7 de set de 2010

Festa dos Deuses

Tétis irrompeu no mar profundo, desde o alto do Olimpo brilhante, e Zeus em sua morada.
Todos os deuses se levantaram ao mesmo tempo dos seus assentos ante seu pai; nenhum ousou esperar a chegada dele; avançaram na sua direção, todos de pé. E ele sentou-se ali, sobre o seu trono. Mas Hera não ignorava que Tétis de pés de prata, filha do velho marinho, com ele se concertara. Logo ela endereçou a Zeus, filho de Crono, estas palavras desabridas:

Velhaco, qual dos deuses se concertou contigo? Comprazes-te sempre em refletir e em decidir longe de mim, secretamente. Uma vez mais não és capaz de te resolver de boamente a expor-me os teus pensamentos.
O pai dos homens e dos deuses respondeu:
"Hera, não tenhas esperanças de conhecer todas as minhas idéias. Isso ser-te-á dificil, conquanto sejas minha esposa. As que devem ser ouvidas, nenhum dos deuses as saberá antes de ti, nem nenhum dos homens; mas sobre aquelas em que desejo pensar afastado dos deuses não me interrogues nem me importunes a cada passo.

A venerável Hera de olhos de bezerra respondeu:
"Terrível filho de Crono, que estás para aí a dizer? Até aqui, tenho-te interrogado e importunado mesmo muito pouco; em sossego, tu dizias-me tudo o que entendias. Mas hoje, receio tremendamente, em minha alma, que tenhas sido cativado por Tétis de pés de prata, filha do velho marinho. Pois, envolvida em bruma, ela sentou-se perto de ti e agarrou-te os joelhos. E creio que lhe prometeste realmente, por meio de um sinal de cabeça, honrar Aquiles e fazer perecer muitos aqueus, cerca dos seus navios.

Zeus ajuntador de nuvens respondeu:
"Demônio, estás sempre a crer, nada te posso esconder! De qualquer modo, não lograrás senão arredar-te do meu coração, e será ainda mais deplorável para ti. Se é como tu dizes, é porque a coisa deve agradar-me. Em silêncio, senta-te e obedece-me; quando não, teme que de nada te sirvam todos os deuses do Olimpo se eu me aproximar e lançar sobre ti as minhas temíveis mãos.
Ao ouvir estas palavras, a venerável Hera de olhos de bezerra teve medo, e sentou-se em silêncio, cedendo em seu coração.
Na morada de Zeus, os deuses celestes murmuraram.
 
Mas Hefesto, o ilustre obreiro, pôs-se a falar, em termos agradáveis para sua mãe Hera de níveos braços:
"Será um caso triste, e intolerável, se ambos, por causa de mortais, querelardes assim, e, no meio dos deuses fizerdes esse alarido. Não haverá mais regalo nos nossos excelentes festins, se acontecer o pior.
Aconselho minha mãe - ejá ela pensa nisso - a dar aprovação a Zeus, meu pai, para evitar que de novo ele lhe ralhe, perturbando o nosso festim.
Pois se o Olímpico fulminante quiser precipitar-nos dos nossos assentos, ele é sem comparação o mais forte.
Sensibiliza-o então mediante palavras ternas, e, imediatamente, teremos o Olímpico de bom humor.
Falando assim, Hefesto avança com uma taça de duas asas, põe-na na mão de sua mãe e diz:
"Suporta isso, minha mãe, sofre-o, apesar da tua dor, pois temo, não obstante o meu amor, ver-te sovada na minha presença. Não poderia então, malgrado a minha mágoa, socorrer-te, visto ser difícil lutar contra o Olímpico.
Já uma vez, pretendendo eu defender-te, ele me atirou, agarrando-me pelo pé, da soleira divina abaixo. Fui caindo ao longo do dia, e, ao por do Sol, despenhei-me sobre Lemnos, restando-me apenas um sopro de vida; aí me receberam os Síntios, depois de tal queda.
A deusa Hera de níveos braços sorriu a estas palavras e, sorridente, tomou das mãos de seu filho a taça.
Ele, começando pela direita, serviu a todos os outros deuses o doce néctar despejado de uma cratera.
Elevou-se entre os deuses bemaventurados uma risada estridente, ao verem Hefesto desvelar-se assim através da sala.
Durante todo o dia até o por do Sol, eles banquetearam-se, e não lhes faltava o desejo do banquete onde todos são iguais, nem da cítara magnífica, que Apolo empunhava, nem do canto das Musas, que davam réplica umas às outras com as suas belas vozes.
Mas quando se afundou a luz deslumbrante do Sol, os deuses, a fim de se deitarem, dirigiram-se cada qual aos seus aposentos, no sítio onde, para cada um, o ilustre manco hefesto construíra uma morada com uma sábia arte.
Zeus, o Olímpico fulminante, foi até ao seu leito, aquele onde habitualmente se deitava, quando o doce sono o invadia. Para lá subiu, e adormeceu, tendo junto de si Hera do trono de ouro.

Transcrito da tradução portuguesa de Cascais Franco: Homero, Ilíada, 2a edição, Mira-Sintra, Europa-América, s/d, p. 24-25.

 

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