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28 de ago. de 2012

Isaac Luria




"Meu mestre costumava expor os assuntos da lei de acordo com seu sentido literal, em cada um dos seis dias da semana. Mas depois ele costumava expor os significados secretos em honra do Sabbath.

"O estudo da Torah deve ter como sua motivação primária ligar a alma à sua fonte através da Torah, a fim de completar a árvore superna - os Sephiroth - e completar e aperfeiçoar o homem super

no... Se uma pessoa não se aperfeiçoou cumprindo os 613 mandamentos a respeito da ação, fala e pensamento, por força da necessidade ela se verá sujeita à 'gilgul' - reencarnação - e quem quer que não tenha estudado a Torah de acordo com os quatro níveis indicados por 'p r d s', que é um conjunto composto pelas letras iniciais das quatro palavras: 'peshat', literal; 'remez', alegórico; 'derash', homilético; e 'sod', místico, terá sua alma voltando à encarnação de modo que ela possa completar cada um deles".

'Shulhan Aruk'

JACOB ZEMAH

O ano de 1492 é lembrado como o do início da grande era de explorações, uma queda das crostas dos olhos europeus e uma revelação das civilizações do leste, do sul e do 'novo mundo' além do oceano ocidental. A Renascença florira e frutificara na Itália, e começava a se mover para o norte, mas como ocorre com as grandes luzes, suas sombras foram escuras e profundas. Os Muçulmanos foram expulsos da Espanha e a Inquisição florescia. Assim como as maiores civilizações da América seriam brutalmente destruídas nesta nova época, também a cultura Islâmica representada pelo resplendente Alhambra seria erradicada. Os Judeus, que haviam prosperado e ascendido a posições de poder e proeminência sob o governo Islâmico, foram ameaçados e perseguidos. Em 1492 deu-se a todos os Judeus da Espanha quatro meses para deixarem o país, ou seriam executados. A conversão, uma opção inaceitável para a maioria, era igualmente inaceitável para a Inquisição, que processava indiscriminadamente Judeus marranos e verdadeiros conversos. O vasto êxodo resultante desta política implacável foi chamado de 'O Exílio', e teve seu efeito próprio e profundo no mundo mediterrâneo. Alguns do exilados perambularam pela Europa Central e alguns acabaram parando na Itália e Grécia, mas um grande número fugiu para o norte da África e o Oriente Médio.

O conhecimento Muçulmano havia brilhado no sul da Espanha, onde seus dinâmicos movimentos Sufi haviam construído um pano de fundo para o ressurgimento dos ensinamentos Kabbalísticos. Lá o 'Zohar' havia se tornado amplamente conhecido, e centros de estudo Kabbalístico desenvolveram penetrantes doutrinas filosóficas e sofisticadas técnicas de meditação, ambas enraizadas no princípio de que a percepção interior é cultivada por uma vida ética purificadora. Como a destruição do Segundo Templo pelos romanos, em 70 dC, levou à disseminação da Kabbalah através da Diáspora, do mesmo modo o Exílio de 1492 estimulou a criação de novos centros de aprendizado Kabbalístico e levou à sua difusão no Judaísmo popular da Europa. Fez, no Marrocos, se tornou um destes centros, onde o pensamento Sufi há muito havia encontrado um porto. O Egito e a Turquia também forneceram lugares para a contemplação mística, mas o principal centro estava localizado na antiga Galiléia, a terra natal de Jesus, na cidade de Safed. Safed era o local tradicional do túmulo de Simeão ben Jochai, o Instrutor que primeiro ordenara que partes da Kabbalah deviam ser postas por escrito, depois da destruição do SegundoTemplo.

Joseph Karo, nascido em Toledo, foi levado por sua família para Constantinopla, durante o Exílio. Renomado erudito Talmudista e pensador jurídico, suas intensas meditações privadas levaram-no em 1536 a Safed. Lá ele se tornou 'rabbi'-chefe e cultivou um grupo de jovens Kabbalistas, métodos de meditação e doutrinas sobre a imortalidade e reencarnação que foram comparadas ao Yoga hindu e às filosofias Budistas tibetanas. Moisés Cordovero, cuja primeira parte de sua vida é desconhecida pela história, estabeleceu-se em Safed e estudou com Karo. Com a idade de vinte e seis anos ele já havia composto o 'Pardes Rimmonim' ('Pomar de Romãs'), que delineava treze caminhos para estados transcendentais de consciência. Ele sustentava que a incessante troca de energias entre os Sephiroth fornece uma chave para o entendimento do ser humano e de sua relação com a Natureza visível e invisível. Como membro do grupo conhecido como Chaverim - Associados - ele compilou uma lista de preceitos pelos quais ele e seus companheiros procuravam viver. Estes princípios eram Pitagóricos em sua natureza e incluíam o voto de jamais ser forçado à raiva, de evitar comida em excesso, de falar a verdade, de aceitar sem agitação tanto a dor como o deleite, e de rever os pensamentos e ações próprios antes de cada refeição e antes de se retirarem para dormir. Assim, em Safed formou-se um vórtice místico em torno da memória de Simeão ben Jochai, iluminado pela luz numinosa do 'Zohar', e reunindo aqueles que viam que o fim só poderia ser encontrado no início, e que percebiam na turbulência do Exílio um símbolo da alienação de toda alma humana de sua fonte transcendental. Isaac Luria entrou neste vórtice e se tornou seu foco fulgurante em sua própria época e nos séculos que viriam depois.

Isaac Luria, que veio a ser chamado de Ha-Ari, 'o Leão', a partir das iniciais de Ha-Elohi Rabbi Yizhak, 'o divino Rabbi Isaac', nasceu em Jerusalém em 1534. A família de seu pai era de emigrantes Ashkenazi vindos da Alemanha, e sua mãe pertencia à família Sefardita Frances, talvez exilados na expulsão espanhola de 1492. Lendas obscurecem sua vida inicial, sugerindo que com sete anos ele tenha ido para do Egitrto com sua mãe, logo depois da morte de seu pai. Ele mais tarde atestou, contudo, que havia estudado a Kabbalah com o Kabbalista polonês Kalonymus, em Jerusalém. A história verifica que ele estudou no Egito com Davi ben Salomon ibn Abi Zimra, e com seu sucessor Bezalel Ashkenazi, ambos mestres do 'halakha', o sistema legal ortodoxo. Ele conquistou uma sólida reputação no estudo da lei e da literatura rabínica, e pelo menos um de seus pareceres 'halakha' sobrevive até hoje. O Genizha no Cairo contém documentos que mostram que ele era comerciante, uma atividade que manteve em Safed, onde ele colocou seus negócios em ordem apenas três dias antes de morrer. Enquanto ganhava reconhecimento público como participante ortodoxo na comunidade, ele estudava assiduamente os mistérios da Kabbalah. Antes de se mudar para Safed ele escreveu um breve tratado sobre o 'Livro da Ocultação', uma seção fundamental do 'Zohar', mas nada neste comentário sugere as concepções extraordinárias que mais tarde ele haveria de transmitir aos seus discípulos.

Em 1570 Isaac Luria estabeleceu-se em Safed com sua família, onde ele foi reconhecido como um exímio estudante e professor da Kabbalah, incluindo suas rigorosas práticas meditativas. Ele já entendera que a Kabbalah, quando aplicada aos estados de consciência, conduz a poderes extraordinários, e advertiu seus seguidores para que evitassem toda fascinação com práticas mágicas ambíguas através da adesão à busca desinteressada de sabedoria espiritual. Ele estudou com Moisés Cordovero pouco antes da morte deste no outono de 1570. Cordovero teve a oportunidade de ler alguns livros de Luria antes de morrer, e não havia dúvidas de que, a despeito do curto período que estava em Safed, Luria seria o sucessor de Cordovero. Reuniram-se discípulos em um círculo esotérico em torno de Luria, muitos dos quais haviam estudado com Cordovero. Enquanto sua fama por sua sabedoria 'halakha' e pureza de conduta pessoal haviam se espalhado tão longe como no Egito e Europa, ele mantinha seus ensinamentos sobre a Kabbalah completamente ocultos. Construindo aposentos especiais para eles e suas famílias, este grupo muito íntimo se ocupava de estudos intensivos, trabalho comunal e meditação individual, todos guiados por Luria. Quando ele morreu em 1572, com a idade de trinta e oito anos, menos de três anos depois de chegar a Safed, ele já havia deixado uma marca indelével na Kabbalah e uma poderosa convicção entre seus seguidores a respeito de sua inspiração divina.


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Luria, como todo o verdadeiro estudante da sabedoria perene, não buscou mudar ou acrescentar nada à Kabbalah. Ele tomava a tradição, especialmente como ela era apresentada no antigo 'Zohar', como a moldura e guia para suas meditações profundamente intuitivas, e sua percepção interior e compreensão racional eram embasadas solidamente na disciplina diária da vida ética. Como todos os verdadeiros aprendizes, ele trouxe uma nova perspectiva para os assuntos sagrados que estudou. Embora a tendência de pensar sobre a origem divina do mundo em termos temporais como uma 'creatio ex nihilo' já houvesse afetado o pensamento Judeu, Luria entendia os primeiros versos do 'Gênesis' em seu sentido original: "Quando Deus (Elohim) começou a criar o céu e a terra, a terra era um vazio informe". A criação emergira da atividade divina na e sobre a matéria primordial. Para Luria a verdadeira questão era: de onde vinha esta matéria primordial? Se a Deidade é onipresente - uma mera expressão semelhante para Aquilo que não tem espaço e tempo - então onde haveria lugar para existir a matéria primordial? Antes do que imaginar o caos existindo em algum espaço fora da Deidade, Luria ensinava que a existência manifesta teve seu primeiro início etéreo na 'zimzum', contração.

Ain-Soph, o Infinito e Ilimitado, a Fonte Desconhecida e Incognoscível de todas as emanações e diferenciações, 'deus absconditus', não pode ser ligado à cadeia de emanações progressivas representadas na Árvore Sefirotal. Não é a primeira das causas: está além da causação e portanto alheio a todo relacionamento com qualquer coisa finita. Neste sentido, existe um hiato entre aquilo que é completamente não-manifesto e todas as formas de manifestação. Ain-Soph não pode emanar nada; nem há lugar para nada além de Ain-Soph. A primeira atividade que marca o começo da existência manifesta é 'zimzum', a contração, a retirada da Deidade de algum lugar, "a entrada de Deus em Si mesmo", uma limitação do Divino através da ocultação. Comparado com a Infinitude, o lugar de retirada é apenas um ponto, e este ponto é 'tehiru', o espaço primordial. A retirada do Divino deixa um espaço de resíduo ou aroma caótico, 'reshimu', a dimensão matérial do futuro universo. Este resíduo de Luz Absoluta é o substrato receptivo para a criação e o poder ordenador da emanação que se segue à contração, e em si mesmo é o espaço. Assim, tanto substrato como potência têm sua origem na Deidade Incognoscível. De Ain-Soph, que abrange o espaço, surge um Raio cujo foco suscita uma resposta de 'reshimu' sob forma de um vaso primordial que pode receber o Raio. Uma vez que o Raio vem como que de todos os lados, o vaso refrator é esférico, e uma vez que o Raio é uma 'medida cósmica' ascendente e descendente, conhecido como 'rahamin' (compaixão), o pulso universal é refletido em um vaso décuplo, os dez 'kelim' ou vasos dos Sephiroth. Tomados juntos, os Sephiroth constituem Adão Kadmon, o homem primordial, o elo entre Ain-Soph e o espaço puro ou 'zimzum'. Contração e expansão, regressão e progressão, 'histalkut' e 'hitpashtut', são o ritmo da evolução cósmica e a batida do coração de Adão Kadmon, o Homem Cósmico. Toda existência corporificada no universo tende para a esfera em sua forma e para o homem em suas potencialidades oviformes.

Metafisicamente, a origem do mal é encontrada na limitação do Absoluto representada pelo 'zimzum'. O ato ontológico e atemporal que permite a existência dos indivíduos é também a fonte do impulo evolutivo e da necessidade de escolher entre o bem e o mal. A vida ética - a vida da escolha consciente - é tão primordial e original como a própria existência. Não obstante, outros eventos ontológicos precedem a existência dos indivíduos concretos e das escolhas práticas. O Raio que entra em 'reshimu' inicia duas atividades encontradas na geometria Pitagórica do ponto: o movimento dinâmico que é descrito geometricamente como 'iggul ve-yosher', círculo e linha. O círculo é a forma natural da energia divina, e a linha é a atividade voluntária que procura criar um todo unificado. Muito parecido com uma mola de cobre que permanece inerte até que um ímã se mova sobre ela, criando uma corrente elétrica na mola, os Sephiroth esféricos são vivos por causa das linhas que os conectam em relações vivas. A Árvore das Luzes é o aspecto ativo das esferas concêntricas quiescentes de Adão Kadmon. As linhas da vontade elétrica dão uma alma ao Home Cósmico. Da cabeça de Adão Kadmon se irradiam tremendas luzes em padrões complexos, a língua pristina da Torah que é o reino dos arquétipos espirituais. Assim, os Sephiroth, quando entendidos voltados para sua Fonte derradeira, são cada um deles um Nome divino.

Esta coleção inicial de luzes foi chamada de 'olam ha-tohu', o mundo do caos, pois ela representa a limitação original de 'zimzum' sem a perfeição ordenada de toda a Árvore, uma vez que o movimento linear do Raio ainda não estabilizou as relações entre os Sephiroth. Cada luz é contida em um vaso de luminosidade mais densa derivado de 'reshimu'. À medida que a luz do Raio flui de Kether, o primeiro Sephira, para os outros Sephiroth, ocorre um desastre cósmico. A tríade superior de Sephiroth suportou a luz, mas as duas outras tríades se despedaçaram com a sua intensidade espiritual, e o Sephira mais baixo, Malkhuth, o reino astral, rompeu-se. Algumas das luzes caídas de imediato voltaram para sua fonte, mas algumas caíram junto com os vasos, e estes fragmentos materiais vivificados se tornaram os 'kelippoth', as cascas vampíricas e forças demoníacas de 'sitra ahar', a região das emanações tenebrosas. Ao passo que este desastre poderia parecer inexplícável, é o resultado necessário da natureza de 'zimzum' como limitação. De certa maneira, a restauração da Árvore das Luzes à sua forma perfeita é uma parte inerente do processo de evolução. A vida moral e espiritual dos seres humanos individuais é um aspecto integrante da urgência divina de manifestar um microcosmo que seja a imagem temporal perfeita da Deidade transcendente.

A história da emanação e evolução é a história de 'tikkun', a restauração de uma ordem intencional que jamais existiu no tempo. Tikkun, a redenção do mundo e de cada indivíduo dentro dele, é o cumprimento do impulso original da vontade inteligente e também é, assim, essencial à lógica de 'zimzum'. A luz fragmentada que emanou da cabeça de Adão Kadmon deve ser restaurada para o todo harmonioso que se manifesta como a comunidade universal dos seres justos. Esta luz quintessencial, que na consciência é a sabedoria espiritual, é o principal elemento em todas as tentativas de restauração. A tríade mais alta de Sephiroth - Kether (a coroa e semente das emanações), Hokhmah (sabedoria pura) e Binah (inteligência abstrata) - é o suporte para a restauração, uma vez que não foi afetada pelo desastre cósmico. Elas ligam as luzes desfiguradas como sendo a primeira fase de um processo alquímico de transmutação no qual a espessura da treva pode ser removida ao mesmo tempo que se preserva a luz espiritual embutida. A Árvore das Luzes se manifesta nesta forma intermediária como as cinco fisionomias ou "faces" de Adão Kadmon, correspondendo aos quatro mundos, desde o arquetípico até o material e ilusório. A primeira 'parzuf' ou face consiste de Kether como Arikh Anpin, a paciente, correspondendo ao mundo arquetípico Aziluth. As segunda e terceira 'parzufim' são Abba e Imma, pai e mãe, Hokhmah masculino e Binah feminina, consideradas do ponto de vista da restauração e correspondendo a Beriah, o mundo da potência criativa. De sua união surge a 'parzuf' Ze'eir Anpin, a impaciente, constituída pelos seis Sephiroth ou o mundo formativo que contém os seis poderes da Natureza no mundo de Yetzirah. O Sephira inferior, Malkhuth, se torna a 'parzuf' Nukha de-Ze'eir, o aspecto feminino receptivo da Natureza, correspondendo ao mundo material de Asiah, manifesto aos cinco sentidos.

As cinco 'faces' constituem o Adão Kadmon como o cosmo parcialmente restaurado que só a humanidade pode levar à completude. Esta descida a partir do Adão Kadmon pristino estabilizou o mundo com uma ordem e harmonia intermediárias que permitem a continuidade dos esforços alquímicos de restauração. É uma restauração externa; a tarefa do ser humano é a restauração interna. Desta forma, cada Sephira fica um degrau abaixo do que sua ordem natural. Assim, Malkuth, o reino astral, se manifesta à consciência como o mundo físico, uma ilusão. Para o ser humano, a 'tikkun' tem dois aspectos: cumprimento dos mandamentos e meditação mística. A vida pura pode ser estabelecida em termos dos 613 mandamentos ou injunções encontrados na Torah (O número é significativo, pois 6 se refere aos poderes da Natureza e 13 é um a menos do que 2 x 7, o número da perfeita unidade ascendente e descendente, enquanto que 6 + 1 + 3 = 10, o número Pitagórico da completude e perfeição cósmicas). Cada mandamento tem um sentido literal, alegórico e espiritual. Enquanto que cada ser humano contém mais ou menos da luz superna associada a uma das sete hierarquias ou raízes de luz, correspondendo aos sete vasos danificados, é impossível cumprir todos os mandamentos em uma vida comum. Assim, todos os seres humanos são envolvidos na 'gilgul', reencarnação, na qual cada alma progride para a 'tikkun' interna, a restauração através do aperfeiçoamento gradual, e as 'gilgulim' ou reencarnações tomadas em seu conjunto trabalham para a restauração do cosmos.

A prece é tornada eficaz através de 'kavvanah', a intenção mística, quando é uma meditação profunda sobre a natureza e sobre a necessidade por unidade cósmica. Ao mesmo tempo, é a reunião das forças da restauração, a subida da alma para sua Fonte divina através da contínua purificação e da continuidade da consciência espiritual, e a fonte da magia. A prece deveria sempre ser voltada para dentro e para cima, em direção ao Divino, de modo que não se torne uma tentativa degradada, embora poderosa, de tentar manipular o mundo. A prece, portanto, é um esforço espiritual de focalizar a vontade no todo, cujo 'afflatus' será a compaixão e a benevolência, assim como uma poderosa corrente elétrica que circula em uma espiral ascendente (combinando 'iggul ve-yosher,', círculo e linha) cria um campo magnético que tende a alinhar em torno de si mesmo entidades suscetíveis de magnetização. No processo de autotransformação, a pessoa une os Sephiroth em sua apropriada ordem elevada, contribuindo para a 'tikkun' do cosmo, e dissolvendo as 'parzufim' de modo que o Adão Kadmon pristino e primordial se manifeste na consciência, apontando para o sempre não-manifesto Ain-Soph. Porque a meditação baseada na autropurificação ética é uma força poderosa para o bem universal, sua sombra é igualmente poderosa. Daí que os 'dibbukim', os demônios obsessores da inversão e da magia negra, serão reais enquanto o cosmo não for uma harmonia perfeita. Entre os ensinamentos mais secretos de Luria estava a doutrina do 'ibbur', o ensinamento de que almas muito avançadas em encarnações que foram cheias de justiça poderiam desfrutar de experiências nos mais altos Sephiroth, de modo que não reeencarnariam completamente como indivíduos, mas antes iluminariam aqueles que reencarnam. Entretanto, esta doutrina desafiava tanto as concepções ordinárias sobre a individualidade que os discípulos de Luria não ousavam divulgá-la em sua inteireza.

Issac Luria recusou-se a deixar seus ensinamentos seminais por escrito. Quando seus discípulos solicitaram que o fizesse, ele respondeu: "É impossível, porque todas as coisas estão inter-relacionadas. Mal posso abrir minha boca para falar sem sentir como que o mar rompendo seus limites e inundando tudo. Como então eu expressaria o que minha alma recebeu, e como poderia colocá-lo em um livro?" A despeito de sua recusa em dar a seus ensinamentos um fórum público, a pureza de seu caráter e sua visão compassiva se tornaram conhecidos em todos os centros de estudo místico no Egito, Itália e Europa Central. Muitos de seus discípulos mais próximos se reuniram, depois de sua morte, em torno de Hayyim Vital, e Vital escreveu muitas das doutrinas que podiam ser reduzidas a palavras. Por fim, as idéias de Luria seguiram sua reputação, e durante dois séculos elas eletrizaram e transformaram a religião popular Judaica e afetaram profundamente os pensadores do fim da Renascença. Enquanto que suas instruções individuais sobre meditação não podiam ser transmitidas, uma vez que variavam de acordo com o caráter e temperamento de cada discípulo, o espírito de sua obra interior em prol da restauração é descoberto em uma leitura intuitiva de cada uma de suas preces litúrgicas, ainda em uso hoje em dia.

"Com tua compaixão multiforme,
unifica meu coração,
e o coração de todo teu povo
para que amem e venerem teu Nome.

"E ilumina nossos olhos
na luz de tua Torah,
pois em ti está a fonte da vida:
em tua luz nós veremos a luz".

Autor: Elton Hall
Revisão: Osmar de Carvalho
Fonte: www.theosophy.org

 

 

 

25 de ago. de 2012

Plotino e o Neoplatonismo


Texto de Carlos Antonio Fragoso Guimarães

"A aspiração do homem não deveria limitar-se a não não ser culpado, mas a ser Deus."  Plotino


Durante o período helenístico pós-Alexandre e, posteriormente, no período Imperial Romano, desenvolveram-se várias escolas de filosofia. Entre elas se destacam a dos cínicos, a dos estóicos e a dos epicuristas. Embora sejam escolas com características bem próprias, todas elas tinham por ponto de partida os ensinamentos de Sócrates e/ou dos pré-socráticos Demócrito e Heráclito. Mas, sem dúvida alguma, a mais importante, bela e orignal das escolas do final da Antiguidade foi inspirada pelo gênio de Platão. Por isso ela é chamada de neoplatonismo, se bem que ela seja, de fato, um aperfeiçoamento extraordinário do pensamento filosófico grego, com matizes bem mais originais e estruturadas do que tinha o pensamento platônico. De fato, a escola neoplatônica nos parece extremamente atual, hoje em dia, devido às grandes similiridade entre a visão e concepção de mundo que emergem de seus pressupostos filosóficos básicos e a atual visão de mundo que surge da Física moderna, da Teoria Geral dos Sistemas e da Psicologia Transpessoal. A figura mais importante do movimento neoplatônico foi Plotino.
 
Plotino nasceu em 205 da era cristã, em Licópolis, permanecendo quase toda a juventude em Alexandria até 243 d.C., quando deixou a cidade para seguir o imperador Jordano em sua expedição oriental. Morto Jordano no meio de sua expedição, Plotino deicide ir à Roma, onde chegou em 244 d.C., fundando uma escola, espelhando-se no exemplo de seu mestre e real modelador do movimento neoplatônico: Amônio Sacas.
 
Pelos escritos de um discípulo famoso de Plotino, Porfírio, sabemos que Amônio foi um jovem brilhante, educado no seio de uma família cristã. Mas depois que passou a se dedicar à filosofia, Amônio, por inclinação e vontade próprias, se voltou novamente ao paganismo (talvez por achar mais liberdade por buscar um caminho próprio de entendimento). Segundo Porfírio, ele tinha um alto conhecimento da filosofia de sua época, e, tal como mais tarde faria Plotino, aprofundou-se de tal modo na vivência da filosofia ao ponto de "ter uma experiência direta seja da filosofia praticada pelos persas, seja daquela preponderante entre os hindus" (Porfírio, Vida de Plotino). Outras referências a Amônio são encontradas em obras de Teodoreto, que era um bispo cristão, Hiérocles de Alexandria e em Nemésio, bispo de Emesa.

Amônio preferiu não se dar a público, rejeitando pertencer ao círculo de celebridades consagradas de seu tempo, talvez por sentir uma certa instabilidade emocional no ar entre as escolas cristãs e pagãs, e, por isso viveu de forma modesta e esquiva, afastando-se do burburinho do mundo e cultivando a filosofia não apenas como um exercício de inteligência, mas também de vida e de aperfeiçoamento espiritual, buscando uma percepção direta, de cunho místico (no sentido transpessoal do termo), da realidade, ou da essência, da existência, juntamente com alguns discípulos mais indentificados com a sua mensagem.
  
Tal como Sócrates e Jesus, Amônio nada deixou escrito, mas sua doutrina foi levada adiante e aperfeiçoada pelo gênio de Plotino, tal como, antes, a mensagem de Sócrates foi perpetuada pelo testemunhos de Platão e Xenofonte. Amônio é apresentado como um filósofo que, elevando-se acima das disputas e das plêmicas das outras escolas filosóficas, soube conciliar Platão e Aristóteles e a transmitir a seus discípulos, sobretudo a Plotino, uma filosofia livre do espírituo de polêmica, muitas vezes resultante da mera vaidade pela disputa intelectual. Conta-se que Plotino, chegando a Alexandria, teria ouvido a todas as celebridadas da época, cristãs e pagãs, mas continuava insatisfeito. Levado por um amigo a Amônio, depois de te-lo ouvido falar apenas uma vez, teria dito: "Este é o homem que eu buscava!", e tornou-se seu discípulo por onze anos. Não é à-toa que nos vêm à mente que a relação entre Amônio e Plotino tenha alguma semelhança com a que existiu entre a de Sócrates e Platão. Outros discípulos famosos de Amônio foram Orígenes, o Pagão, Longino, Erênio e Orígines, o Cristão.

Após fundar sua escola, em Roma, Plotino passou de 244 d. C. a 253 d. C. apenas ministrando lições, sem nada escrever, por respeito a um pacto que fizera com Erênio e Orígines, o Pagão, no sentido de não divulgar a doutrina de Amônio. Mas logo seus colegas romperam o trato, permitindo a Plotino escrever tratados, nos quais fixava suas lições. Todos os seus escritos foram ordenados mais tarde por seu discípulo Porfírio, que os dividiu em seis grupos de nove tratados, de onde veio o título Enéadas (leia a tradução inglesa na internet: The Six Enneads by Plotinus - infelizmente, estes textos magníficos não foram traduzidos ainda para o português), pois, em grego, nove se escreve ennea. Estes escritos chegaram integralmente até nós, por sorte, e eles são, juntamente com os diálogos platônicos e os escritos esotéricos de Aristóteles, uma das mais elevadas e sublimes mensagens filosóficas da Antiguidade. Através deles, podemos perceber o grau de profundida espiritual do pensamento de Plotino, intensamente carregado de imagens poéticas, onde vemos lindamente explicadas fenômenos tais como a saída da alma do corpo (projeção), a análise do Uno (holos), como e porque existem um mundo físico e um outro espiritual, etc.

Plotino possuia um carisma especial, e gozou de enorme prestígio em sua época. E seu fascínio era tal que chegou a exercer uma profunda influência sobre a própria teologia cristã, como sabemos pelos testemunhos de Eusébio, do bispo Teodoreto, etc. Suas lições eram assistidas até mesmo pelo imperador Galiano e sua esposa Solonina, e foi tal o impacto que Plotino exerceu sobre eles que o imperador chegou a examinar um projeto de fundar uma cidade de filósofos que deveria se chamar Platonópolis. O projeto não foi adiante devido às tramas dos cortesãos.

Plotino morreu aos sessenta e cinco anos, em 270 d. C. Suas últimas palavras ao médico Eustóquio foram: "Procurai sempre conjugar o divino que há em vós com o divino que há no universo".

Segundo Reale & Antiseri, a escola de Plotino não se assemelhava a nenhuma das escolas filosóficas anteriores: Platão havia fundado a Academia para a formação de homens que pudessem renovar o Estado; Aristóteles havia fundado o Liceu para organizar e sistematizar a busca do saber; Epicuro havia fundado seu movimento visando dar aos homens a paz e a tranquilidade da alma. Já a escola de Plotino visava ensinar aos homens um modo de entrarem em contato direto com uma realidade mais abrangente, e reunir-se com o divino, de uma forma que hoje chamaríamos de uma experiência direta de cunho transpessoal. Ele dizia que o mero conhecimento intelectual pouco será diante da certeza, da experiência direta das realidades supra-sensíveis. Estas possuiam uma riqueza e uma força transformadora da percepção humana que dificilmente poderiam ser posta em palavras. Aliás, isto é também o que dizem todos os grandes e verdadeiros místicos, santos e pensadores da humanidade, como Mestre Eckhart, São Juan de La Cruz, etc.
 
O fato é que, tal como ocorre em algumas formas de psicoterapia, notadamente a psicologia junguiana e as abordagens existenciais, há fatores significativos em nosso desenvolvimento psíquico que se colocam como indefiníveis, mas altamente significativas a nível intuitivo, já que termos abstratos não são suficentes para descreve-los. Enquanto para a mioria das pessoas, em nossos dias, a única abordagem compreensível da realidade baseia-se na definição de tudo através de conceituações literais, lineares, racionais e impessoais, algumas outras redescobrem que o universo intuitivo pode ser tão ou mais abrangente quanto este causal universo racional. Entre estas pessoas podemos citar Albert Einstein e Carl Gustav Jung. Aliás, Jung julgava ser a intuição e o sentimento faculdades indispensáveis para uma vivência adequada da psique, pois é apenas através de todos os seus elementos (pensamento, sentimento, sensação e intuição) que podemos tentar entendê-la. As dificuldades que a pessoa moderna encontra ao tentar compreender a verdadeira abordagem "mística" (não o fácil e simplório misticismo que vemos sendo vendido a torto e a direito em cada esquina e nas bancas de revistas, mas o real misticismo que vem de dentro da alma) baseia-se no fato de que, como reação à tendência altamente introvertida, supersticiosa e ao obscurantismo da Igreja medieval, o desenvolvimento científico ocidental recente enfatizou excessivamente o pensamento objetivo abstrato, linear e racional. Este desenvolvimento preocupou-se exclusivamente com a utilização prática de objetos externos e necessidades externas e, em nossos dias, culminou no extremo racionalismo lógico e impessoal de nossa sociedade. Assim, a capacidade de sentir e a de intuir não recebem valor ou não são levadas em consideração; os sentimentos são até mesmo considerados como algo dispensável, e as intuições são vistas com desconfiança. Esta é uma abordagem que já vem demonstrando ser falha há muito tempo, já que não é capaz, entre outras coisas, de compreender a motivação básica do comportamento moral do ser humano, por exemplo, que se baseia em alicerces emocionais. Estas áreas até podem ser racionlaizadas, mas a razão em si dificilemente as atinge, pois se assim fosse os cientistas já teriam solucionados problemas como a violência, o suicídio, a apatia, a depressão (que hoje já virou epidemia) e outros males da alma. Os apelos racionais são pouco eficientes quando comparados aos emocionais. Nossa cultura é voltada para a lógica, mas, ao lidar com problemas mais profundos, esta mesma lógica é incapaz de nos oferecer respostas adequadas à compreensão da vida e de seus mistérios. Por que, então, negarmos como fantasias ou irrealidades os fenômenos místicos? Talvez o estado de vigília - considerado o estado pradão normal - seja apenas um de vários níveis de consciência possível ao psiquismo humano.



A Mensagem de Plotino

Plotino, segundo Jostein Gaarder, via o mundo fenomênico e humano como algo que está entre dois polos: Numa extremidade está o divino, de onde tudo vem e para onde tudo vai, ao qual ele chamava de Uno. Plotino abraçava uma concepção holística do universo (é pena que a palvra holismo esteja, hoje em dia, misturada com uma falácia de lixo pseudo-místico, que lhe tiram o signficado real). Às vezes Plotino chamava o Uno de Deus. Na outra extremidade estaria aquilo que Plotino chamava de reino das sombras, onde apenas uma fração ínfima da luz divina chegava. Mas Plotino usava estas metáforas apenas como uma figuração didática. Ele dizia, por exemplo, que estas trevas não tinham uma existência concreta. Elas eram apenas a ausência momentânea da Luz Divina, como mais tarde Mestre Eckhart diria que a matéria era a condensação de algo espiritual. Assim, sendo este extremo apenas ausência de luz, as trevas não são. Elas apenas estão na escuridão. A única existência real é a existência da odem implícita que causa o mundo fenomênico mutável. Assim, só Deus é o real. Mas, assim como uma fonte de luz pouco a pouco se perde na escuridão, também podemos imaginar um lugar onde os raios divinos chegam muito fracos, o que Plotino identificava com a matéria. Mas até mesmo a matéria possui um pouco da luz divina. Sabemos hoje em dia, pela Física, que a matéria nada mais é que uma condensação de algo mais sutil: a nergia.

Eis um belo resumo das analogias poéticas da obra de Plotino (e, por ligação, de Amônio Sacas) dada por Jostein Gaarder:
"Imagine uma enorme fogueira creptando no meio da noite. Do meio do fogo saltam centelhas em todas as direções. Numa amplo círculo ao redor do fogo a noite é iluminada, e a alguns quilômetros de distância ainda é possível ver o leve brilho desta fogueira. À medida que nos afastamos, a fogueira vai se transformando num minúsculo ponto de luz, como uma lanterna fraca na noite. E se nos afastarmos mais ainda, chegaremos a um ponto em que a luz do fogo não mais consegue nos alcançar. Em algum lugar os raios lumiosos se perdem na noite e se estiver muito escuro não vamos enxergar nada. Nesse momento, contornos e sombras deixam de existir".
"Agora imagine a realidade como sendo esta enorme fogueira. O que arde é Deus - e as trevas que estão lá fora são a matéria fria, onde a luz está fraca, da qual são feitos homens e animais. Junto a Deus estão as idéias eternas, as causas de todas as criaturas. Sobretudo, a alma humana é uma 'centelha do fogo'. Mas por toda a parte na natureza aparece uma pouco desta luz divina. Podemos vê-la em todos os seres vivos; sim até mesmo uma rosa ou uma campânula possuem um brilho divino. No ponto mais distante do Deus vivo está a matéria inanimada".

"Digo que tudo o que vemos tem um pouco do mistério divino. Podemos ver o brilho desta alguma coisa num girassol ou numa papoula. Percebemos um pouco mais deste insondável mistério numa borboleta que pousou num galho, ou num peixinho dourado que nada no aquário. Mas o ponto mais próximo em que nos encontramos de Deus é dentro de nossa própria alma. Só lá é que podemos nos re-unir com o grande mistério da vida. De fato, em alguns raros momentos" - como falam Jung e Maslow - "podemos sentir que somos, nós mesmos, este mistério divino". O psicólogo americano Abraham Maslow fez exaustivos estudos provando a existência destas experiências culminantes, frequentemente impossíveis de serem expressas em palavras sem que se percam grande parte de sua força extraordinariamente bela e luminosa, e o onde a sensação de íntimo encontro com algo transcendete é o leitmotiv dominante.

As imagens que Plotino usa, e que Jostein Gaarder acabou de resumir, nos remetem ao mito da caverna de Platão. Mas enquanto Platão é dualista, distinguido de forma estanque a oposição entre o espírito e a matéria, Plotino nos aponta para a realidade de que o isto está também ligado ao aquilo (como também falava Buda), que o universo é uma imensa rede de relações onde tudo tem sua razão de ser no conjunto, no holos. Tudo está ligado a tudo, e tudo é Um, pois tudo concorre para o andamento da obra de Deus. Até mesmo as sombras têm uma tênue parte desta "Unidade" ((holismo)).

Em alguns momentos de sua vida, Plotino experimentou a vívida sensação de unir, fundir sua alma com Deus. Em nosso século, Abraham Maslow fez uma enorme pesquisa para provar que as pessoas mais saudáveis e carismáticas experimentaram, pelo menos uma vez na vida, uma espécie de experiência de pico (as Peak Experiences de Maslow) onde parece que as divisões convencionais do intelecto humano parecem perder todo o sentido, e a pessoa sente-se plena de uma paz e de um contato mais íntimo com algo transcendetal. Chamamos a este tipo de experiência de experiência mística. Plotino, porém, como sabemos, não foi único a viver essa experiência. Como nos fala Jostein Gaarder, pessoas de todas as culturas, em todos os tempos, têm relatado experiências semelhantes. Hoje o estudo dessas experiências é feito pela Psicologia Transpessoal. E um ponto básico destes relatos é o de que, embora ocorram variantes na descrição desses fenômenos - devido ao pano de fundo cultural e às crenças do sujeito -, esses relatos têm muitos e supreendentes pontos em comum.


Misticismo


Em praticamente todos os relatos sobre os chamados êxtases místicos, desde Plotino (e mesmo antes dele) até os dias de hoje com os pacientes/clientes da psicoterapia transpessoal, o que vemos é uma espécie de união íntima com algo que transcende nossos conceitos de realidade, que é difícil de por em palavras. Na nossa cultura cristã - embora o próprio Cristo tenha relatado muitas vezes que ele se sentia um com o Pai, de dizer que "vós sois deuses" e de que "O Reino está em vós" - o padres, pastores e teólogos vários nos inculcam que Deus fez o mundo sem que se envolvesse com o mundo, ou seja, que há um abismo entre Deus e sua criação. Deus teria feito as coisas e estaria apenas observando o andamento do drama universal, às vezes interferindo momentâneamente em algo, nos chamados milagres. Mas no oriente, especialmente no budismo e no taoísmo, e no ocidente, nas religiões originais dos celtas e gauleses (druidas), bem como em alguns de nossos índios da América do Norte e do Sul, em em todos os místicos de qualquer religião, o que se vivencia é uma sensação de união, onde este abismo é desconhecido (veja-se os relatos de Teresa D'Ávila e Juan de la Cruz). O que ele - ou ela - conhece é uma elevação a Deuss (Gaarder, 1995; Grof, 1988; LeShan, 1994).Carl Gustav Jung e Joseph Campbell, bem como Plotino, nos dizem que aquilo que chamamos comumente de "eu" não é nosso eu verdadeiro, é apenas uma máscara, o ego. Em momentos de profundo amor e/ou emoção ou paz podemos sentir rapidamente uma espécie de contato com um eu mais profundo, que Jung chamava de self, e que alguns místicos chamam de Cristo interior. Alguns vão ainda mais além, e se sentem unidos ao próprio Deus, ou a uma "consciência cósmica" - termo muito utilizado na Psicologia Transpessoal. O místico cristão Angelus Silesius (1624-1677) assim se expressou sobre esta experiência: "A pequena gota (o indivíduo) se transforma em mar quando chega até ele; e assim a alma se transforma em Deus quando é nele acolhida" (Gaarder, 1995, p. 154).

Ora, o ego pode se revoltar contra a possibilidade de perder o controle e a pessoa se "perder a si mesma" nesta fusão íntima com a consciência cósmica, mas, como muito bem disse Jostein Gaarder, esta pseudo-perda (na verdade o ego não é eliminado, continua a existir) é algo muito insignificante diante daquilo que se ganha (veja-se a parábola de Jesus sobre o semeador que encontra uma pérola no campo, e vende tudo o que tem para comprar aquele campo). O místico perebe que seu ego é apenas uma parte ínfima de si mesmo. Compreende que o "eu" real é algo infinitamente maior. Compreende que faz parte do universo inteiro, que é Deus. É por isso que os hindus dizem que o Eu é o maior amigo do ego, mas o ego é o pior inimigo do Eu. Ora, como nos diz Jostein Gaarder, se tememos nos perder enquanto indivíduos num mundo que para nós é a realidade (o mundo comum), talvez sirva de consolo e estímulo saber que um dia de qualquer forma termos de perder este "eu cotidiano" de uma forma ou de outra. Por que não tentar experimentar o verdadeiro Eu conseguindo-se se libertar do jugo de um eu egóico? "Aquele que quiser conservar sua vida, perde-la-á, e aquele que quiser perder sua vida, por amor à verdade, a ganhará", já dizia o Cristo.

Jostein Gaarder aponta com muita propriedade que encontramos vertentes místicas em todas as grandes religiões do mundo. "E tudo o que os místicos escrevem sobre suas experiências apresenta visíveis semelhanças, a despeito de todas as diferenças culturais. Somente quando o místico tenta uma interpretação religiosa ou filosófica para a sua experiência é que se evidencia o pano de fundo cultural". (Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia, 1995, p. 155).

Pelos trabalhos em Psicologia, especialmente na Psicologia Junguiana, na Gestalt Terapia e nas terapias humanistas, e principalmente nas Psicoterapias de orientação Transpessoal, sabemos que pessoas que não pertencem a nenhuma religião têm passado e relatados experiências místicas. Elas experiementam espontâneamente algo que chamam, entre outras coisas, de "consciência cósmica" ou, como Freud chamava, de "experiências oceânicas": neste momento, tempo e espaço e outras limitações físicas não passam de figurações fantasiosas da percepção humana. A única coisa que existe é a sensação de completude e consciência de se estar imerso e lúcido de uma realidade maior e mais bela.


Bibliografia Sugerida 
 

Campbell, Joseph, O Poder do Mito, Palas Athenas São Paulo, 1990
Porfírio. Vida de Plotino/Eneadas I-II, Editora Gredos, Madrid, 1996.
Grof, Stanislav. Além do Cérebro - Nascimento, Morte e Transcendência em Psicoterapia, McGraw-Hill, São Paulo, 1988
Reale, Giovanni & Antiseri, Dario. História da Filosofia Vol. I, Ed. Paulus, São Paulo, 1990
Gaarder, Jostein. O Mundo de Sofia, Companhia das Letras, São Paulo, 1995
LeSham, Lawrence. O Médium, o místico e o físico, Summus Editorial, São Paulo, 1993


26 de jan. de 2012

Biografia: Swami Vivekananda

Swami Vivekananda acreditava que a essência do Hinduísmo seria melhor expressa na filosofia da Vedanta, baseada na interpretação de Adi Shankara. Ele resumiu os ensinamentos da Vedanta da seguinte maneira. Toda alma é potencialmente divina. A meta é manifestar esta Divindade interior por meio do controle da natureza, externa e interna.  Faça isso tanto por meio do trabalho, quanto adoração, controle psíquico, ou filosofia – por um, ou mais, ou por todos estes meios – e seja livre. Isto é a totalidade da religião. Doutrinas, ou dogmas, ou rituais, ou livros, ou templos, ou formas, não são se não detalhes secundários. Enquanto um único cachorro em meus país está sem comida, toda a minha religião é alimentá-lo e servi-lo, qualquer coisa excluindo isso é irreligioso. - Levante, desperte e não pare até atingir a meta. - Educação é a manifestação da perfeição já existente no homem - Servir ao homem é servir a Deus.



 
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