssemos só de deixar aquilo que não amamos, que mais valeríamos ante o Invisível que os animais do campo, que fogem ao que temem, e abandonam o que não querem? Matai o desejo, e ao amor crucificai-o, para que ao terceiro dia da Renúncia suba ao céu e assente à mão direita da Primeira Encarnação do Invisível. Todos os laços são cadeias, e ergástulos todos os lares. Sobe, Discípulo, o caminho estreito; busca perder-te para te encontrares, abdica-te de ti para seres tu; entra na noite para encontrares o dia. Tudo é o contrário e a sombra cerca-nos. Dorme para a ilusão do Mundo.

A. Boddhisattava, estás agora quase no princípio e no fim do caminho (sem fim nem princípio). Ouvem-se já os teus passos para além do Grande Limiar. Breve, sem tempo em que seja breve, teu vulto sem corpo florirá a libertação final. A veste esplêndida que torna invisível a Personalidade cairá, ó Senhor, sobre os teus ombros. Bendito sejas tu que, pelo teu grande amor, ganhaste a Altura e a Redenção!

B. Bendito sejas, que chorando cegaste até veres, e sofrendo te rojaste até ao Cimo. Bendito, que vais vestir como um manto régio a negação positiva do Universo! Bendito que viveste o puro Amor, sem limites nem margens, e agora és o oceano de ti próprio, a hora absoluta do teu compassivo meditar!

A. Teus pés, Boddhisattva, rasgaram-se nas pedras de todos as caminhos da piedade, tuas mãos sangraram com todas as durezas da misericórdia, teus olhos secaram de terem chorado por todas as angústias, teus ouvidos não ouviram senão os gemidos. Agora teu amor chegou ao limiar de seres o mesmo que o Todo sem nome. Vais entrar para o sossego imenso de ti próprio, absoluto idêntico com todos os absolutos, pessoa infinita de todos os universos.

B. Bendito e exaltado sejas! Tanto amaste, que hoje és tu próprio em abstracto e divino. Tanto choraste que és hoje a lágrima suprema, a queda misericordiosa e sublime no abismo impessoal do teu Amor. Tanto desejaste todos os teus bens para todos os homens, tanto amaste Tudo em todos, tanto benzeste de auxílio e de carinho todos em Tudo, que hoje entrarás para Ti pela porta todas-as-portas, chegarás a ti pela negação absoluta de ti próprio. Bendito sejas!

O NIRVANA Repousa no meu seio, que és tu, na minha certeza, que é que o atingiste em ti. Na minha noite não há escuridão nem luz, e no meu sossego não há descanso nem paz. Dorme de todo o teu amor pelos outros na minha recompensa sem estrelas.

[SAKYAMUNI] – Onde pus o meu amor ele está ainda. Onde amei, amo. Onde chorei, ainda choro. Onde consolei, consolo. Que será de mim se entrar para a paz, se o mundo não tem a paz? Que será de mim se entrar para Mim, com toda a Mágoa fora de mim e toda a imperfeição abandonada como um filho. A tua paz suprema é uma tentação sem forma; a tua recompensa é o sossego que eu não quero... Não me abras os braços, ó Nirvana!...

NIRVANA – Suaves são os meus braços de sombra e os meus cabelos de esquecimento — em torno à tua alma absoluta eles se enrolarão como a Verdade Eterna. Embalar-te-á sem movimento, para sempre além de sempre, o meu colo sem fundo nem lugar, e o teu sono será o amor que tiveste, e bondade que derramaste, e as lágrimas (...) do mundo.

[SAKYAMUNI] – Ai dos que sofrem, que sofrem ainda! Ai dos que gemem que gemem sempre! Ai dos tristes e dos oprimidos, que eu deixaria ao desamparo na tua noite em que nada lembra — nem os rios do meu amor nem as areias do meu carinho.

Tu não tens poder para me tentar. Sete, e dentro de sete, sete vezes sete, foram as tentações do meu caminho. Chamaram por mim as cousas da terra, com vozes de filho que chamam a mãe. Choraram por mim como (...)

Passei para além de tudo como o rio, que flui para o mar, e que, se não vai pela direita, é pela esquerda, e vai sempre, e o mar espera-o ao longe.

[SAKYAMUNI] – Ó olhos da Ciência, ó Braços da Compaixão!

Encarnarei em mim todo o mal do mundo — o mal passado e o mal presente e o mal futuro. Assim me tornarei o Mal Absoluto. E como o mal é o nome positivo da Negação, tornado que eu seja o Mal Absoluto, estarei tornado o Nada Absoluto, e, logo, extinto completamente morto de todo, sem passado em que houvesse sido, ou futuro em que venha a ser, ou presente, mesmo, em que seja mesmo o Nada em que me haja tornado. Serei o Único Morto, a Morte Toda. E, fora de Mim, o Ser Puro; o Universo liberto do mal e da negação, será Deus em todas as eternidades.

— E de ti, ó Sol do Amor, que será? Poderás tu escolher o Nada e o Mal e a Morte só para ti? Ousarás tu querer esse sacrifício da estatura do Infinito? Tu, que te afastaste do Mal, como poderás tu dar-te a ele até seres o seu corpo? Tu, que negaste a negação, poderás tu transformar-te nela? Poderás tu ser Deus com o Corpo da sombra e da maldade?

— Tudo é possível ao Amor. Ele, que na sua humana forma humana constrói pontes sobre os abismos, e abre estradas de impossível para impossível, em mim, tornado absoluto, será o Fogo sem Chama ascendendo todo o Universo.
B[OUDHISATTVA] – A carne do meu corpo é a dor universal, corre nas veias da minha vida o sangue das lágrimas dos homens.

N[IRVANA] – Grande é o repouso do meu seio de sonhos. A minha noite não tem o cansaço e a angústia de ter um dia depois dela, (ó Venerável) Arhat, os meus braços são de Vida e Esquecimento...

B[OUDHISATTVA] – Grande é aquele que, não querendo possuir, também não quer esquecer. Todas as mães são a minha mãe que chora, todas as filhas são as minhas filhas que me chamam. A tua porta aberta está fechada dentro do meu amor.

(...) o meu ser compassivo torna-se o ser universal. O manto da minha compaixão cairá sobre as cousas e elas terão o repouso de não verem a luz da ilusão.

Eu próprio, pelo meu grande amor, serei o Nirvana. Terão repouso e fim na carne da minha alma todas as almas que sofrem.

N[IRVANA] – Arhat, o rio não volta à nascente, nem (...)

[SEMICORO] – A. Tornado a Negação Absoluta, extinguir-te-ás de todo, ó Boddhisattva. O único Nada serás tu. O resto será o grande e puro, limpo e uno Universo. A tua Morte será a vida de tudo. Tornado a Diversidade Absoluta, o Abismo Puro, morrerás de ti próprio. E tudo será o Nirvana atingido, e o Fim [dourado] da Estrada. O resto é o nada onde tu és a morte sem nada seres. O teu sacrifício não tem Deus. A tua Renúncia é um universo — o universo-abismo, o abismo do abismo, o Nada não em si mas em Nada.

B. Mas que é feito de ti, Senhor, quando assim for? Tu, [o supremo] Bem, por o seres te tenta o Mal Absoluto. Tu, o Tudo, te tenta o Nada.


Vede como nesse futuro sem tempo, todo o Universo dos Universos se ergue uno e divino. O mal, tornado mal absoluto, torna-se o puro Nada, e, assim, para sempre desaparece. Tu, Senhor, por teu amor sem limite nem prémio, tu te tornaste o puro Nada para que o mundo pudesse ser Tudo; tu te tornaste a Única Morte, a Morte...

A. Agora que renunciaste para sempre, que te condenaste eternamente à dor eterna; agora que, sem lar nem mesmo em ti próprio, sem mãe mesmo no teu carinho, te arrastas puro de dor, pelo erro doloroso do mundo — agora que será de ti, ó Senhor da Compaixão? Sofre o mundo ainda, embora o alivies, morre a vida ainda, embora a ames? Tens mais que matar em ti, para que o mundo viva? Pára, não ouses mais mágoas e mais dores. Há mais dores, acaso, que tu ouses? Há mais mágoas que atentes contra ti? Derrama eternamente, homem eterno, o bálsamo do teu carinho sobre as cousas. Rocio, amacia de brilhantes o verde matutino das ervas, e de luzes de sol agora limpa a superfície nítida das flores. Corre, suave sussurro, nos rios para todos os mares (1).

Renunciaste à vida pessoal, ó Boddhisattva, e renunciaste à vida impessoal. Que mais alturas te matas?

— Renunciarei agora a toda a Vida, morrerei de todo no mundo. Que vale essa frase sem lugar que enche de sombra e de medo os olhos inúmeros do mundo?

— Senhor, tu vais ser todos os crimes, todos os vícios, todos os males, Senhor, vais ser todas as algemas e todos os algemadores. Como podes tu querer ser o Mal, como podes tu querer ser a limitação?

— Tornado uno com o mal, com a imperfeição e com a mágoa, impersonalizá-los-ei em mim. E o mundo dividido e diverso, o universo múltiplo e sucessivo, tornado impessoal em mim, deixará de ser dividido para ser uno, deixará de ser imperfeito para ser a Perfeição Suprema.
— E tu, Senhor, que serás?

— Tornado o Puro Mal, o Puro Imperfeito, deixarei de todo de ser. Encarnará em Mim o Nada Absoluto e eu tornado o Abstracto (...)

[CORO] – Benditos sejam os prados, porque não serão mais os prados, e os bosques porque não serão mais os bosques, e o correr dos rios, porque não será mais de rios, nem será correr. Tudo será como era, e a Perfeição.

— O SER SEM SER — Só eu sou.

Tudo é uno e tudo não é uno. Nada é e tudo é. E tudo isto é nada. Só eu sou.

Além de tudo está tudo, e aquém de nada, nada. Só eu sou.

Tudo é o ser, e tudo é o não ser. Só eu sou.

Sem ser nem não ser, só eu sou.

[CORO] – Todo este futuro sem tempo é o meu passado. Só eu sou. Para sempre de sempre num lugar sem espaço, num futuro sem tempo, Senhor!

2.° — Quem sabe se ele, tornado o Nada, não foi um Todo para outro Deus, de quem este seja a diferença ou o sonho? Quem sabe se ele não é o Todo por ter morrido (para) Tudo?

(1) «As três renúncias de Sakyamuni:

a) a renúncia à vida terrena, à vida das emoções, a renúncia à vida da personalidade.

b) a renúncia à vida nirvânica, a recusa a vestir a veste de Nirmanakaya.

c) a renúncia à vida impessoal, à vida pura e grande, para se tornar humano e interior às cousas do mundo, esgotando através de si todo o mal que no mundo existe.»


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