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30 de mar. de 2012

O Arcanjo Rebelde e seus Mistérios



Um post original de Busca Interior

Irmãos! Dizia o Mestre Henrique José de Souza: “Devemos fazer luz sobre tudo aquilo que o povo desconhece”. Portanto, ao iniciarmos nossa palestra, que diz respeito ao ARCANJO REBELDE, LÚCIFER, e seus mistérios, queiram os Deuses que possamos demonstrar que sobre o referido Arcanjo, foram cometidas as maiores injustiças que a ignóbil maldade humana concebeu e praticou. Também pudera! Se crucificaram o próprio Filho de Deus, o que não fariam com o suposto inimigo do referido Deus? Mas, diz o ditado popular: “O Diabo não é tão feio como se pinta”. A este respeito é que vai corresponder o espírito do nosso assunto de hoje, quando faremos uma síntese para todos aqueles cujos valores espirituais os trouxeram até aqui, para escutarem a abordagem que faremos sobre um tema tão vital, tema que criou o germe de quantas filosofias já frutificaram no seio dos povos, e que sempre gerou a dúvida sofrida por todo homem de pensamento, sob a influência de todos os climas, em todas as épocas e porque não dizer, em cada problemática de sua peregrinação; ou seja, o Mistério do Bem e do Mal, ou o cruel dualismo que se manifesta na vida de cada Ser Humano.

No entanto os próprios designativos que nas várias tradições e idiomas vieram a ser atribuídos a esse hipotético “Ser” já permitem ao pesquisador isento induzir sua verdadeira e transcendental natureza e função.
Veja-se por exemplo, sob uma análise etimológica; a expressão:

DIABO - formado pela contração do termo (latino) DEO + o radical AB (sânscrito) = Primeiro, significando o termo, literalmente: o Deus Primeiro ou Primordial;

SATANÁS (do sânscrito) = SAT = Aquele, Aquilo, etc. (como Causa Una manifestada) + UR = Fogo + ANÁS = Veste. Portanto literalmente: Aquele que tem as Vestes Ígneas (aqui com alusão ao “AGNI”, o Fogo Sagrado e também ao Mental, que gera todas as coisas); daí o designativo:

LÚCIFER = LUX (Luz) + FERO (Carregar) - latinos, ou seja: O Portador da Luz (aqui como Mental, Inteligência, etc..); 
 
SATAN - SAT + OM (contração da palavra sagrada AUM), representativa dos 3 mundos, etc., significando alegoricamente: Aquele (UNO) Manifestado nos 3 mundos, Tronos, etc.

Assim, melhor do que pudessem conceber toda a riqueza da retórica humana, expressa um fragmento de antiquíssimo livro (o “Sutra Dharma”) a grandiosidade desse eterno choque ou jogo entre as duas “Forças Cósmicas”; indispensáveis à própria evolução Universal:

Os dois existem. Um como Espirito, outro como Matéria... nenhum dos dois se entendem, porque um anda em busca do outro. O que está em baixo, nunca sobe.... O que está em cima, desce sempre para salvar a sua “Sombra”, sob a tutela do Divino.
A Um sobra esta parte, e a Outro, esta falta...”

“O verdadeiro sentido esotérico acerca de “Satan” e a opinião que sobre este assunto tinham as filosofias antigas, acha-se admiravelmente apresentada em um apêndice intitulado “O Segredo de Satã”, 2ª edição, de “Perfect Way”, do Dr. A. Kinsford, (página 214):

No Sétimo dia (ou criação) produziu-se da presença de Deus um Anjo poderoso, cheio de ardimento, e Deus lhe deu o domínio da esfera extrema. A eternidade produziu o tempo; o ilimitado deu nascimento ao limite; o SER desceu à geração. Entre os Deuses não há nenhum que se assemelhe aquele em cujas mãos estão depositados o Reino, o Poder, e a Glória dos Mundos... pois, como diz Hermés; Satã é o Guardião da Porta do Templo do Rei, e no pórtico de Salomão estão guardadas as Chaves do Santuário, para que não penetre nele Profano algum, mas tão somente os Ungidos que possuem o Arcano de Hermés. Temei-o e não pequeis; pronunciai tremendo seu nome..., pois Satan é o magistrado da Justiça de Deus. Ele tem nas suas mãos a Balança e a Espada... Satan é, em suma, o Ministro de Deus, o Senhor das Sete Mansões dos Hades e o Anjo dos mundos manifestados.

Somente as religiões exotéricas é que ignoram que o LOGOS é o doador do Mental e da Sabedoria, (Lúcifer) ou Satan. “Satan é o Deus de nosso planeta” representa o Deus Único, e isso sem qualquer sombra de perversidade, pois é UNO com o LOGOS... portanto, quando os religiosos maldizem a Satã, maldizem o reflexo cósmico de Deus na Terra.

Sabemos por outro lado que, existe cosmicamente UM MOMENTO EM QUE SAINDO A CAUSA UNA (ou Unidade Primordial) DE SEU ESTADO DE DESCANSO (Pralaya) ou imanifestação, ao iniciar-se uma nova etapa ou grande Ciclo evolutivo, entram esses dois Aspectos (Bem e Mal) em simultânea e necessária atividade.
Eis aí o instante em que um Luzeiro (Dhyan-Choan, Ishwara, Arcanjo etc.) passa a atuar no mundo manifestado, assumindo o papel e função de “Opositor, necessário pólo de confronto ou contraste com o Princípio Criador, Positivo. Embora esse metabolismo possua particularidades próprias a cada um dos estágios evolutivos, representa essa condição aquilo que, genericamente, pode-se chamar de “Queda do Espirito na Matéria”, o que tanto vale por um Luzeiro, com toda sua série tulkuística imediata (compondo sua própria Jerarquia) desligar-se transitoriamente de sua consciência Divina e passar a atuar cegamente nos planos inferiores ou mais densos da Criação.

Veio com isso a suceder um fato que as antigas tradições registram com o nome de “Queda dos Anjos”, a Taraka Raja Maya (Guerra simbólica nos Céus), da tradição indú, etc., ou mais precisamente, a chamada “Queda dos Assuras”, embora que em verdade a referida “Queda” ou projeção nos planos mais densos do Sistema fosse do Superior sideral imediato dos mesmos Assuras, ou seja o QUINTO SENHOR, ou Luzeiro.

No já referido “Sutra Dharma”, relata-se que o SENHOR DOS ASSURAS (Os Assuras são os Seres que iniciaram a evolução na 1ª Cadeia), (LUZBEL), tendo idéias próprias relativamente à orientação a ser dada aos seres da Terra, sonegou seu trabalho ao Eterno, sendo consequentemente, projetado (ou expulso) com suas Hostes Divinas, do Mundo Superior para o novo mundo que surgia das regiões mais densas do Sistema.

Embora perdendo temporariamente sua Consciência Divina e suas dignidades, veio Ele a adotar no mundo humano o patronímico de LÚCIFER.
Literalmente: Aquele que carrega a Luz, o Portador do facho, mas na verdade a Luz da Inteligência, do MENTAL a ser plenamente desenvolvido pelos seres da terra, até as fronteiras de seu ultimo estágio, o Mental Superior, Abstrato, como pródromo da etapa seguinte, a intuição ou Budhi, apanágio do 6º Luzeiro.

Veja-se por exemplo, como até o Apocalipse, livro Canônico de grande credibilidade, não é bastante explícito, chegando mesmo as fronteiras da infantilidade, quando fala a respeito de Satã. (Apocalipse - XII, 7-9; que relata a “QUEDA”).

E houve batalha no céu, Miguel e os seus Anjos combateram com o Dragão, e o Dragão e os seus Anjos combateram, mas não conseguiram levar a melhor e daí por diante não houve no céu lugar para eles. E o Grande Dragão, a antiga Serpente, o sedutor do mundo inteiro, foi precipitado sobre a Terra e com ele foram precipitados os seus Anjos”. Em seguida fala o seguinte: que “o acusador dos nossos irmãos, que dia e noite os acusavam perante Deus, foi precipitado”.

De qualquer forma embora exista sobre o fato uma deliberada Maya lançada pelos grandes Iniciados de todas as épocas remanesce nessa instância a idéia de haver ocorrido uma sonegação ou rebeldia contra a determinação da Lei em completar-se a evolução interrompida na Lua, por entender o 5º Luzeiro, que as formas ou Seres da Terra eram por demais vis e grosseiros para receberem a infusão do principio Mental.

Consequentemente, veio a Lei a realizar um verdadeiro “saque contra o futuro”, lançando mão de seu 6º Raio (Luzeiro) - AKBEL, o qual passou a assumir na terra a função de pólo positivo ou construtivo, alem de arcar com a responsabilidade de reconduzir seu Irmão (O QUINTO) ao Trono que lhe pertence, passando este último, destarte a personificar o pólo opositor, com as conseqüências e implicações já vistas.

Toda essa problemática, relatando a fusão dos ASSURAS com as chamadas “Filhas dos Homens”, a Humanidade incipiente, e as causas verdadeiras da chamada Queda dos Anjos, vêm sendo registradas em vários Livros Sagrados, Tradições, Folclores e Mitologias, entre elas, o famoso “LIVRO DE ENOCH” - em seu Capítulo VI, texto esse que os Judeus e a própria Igreja católica esconderam e retiraram do contexto de seus respectivos Livros Sagrados.



Lúcifer

Começamos por dizer que LÚCIFER significa o Portador da Luz, da Inteligência, da Sabedoria; é o Divino Rebelde, que através de idades sem conta, gerou e manifestou o poder obstaculizante, a fim de gerar na alma humana a força propulsora do progresso e da evolução, força esta que animou a todos os gênios, guias e inspiradores da humanidade. Lúcifer é o Arcanjo que tendo se sacrificado no Cáucaso da vida física ou nos mundos mais concretos da manifestação universal, houve por bem brandir a espada do Conhecimento Superior, a fim de libertar as humanas criaturas do abutre das paixões grosseiras, das negativas inércias, da ignorância e os seus filhos morbosos: a Superstição e o Fanatismo.

De acordo com os ensinamentos da Sabedoria Iniciática das Idades ou Ciência Esotérica, Lúcifer não é o ANTI-CRISTO.


O Anti-Cristo

Este é o fruto, o resultado, a síntese das emoções e pensamentos maléficos de toda a humanidade. Mas, para demonstrar o que acabamos de afirmar, teremos que nos reportar a estes mesmos ensinamentos, para dizer que o pensamento é força cósmica manipulada pelas Hierarquias Criadoras, responsáveis pela criação de tudo quanto existe nos planos da manifestação universal. Portanto, tudo quanto existe, foi precedido pelo pensamento.

Para melhor compreensão da atuação desta força nos Seres Humanos, diremos o seguinte: assim como o Gerador não é a Energia, nem a Música o instrumento musical, nem a lâmpada a luz, do mesmo modo o pensamento não é o cérebro, mas este, o transmissor e o receptor desta força, que na etapa atual da evolução, se manifesta nos Seres Humanos como pensamento, gerador da inteligência em suas várias gradações. O cérebro humano é, portanto, uma antena que capta também pensamentos de seres encarnados e desencarnados que estejam vibrando na mesma faixa de interesses e propósitos. Se carregado de maus pensamentos, tornar-se-á instrumento de mortíferas energias condensadas na atmosfera, pela baixa condição espiritual dos seres humanos. Sabemos que o Espírito Humano está terminando a etapa evolutiva da Quinta Sub-Raça da Raça Ariana, cujo estado de consciência da humanidade inteira é psico-mental; isto é, Mental Concreto intimamente ligado ao Corpo Emocional. Portanto, a hierarquia humana ainda é mais brutalizada do que propriamente humanizada; razão pela qual ainda existe a Inveja, o Orgulho, a Vaidade, o Egoísmo, o Ciúme, a Avareza; enfim, todas as imperfeições da Alma Humana, que impedem a sua marcha ascensional para um futuro melhor.

Nestas condições, cada Ser Humano, pensando e sentindo a já referida ordem de pensamentos e sentimentos, percorrendo em ondas vibratórias o oceano infinito da matéria substancial que constituem os planos universais, adquirem Vida e Forma que lhes são dadas pelos Elementais – forças plasmadoras da matéria – passando a ser Elementares porque foram criados pelo pensamento humano – a continuidade das mesmas ordens de pensamentos e sentimentos – no caso, maléficos - gerados pela Humanidade durante milhares e milhares de anos, deram como resultado poderosíssimas egrégoras – entidades psico-mentais - verdadeiras centrais de energia psico-mental. A unificação de todas estas egrégoras maléficas é que passaram a construir ou a formar o Buda Negro do Oriente e o Anti-Cristo do Ocidente. Este é, portanto, o fruto dos pensamentos e dos sentimentos maléficos, principalmente dos religiosos, supersticiosos e fanáticos que o alimentam a todos instante e a toda hora, como lhe ensinam os maus Pastores ou Pastores sombrios, Pastófaros ou Condutores do Gado Humano.

Se Lúcifer, como o portador da inteligência e Eterno Rebelde porque sempre se rebelou contra a estupidez e a ignorância humana, lançou mão destas egrégoras e lançou-as contra a humanidade, manifestando-se como Justiça Universal, isto não se discute.


O que nos revelam algumas Tradições

O verdadeiro ponto de vista exotérico acerca de “Satã” e a opinião que sobre este assunto tinha toda a filosofia antiga, acha-se admiravelmente apresentada em um apêndice intitulado “O Segredo de Satã”, na 2ª edição de “Perfect Way”, do Dr. A. Kins Ford (pág 214): “No sétimo dia (ou criação) produziu-se da presença de Deus um Anjo poderoso, cheio de ardimento, e Deus lhe deu o domínio da esfera extrema. A eternidade produziu o tempo; o ilimitado deu nascimento ao limite; o Ser desceu à geração. Entre os Deuses não há nenhum que se assemelhe aquele em cujas mãos estão depositados o Reino, o Poder e a Glória dos Mundos; pois, como dizia Hermes, Satã é o Guardião da Porta do Templo do Rei, e no pórtico de Salomão estão guardadas as chaves do Santuário, para que não penetre nele Profano algum, mas tão somente os Ungidos que possuem o Arcano de Hermes. Temei-o e não pequeis; pronunciai tremendo seu nome, pois Satã é o Magistrado da Justiça de Deus. Ele tem nas suas mãos a Balança e a Espada, pois a Ele estão encomendados o NÚMERO, O PESO E A MEDIDA. Satã é, em suma, o Ministro de Deus, Senhor das Sete Mansões do Hades e o Anjo dos mundos manifestados (idem, 214 e 215)”.


Somente as pecadoras religiões exotéricas é que ignoram – ou os seus falsos sacerdotes ávidos de dinheiro e de poder fingem ignorar – que o LOGOS é Sabedoria e também Lúcifer ou Satã. “Satã é o Deus de nosso planeta e o Deus único, e isso sem sombra alguma, nem metáfora de perversidade, pois é uno com o LOGOS. Portanto, quando os religiosos maldizem a Satã, maldizem o reflexo cósmico de DEUS, anatematizam DEUS manifestado na matéria ou no objetivo; maldizem a Sabedoria para sempre incompreensível, revelada como LUZ e SOMBRA, BEM e MAL na natureza, na única forma compreensível à limitada inteligência do Gênero Humano”. Todos os Cabalistas e Simbologistas demonstram suma repugnância a confessar a queda dos Anjos, desde que os teólogos inventaram o Demônio, colocando um véu teológico entre a Humanidade e Lúcifer, a DIVINA ESTRELA, ou seja, O FILHO DA MANHÃ, criaram os mais gigantescos de todos os paradoxos, uma Luz Tenebrosa e Negra.

Todas as tradições religiosas, inclusive a Bíblia, desde o Gênese até o Apocalipse, são unânimes em afirmar que a Queda dos Anjos se deve ao Orgulho, Ambição e Vaidade do Arcanjo Rebelde. Assim sendo, lançando-se mãos dos ensinamentos da Ciência Esotérica, poderemos esclarecer que os citados sentimentos que fazem parte da imperfeita personalidade humana, não podem ser atribuídas a uma CONSCIÊNCIA CÓSMICA; que tal fato ocorreu e ocorre devido a incapacidade das humanas criaturas para compreenderem a Missão de que foi investido pelo próprio LOGOS-DEUS – tão Excelso SER. Esta incapacidade qual nos referimos se deve a diferença de natureza. Enquanto o Ser Humano evolui seguindo a linha da transitoriedade das formas; isto é, NASCE, CRESCE, MORRE, Lúcifer é Eterno. Entretanto, apesar de estar muito acima da linha traçada para a evolução da Hierarquia Humana, a responsabilidade de sua missão junto a referida Hierarquia, o levou a influenciar de tal maneira o Espírito Humano, que este se viu arrastado para uma dualidade poderosa, que poderá receber o nome de Luta – SIM e NÃO, BEM e MAL, pois que é CAINDO E LEVANTANDO QUE SE REALIZA A EVOLUÇÃO, libertando-se das trevas da ignorância para alcançar a Luz da Sabedoria.

A ignorância dos pecadores sacerdotes é que deu origem a todas as formas imensamente horrorosas, que erroneamente se atribuem a LÚCIFER. Enquanto outros mais evoluídos o consideram ALTIVO E BELO; duma beleza Supra Terrestre, de porte altivo e majestoso. Entretanto, a bem da verdade, devemos esclarecer que por diferença de natureza, olhar humano algum jamais o contemplou.

Irmãos! O estudante da Sabedoria Iniciática das Idades compreende que as massas populares necessitam de um freio moral, porque o Ser Humano está sempre ansioso de um céu, de um paraíso e não pode viver sem um ideal qualquer que lhe sirva de um fanal e de consolo. Mas, neste difícil momento de transição de um Ciclo para outro, e o início da Civilização Aquariana, quando começará o detronamento do “DEUS de cada país e a proclamação da única e universal Divindade; o DEUS da imutável Lei, não o DEUS da piedade; mas o DEUS da justiça distributiva; não o DEUS da misericórdia, que é simplesmente um incentivo para se cometer o Mal e reincidir nele”, e se para nós, não há religião superior a verdade, é nossa obrigação primeira, já que a nossa ESCOLA INICIÁTICA, a Confraria Mística Brasileira, seguindo os ensinamentos do Excelso Mestre Henrique José de Souza, vem trabalhando para a formação da elite espiritual (Humanidade), precursora e construtora da Nova Era, é justo que se diga que se a religião em determinados períodos históricos serviu de armadura protetora para o Ser Humano na sua evolução, também é justo que se diga que foi a pior capa, pois bitolou, dogmatizou a alma humana, impedindo o desenvolvimento mental da Humanidade. Contra esta Capa de Hipocrisia, tecida pela mão velhaca dos falsos sacerdotes, ávidos de domínio e poderio, muitos dos quais na época atual fizeram do sacerdócio um emprego, sempre lutaram contra os supostos demônios e grandes pensadores.

Todas as religiões deturparam a verdade primitiva que foi ensinada por todos os Avataras Cíclicos, que diga-se de passagem, nenhum deles fundou religião alguma. “Todas elas foram fundadas pelo interesse mercantil de seus falsos sacerdotes”.

Queremos com isto dar uma conceituação exata, correta e nítida a respeito do Grande Espírito de Luz.

Quando Jeoshua – o Jesus Bíblico afirma: “Vi Satã cair do céu como um raio (Lucas 10:18)”, é uma simples declaração de seus poderes clarividentes e uma referência à encarnação do Raio Divino.

O sistema cristão não é o único que degradou estes Deuses em Demônios (os Suras ou Deuses em Assuras ou não-Deuses).

O Zoroastrismo e ainda o Brahamanismo aproveitaram-se disso para impor-se a mente do povo e escravizá-la. Quando Jeoshua fala às mentes e aos corações dos convertidos à antiga Religião Sabedoria – que outra não é senão a sempre e eterna renovadora Ciência Esotérica – apresentada com uma nova forma pelo respectivo Avatara, os ensinamentos por ele transmitido, foram desfigurados até o ponto de não serem reconhecíveis, do mesmo modo que o foi a sua própria personalidade, estruturada para ser amoldada ao mais cruel e pernicioso dos dogmas teológicos. Vejamos por exemplo, como até o Apocalipse, livro canônico de grande credibilidade, não é o bastante explícito, chegando mesmo as fronteiras da infantilidade quando fala a respeito de Satã. Vale a pena ler (Apocalipse 12:7-9): “E houve batalha no céu: Miguel e os seus anjos combateram com o Dragão, e o Dragão e os seus anjos combateram, mas não conseguiram levar a melhor e daí por diante não houve no céu lugar para eles. E o grande Dragão, a antiga Serpente, o sedutor do mundo inteiro, foi precipitado sobre a Terra e com ele, foram precipitados os seus anjos”. Em seguida, fala o seguinte: “Que o acusador dos nossos irmãos, que dia e noite os acusava perante Deus, foi precipitado”.

Apesar da simplicidade da narração, entretanto, a mesma não nos parece tão clara como deveria ser. Senão vejamos:

a. Por que razão o Arcanjo Miguel ou Mikael, juntamente com os seus anjos, usaram a força para derrotar o Diabo?

b. Será que Deus, que é Onipresente, Onisciente e Onipotente, não poderia ter evitado a luta e com um só gesto de sua vontade, ter afastado o Rebelde?

c. Se Deus é Onisciente, sabia que o epílogo da batalha lhe seria favorável; e se não sabia, o que teria ocorrido se as milícias de Lúcifer vencessem as de Mikael?

d. A maioria das tradições afirmam que lúcifer foi precipitado no abismo, nas trevas, onde posteriormente foi denominado de Inferno. Entretanto, o Apocalipse afirma o contrário, isto é, que o Diabo, o Dragão, juntamente com os seus seguidores, foi precipitado sobre a Terra. É justo relacionar a Terra onde Satã é o príncipe, com o Inferno? Estas perguntas poderão ser respondidas quando dissertarmos a respeito de:


Lúcifer à luz da Sabedoria Iniciática das Idades

Na sua maravilhosa Obra, a Doutrina Secreta, diz a Mestra Helena Petrovna Blavatsky: “Ou aceitamos a emanação do Bem e do Mal, como ramos do mesmo tronco da árvore da existência, ou teremos que nos resignar ao absurdo de CRER em dois ABSOLUTOS ETERNOS”. Para que possamos tentar interpretar tão sábios ensinamentos, teremos que lançar mão de dois ramos da Ciência Esotérica, ou sejam: a COSMOGÊNESE – origem do Cosmo – e a ANTROPOGÊNESE – origem do Ser Humano; ciências que acreditamos, serão ensinadas nas Universidades do futuro porque somente através delas o Ser Humano, pelo menos de maneira geral, virá a saber quem foi, de onde veio e para onde vai. Portanto, de onde viemos? Suponhamos que houvesse um desequilíbrio na correlação das forças cósmicas, um desequilíbrio na mecânica celeste, e que este desequilíbrio provocasse uma catástrofe cósmica que fizesse desaparecer a Terra, a Lua, o Sol, as Estrelas, os Cometas, a poeira sideral, o Som, a Vibração, a Luz; enfim, desaparecesse tudo, absolutamente tudo. Ficaria o quê? Nada ou a não existência. A esta Não Existência é que Moisés, usando a linguajar da época, chamou de águas do abismo e atualmente, a Sabedoria Iniciática das Idades denomina de Substância Primordial. Esta Substância é alguma coisa; porém, na atual etapa evolutiva é incompreensível, mesmo para o Ser Humano considerado sábio. Todavia, a Ciência Esotérica ensina que inerentes a essa não existência ou Substância Primordial, sub-existem 3 Leis fundamentais; ou sejam: LEI CÍCLICA, LEI DA POLARIDADE, LEI DA EVOLUÇÃO. Portanto, obedecendo a LEI CÍCLICA, a não existência passa a ser existência, o não Ser passa a Ser. Usando a linguagem do Dr. A. Kinsford: “A Eternidade produziu o tempo; o ILIMITADO deu nascimento ao LIMITE”.

Neste ponto, todas as grandes religiões são unânimes ao afirmar que quando este Algo algo surgiu, do ILIMITADO para o LIMITE, surgiu de forma trina, assim representada: é OSIRIS, ÍSIS E HÓRUS para os Egípcios; BRAHMA, VISHNU E SHIVA para os Hindus; PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO para os cristãos; PACHACAMAC, INTI E VIRACOCHA, para os Incas; o SUPREMO ARQUITETO para os Maçons ; o SAGRADO PELICANO para os Rosa Cruzes; o LOGOS para os antigos Gregos; enfim, é DEUS no seu aspecto cósmico.

Diz a tradição oculta que do Uno Trino surgiram os Sete Auto-Gerados, que são sete Consciências Cósmicas que vão criar os Mundos, os Seres, as Coisas, as Multidões. Cada uma dessas Consciências cria o seu próprio mundo e nele se infunde; isto é, o DEUS MANIFESTADO na natureza como VIDA ENERGIA da respectiva CADEIA. Quando isso ocorre, quando o ARCANJO está manifestado, constituindo o próprio corpo da Cadeia em evolução, é sempre orientado espiritualmente pelo ARCANJO que vem a seguir, na escala cronológica de Um a Sete, com exceção da Primeira Cadeia, que foi orientada pelo próprio SUPREMO ARTQUITETO; daí dizer a tradição que a Primeira Cadeia é filha das Trevas ou das noites de Brahma. Por exemplo: a Primeira Cadeia foi orientada pelo Supremo Arquiteto. A Segunda Cadeia pelo 3° Arcanjo. A Terceira Cadeia pelo 4°. A Quarta Cadeia deveria ser dirigida pelo 5°, o que não ocorreu (daí a origem de todos os mistérios relacionados com Lúcifer). A 5ª Cadeia pelo 6°. A 6ª Cadeia pelo 7°, e a 7ª Cadeia pelo Supremo Arquiteto, DEUS. É a manifestação voltando a sua origem, ou a Serpente mordendo a própria cauda, da Simbologia Tradicional.

Devido a grandes dificuldades encontradas pelo Dirigente Espiritual da 3ª Cadeia, o 4° Arcanjo, a Cadeia Terrestre inicia a sua evolução com atraso e com bastante deficiência evolucional, razão pela qual as duas Primeiras Raças da referida cadeia – ETÉRIA E HIPERBÓREA – não tiveram desenvolvimento de Estado de Consciência, apenas as formas se transformaram.

Como poderia então, o Portador da Luz, o Senhor da Inteligência, do Mental, encarnar juntamente com os seus Anjos nestas formas primitivas, cujas, não correspondiam ao seu Estado de Consciência? Aí está a razão da revolta, da batalha travada nos céus e da posterior queda dos Anjos de que nos falam as tradições religiosas, que diga-se de passagem, muito mal interpretada. Mas, nos meados da RAÇA LEMURIANA, quando a onda de vida que alimenta a Cadeia Terrestre chegou ao máximo de densificação, houve necessidade de que o Pólo Espiritual se manifestasse em toda a sua potência, o que ocorreu com a vinda para a terra dos 6° e 7° Arcanjos, e que forçou a descida do 5°, após a batalha travada com o ARCANJO MIKAEL, e que levou milhões de anos depois, o Avatara do Ciclo de Pisces a dizer: “Vi Satã cair do Céu como um raio”.

Com a vinda das já citadas Consciências Cósmicas para o Globo Terrestre, grandes modificações ocorreram e que vieram a beneficiar a nascente Humanidade. A sua consciência que estava focada no Sistema Neuro-Vegetativo passou a se desenvolver juntamente com o Cérebro Espinhal para o desenvolvimento do Mental, que é a tônica do Divino Rebelde. Sabemos que a polaridade existe em toda a natureza; entretanto, era necessário que esta polaridade se fizesse consciente no aspecto humano, para o pleno desenvolvimento do Mental Concreto, porque só neste Estado de Consciência é que se concebe o que seja Bem e o que seja Mal. A polaridade foi instituída, ficando o pólo positivo da evolução com o 6° Arcanjo e o pólo negativo com o 5° Arcanjo – Lúcifer; e que deveria durar até o pleno desenvolvimento do Mental Concreto. Lúcifer e seu irmão, o 6° Arcanjo, passaram a ser dois pólos através dos quais girou toda a evolução da criatura humana. “Sem a atuação desses dois pólos, seria o Ser Humano um simples autômato estático, mas não um realizador dinâmico do seu destino”. Enquanto o Pólo Positivo, através de seus Avataras, lançava as diretrizes evolucionais de acordo com as necessidades cíclicas, inspirando, orientando e amparando as humanas criaturas pela tortuosa estrada evolucional, o Pólo Negativo, Lúcifer, através da tentação e do poder obstaculizante, testava o Ser Humano em evolução, a fim de despertar-lhe a força de vontade, a persistência, a atenção, para poderem alcançar admiravelmente a evolução espiritual.

“A historia da tentação no paraíso contada pela Bíblia mostra o efeito da entrada do principio de Lúcifer quando expõe simbolicamente como, por meio da tentação, foram postas à prova a força e a persistência do par humano. “Os que não venceram tal principio, o da tentação, e que ficaram à margem da evolução, somente eles é que apresentam os efeitos do referido Princípio, com as características da vulgaridade e da infâmia, fazendo com que o Divino Rebelde veja nestas criaturas apenas seres que merecem exclusivamente a destruição, e não o amor e o cuidado”. Teve ele ocasião de dizer, segundo as palavras de um Membro da Fraternidade Branca: “Tenho horror a tudo que seja corriqueiro e vulgar”. O atrito entre estes dois pólos – Positivo e Negativo – atuando dentro da alma humana, criando a harmonia dos opostos, e que veio a ser a causa do desenvolvimento Mental Concreto das criaturas humanas, foi sempre uma realização paradoxal, realizada pela luta evolutiva travada entre Lúcifer e seu irmão, o 6° Arcanjo, no campo da batalha da Humanidade.

Disse o Excelso Mestre Henrique José de Souza: “O Mal perseguindo o Bem, ambos caminham para a neutralidade”. Portanto, a consciência do Bem e do Mal existentes na consciência humana, fazem parte dos planos evolucionais, muito embora a prática do bem proporcione felicidade, enquanto a prática do Mal proporcione infelicidade, mas servirá como experiência, embora dolorosa, para o Espírito Humano em evolução, porque é entre Altos e Baixos, entre Luzes e Trevas, que a Lei Evolucional se fará sentir.

Conforme diziam algumas tradições, o Divino Rebelde, Lúcifer, foi investido pelo próprio LOGOS-DEUS da dolorosa e incompreendida Missão de testar o Ser Humano, criar obstáculos evolucionais, a fim de que o referido Ser Humano pudesse distinguir o Bem do Mal, e com isto, ganhar o desenvolvimento do Estado de Consciência Mental Concreto. Os meios usados pelo Divino Rebelde, para dar cumprimento a sua Missão, são assuntos que dizem respeito a Consciência Cósmica, e jamais poderão ser entendidas por uma consciência humana. Entretanto, a Ciência Esotérica ensina, através da Confraria Mística Brasileira que diga-se de passagem, é uma Escola Iniciática constituída de 9 graus, através dos quais, iniciaticamente, o Discípulo se prepara para quando chegar ao 10° grau, preparado esteja para receber ensinamentos que foram deixados pelo Excelso Senhor Henrique José de Souza, ensinamentos que fazem “arder como nunca, chamas de supremas verdades virgens, jamais entrevistas antes, para o deslumbramento das almas ricas, sensíveis aos grandes mistérios da vida”. Mas, dizíamos: o desenvolvimento do Mental Concreto, que começou muito antes da catástrofe atlante, e se desenvolveu por todo o desenrolar da RAÇA ARIANA, no qual teve papel preponderante a dinâmica do ARCANJO REBELDE, no está chegando ao seu final.

Desde o julgamento cíclico de 1956, a Humanidade absolvida pelo referido Julgamento, ainda que inconsciente, ansiosa está pela construção de um mundo melhor; mundo sem violência, sem crimes, sem miséria, sem desonestidade, sem corrupção, sem desamor. Com o advento da Civilização Aquariana e o início do desenvolvimento do MENTAL ABSTRATO, cujas bases estarão inseridas na Mensagem que será lançada pelo AVATARA MAITRÉIA (que é um estado de ser), conceito de Bem e de Mal, que até então serviu como mola propulsora para o desenvolvimento do Mental Concreto, deixará de existir, e a polaridade cósmica no aspecto humano, que foi formada pela influência dos 5° e 6° ARCANJOS, e que gerou a Consciência Humana, estará equilibrada e o ARCANJO REBELDE terá cumprido a sua Missão, quando simbolicamente, os Dois Irmãos estarão bebendo na mesma Taça.


Final

Irmãos! Para finalizar: Os tempos esperados são chegados. Por isso diremos: dia virá em que a Humanidade inteira reconhecerá que se não houvesse o Poder Obstaculizante, ela, Humanidade, jamais chegaria ao ponto em que chegou.

Pretendemos com os esclarecimentos que foram oferecidos, termos feito um ato de suma justiça, libertando os Seres Humanos do DIABO, ao mesmo tempo que livramos LÚCIFER da ignorância humana.


Mário Amazonas Guimarães
“Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas a favor das igrejas. Eu sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã.” Apocalipse 22:16
 

9 de nov. de 2010

Os Essênios


http://www.espacoholistico.com.br/imagens/vasoceramica.jpgEram originários do Egito, e durante a dominação do Império Selêucida, em 170 A.C., formaram um pequeno grupo de judeus, que abandonou as cidades e rumou para o deserto, passando a viver às margens do Mar Morto, e cujas colônias estendiam-se até o vale do Nilo.
Os essê
nios pertenciam a uma das cinco seitas judaicas da época, a saber:








Os Fariseus – Flexíveis na interpretação das escrituras, valorizavam a erudição, questionavam a tradição e adaptavam as leis ás circunstâncias. Acreditavam na alma imortal e na ressurreição, mas não eram messiânicos.

Os Saduceus – Aristocráticos estavam sempre ao lado de quem detinha o poder. Dominavam os serviços religiosos no Templo em Jerusalém, e interpretavam literalmente as leis. Negavam a imortalidade da alma e a ressurreição.

Os Sicários – “Homens com punhal” partilhavam das mesmas crenças dos fariseus, mas viam a guerrilha contra Roma como um preparo de ações maiores a serem realizadas na chegada do Reino de Deus.

Os Zelotas – De origem sacerdotal pregavam a expulsão dos romanos e a morte dos judeus que colaboravam com o invasor, chegando a matar os que se casavam com mulheres pagãs. Desencadearam a revolta contra os romanos que levou à Guerra Judaica( 66-70d.C.) Entre os seguidores de Jesus, Pedro, Judas e seu irmão Thiago teriam sido zelotas.

No meio da corrupção que imperava na época, os essênios conservavam a tradição dos profetas e o segredo da Pura Doutrina. De costumes irrepreensíveis, moralidade exemplar, pacíficos e de boa fé, dedicavam-se ao estudo espiritualista, à contemplação e à caridade, longe do materialismo avassalador. Segundo alguns estudiosos, foi nesse meio onde passou Jesus, no período que corresponde entre seus 13 e 30 anos.

Os essênios suportavam com admirável estoicismo os maiores sacrifícios para não violar o menor preceito religioso. Procuravam servir a Deus, auxiliando o próximo, sem imolações no altar e sem cultuar imagens. Eram livres, trabalhavam em comunidade, vivendo do que produziam. Em seu meio não havia escravos.

Tornaram-se famosos pelo conhecimento e uso das ervas, entregando-se abertamente ao exercício da medicina ocultista. Em seus ensinos, seguindo o método das Escolas Iniciáticas, submetiam os discípulos à rituais de Iniciação, conforme adquiriam conhecimentos e passavam para graus mais avançados. Mostravam então, tanto na teoria quanto na prática, as Leis Superiores do Universo e da Vida, tristemente esquecidas na ocasião.
Alguns dizem que eles preparavam a vinda do Messias. Eram uma seita aberta aos necessitados e desamparados, mantendo inúmeras atividades onde a acolhida, o tratamento de doentes e a instrução dos jovens eram a face externa de seus objetivos.
Muitos estudiosos acreditam que a Igreja Católica procura manter silêncio acerca dos essênios, tentando ocultar que receberam desta seita muitas influências. Não há nenhum documento que comprove a estada essénia de Jesus, no entanto seus atos são típicos de quem foi iniciado nesta seita.

A missão dos seguidores do Mestre Verdadeiro foi a de difundir a vinda de um Messias e nisto contribuíram para a chegada de Jesus. Na verdade, os essênios não aguardavam um só Messias, e sim, dois. Um originário da Casa de Davi, viria para legislar e devolver aos judeus a pátria e estabelecer a justiça.
Esse Messias-Rei restituiria ao povo de Israel a sua soberania e dignidade, instaurando um novo período de paz social e prosperidade. Jesus foi recebido por muitos como a encarnação deste Messias de sangue real. No alto da cruz onde padeceu, lia-se a inscrição: Jesus Nazareno Rei dos Judeus.
O outro Messias esperado nasceria de um descendente da Casa de Levi. Este Salvador seguiria a tradição da linhagem sacerdotal dos grandes mártires. Sua morte representaria a redenção do povo e todo o sofrimento e humilhação por que teria que passar em vida seria previamente traçado por Deus.
O Messias-Sacerdote se mostraria resignado com seu destino, dando a vida em sacrifício. Faria purgar os pecados de todos e a conduta de seus atos seria o exemplo da fé que leva os homens a Deus. Para muitos, a figura do pregador João Batista se encaixa no perfil do segundo Messias. Até os nossos dias, uma seita do sul do Irã, os Mandeanos, sustenta ser João Batista o verdadeiro Messias.
Vivendo em comunidades distantes, os essênios sempre procuravam encontrar na solidão do deserto o lugar ideal para desenvolverem a espiritualidade e estabelecer a vida comunitária, onde a partilha dos bens era a regra. Rompendo com o conceito da propriedade individual, acreditavam ser possível implantar no reino da Terra a verdadeira igualdade e fraternidade entre os homens. Consideravam a escravidão um ultraje à missão do homem dada por Deus.

Todos os membros da seita trabalhavam para si e nas tarefas comuns, sempre desempenhando atividades profissionais que não envolvessem a destruição ou violência. Não era possível encontrar entre eles açougueiros ou fabricantes de armas, mas sim grande quantidade de mestres, escribas, instrutores, que através do ensino passavam de forma sutil os pensamentos da seita aos leigos. O silêncio era prezado por eles. Sabiam guardá-lo, evitando discussões em público e assuntos sobre religião. A voz, para um essénio, possuía grande poder e não devia ser desperdiçada. Através dela, com diferentes entonações, eram capazes de curar um doente. Cultivavam hábitos saudáveis, zelando pela alimentação, físico e higiene pessoal. A capacidade de predizer o futuro e a leitura do destino através da linguagem dos astros tornaram os essênios figuras magnéticas, conhecidas por suas vestes brancas. Eram excelentes médicos também. Nos escritos dos rosacruzes, são considerados como uma ramificação da Grande Fraternidade Branca, fundada no Egito no tempo do faraó Akenaton.

Em cada parte do mundo onde se estabeleceram, eles receberam nomes diferentes, às vezes por necessidade de se protegerem contra as perseguições ou para manterem afastados os difamadores. Mestres em saber adaptar seus pensamentos às religiões dos países onde se situavam, agiram misturando muitos aspectos de sua doutrina a outras crenças. O saber mais profundo dos essênios era velado à maioria das pessoas. É sabido também que liam textos e estudavam outras doutrinas. De sua teologia e de suas doutrinas se conhece muito pouco. Não se sabe se tiveram outros livros sagrados além do Pentateuco.
Para ser um essênio, o pretendente era preparado desde a infância na vida comunitária de suas aldeias isoladas. Já adulto, o adepto, após cumprir várias etapas de aprendizado, recebia uma missão definida que ele deveria cumprir até o fim da vida. Vestidos com roupas brancas, ficaram conhecidos em sua época como aqueles que “são do caminho”. Foram fundadores dos abrigos denominados “beth-saida” , que tinham como tarefa cuidar de doentes e desabrigados em épocas de epidemia e fome. Os beth-saida anteciparam em séculos os hospitais, instituição que tem seu nome derivado de hospitaleiros, denominação de um ramo essênio voltado para a prestação de socorro às pessoas doentes. Fizeram obras maravilhosas, que refletem até os nossos dias.

COTIDIANO E FILOSOFIA DOS ESSÊNIOS

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/83/Josephus.jpg/220px-Josephus.jpgÉ possível conhecer o dia-a-dia dos essênios a partir de informações do historiador judeu Flávio Josefo ( 37 d.C – 100 d.C) que com 16 anos viveu durante três anos com um mestre essênio e deixou documentos relatando as suas experiências.
De acordo com Josefo, os membros da seita acordavam antes do nascer do Sol. Permaneciam em silêncio e faziam suas preces até o momento em que um mestre dividia as tarefas entre eles de acordo com a aptidão de cada um. Trabalhavam durante 5 horas em atividades como o cultivo dos vegetais ou o estudo das escrituras. Terminadas as tarefas, banhavam-se em água fria e vestiam túnicas brancas. Comiam uma refeição em absoluto silêncio, só quebrado pelas orações recitadas pelo sacerdote no início e no fim. Retiravam então a túnica branca, considerada sagrada, e retornavam ao trabalho até o pôr-do-sol. Tomavam outro banho e jantavam com a mesma cerimônia.


Josefo também nos conta que os essênios tinham com o solo uma relação de devoção. Um dos rituais comuns deles consistia em cavar um buraco de cerca de 30 centímetros de profundidade em um lugar isolado dentro do qual se enterravam para relaxar e meditar.
As refeições eram frugais, com legumes, azeitonas, figos, tâmaras e, principalmente, um tipo muito rústico de pão, que quase não levava fermento. Eles possuíam pomares e hortos irrigados pela água da chuva, que era recolhida em enormes cisternas e servia como bebida. Além dela, as bebidas essênias se resumiam ao suco de frutas e “vinho novo”, um extrato de uva levemente fermentado.
Os hábitos alimentares frugais e a vida metódica dos essênios garantiam-lhes uma vida saudável. Segundo Josefo, muitos deles teriam atingido idade extraordinariamente avançada.
Uma das principais obras que permitem o estudo sobre a filosofia essênia é um manuscrito encontrado em 1785 por um historiador francês em viagens pelo Egito e pela Síria. É um dialogo entre Josefo e o mestre essênio Banus a respeito das leis da natureza. Abaixo estão algumas definições:

O Bem - Tudo aquilo que preserva ou produz coisas para o mundo, como “o cultivo dos campos, a fecundidade de uma mulher e a sabedoria de um professor”.
O Mal - O que causa a morte, como a matança de animais. Por esse motivo, o sacrifício de animais, mesmo que para a alimentação, é condenável.
A Justiça - O homem deve ser justo porque na lei da natureza as penalidades são proporcionais às infrações. Deve ser pacífico, tolerante e caridoso com todos, “para ensinar aos homens como se tornarem melhores e mais felizes”.
A Temperança - Sobriedade e moderação das paixões são virtudes, pois os vícios trazem muitos prejuízos à saúde.
A Coragem - Ela é essencial para “rejeitar a opressão, defender a vida e a liberdade”.
A Higiene - Uma outra virtude essencial para os essênios para “renovar o ar, refrescar o sangue e abrir a mente à alegria”.
O Perdão - No caso de as leis não serem cumpridas, a penitência é simples e para se obter o perdão, deve-se “fazer um bem proporcional ao mal causado”.

JESUS CRISTO TERIA SIDO UM ESSÊNIO?

Há dezenas de dúvidas sobre os essênios, mas a hipótese de que Jesus Cristo teria tido contato com eles é uma das mais intrigantes.
Não há relatos sobre onde esteve nem o que Jesus fez entre seus 13 e 30 anos. Assim, a hipótese que os estudiosos adotam é a de que Jesus, durante esse tempo, esteve com os essênios e teve sua “clarividência” despertada junto a esse povo.
Outro fato intrigante, é que, sendo os essênios uma das três mais importantes seitas da Palestina naquela época, por que o evangelho não fala deles?
Teria sido o evangelho “censurado”? A verdade ainda é desconhecida, mas, de acordo com os manuscritos do mar Morto, eis alguns costumes dos essênios:
• Batismo.
• Santa Ceia.
• Caridade.
• Andavam em grupo de doze.
• Jejum.
• Curandeirismo (por imposição das mãos).
O tipo de vida dos essênios se parecia muito com a dos primeiros cristãos, o que faz algumas pessoas pensarem que Jesus fez parte dessa seita antes de começar sua missão pública.
O que se tem certeza é de que Jesus pode tê-la conhecido, mas não há nada que prove que Ele a tenha adotado, e tudo o que se escreveu sobre esse assunto não tem comprovação.

O LEGADO ESSÊNIO

No fim de 1946 (Novembro ou Dezembro) três pastores em Ain Feshka, oásis próximo ao Mar Morto, descobrem em uma das grutas da região uns jarros de argila e em um deles três rolos escritos em hebraico antigo, o que dificulta a identificação. Esta gruta está situada nos rochedos de uma falésia a cerca de 1300 metros ao norte de algumas ruínas que os árabes conhecem pelo nome de Khirbet Qumran.
Assim, com a descoberta, os arqueólogos relacionam o grupo que vivia nessas ruínas com os possíveis responsáveis pelos manuscritos encontrados. E ao redor, outras grutas são encontradas contendo outros fragmentos cuidadosamente embalados em jarros, o que leva a crer que aqueles documentos não estariam ali por acaso.
No total, são recuperados, em 11 grutas de Qumran, 11 manuscritos mais ou menos completos e milhares de fragmentos de mais de 800 manuscritos em pergaminhos e papiros. Escritos em hebraico, aramaico e grego, cerca de 225 manuscritos são cópias de livros bíblicos, sendo o restante livros apócrifos. Os manuscritos estão sendo traduzidos até hoje e muito já foi descoberto.

José Maria Vidotto 

O Evangelho Essênio da Paz

Em 1923 Edmond Bordeaux Szekely, filologista, arqueólogo e investigador, teve acesso aos arquivos do Vaticano e encontrou um manuscrito em aramaico chamado “O Evangelho Essênio da Paz”, da autoria do apóstolo João. Sem autorização da igreja, e tendo-lhe custado a excomunhão, em 1928 publica a tradução do chamado primeiro livro.

Em 1979 ao morrer encarrega um seu amigo e colaborador de publicar o quarto e último volume dois anos após a sua morte.


O Evangelho Essênio da Paz mostra que Jesus foi um Mestre dessa comunidade, reporta como nenhum outro a relação entre o Mestre e os seus Discípulos, revelando um conjunto de ensinamentos que eram reservados a estes.


Entre muitas revelações surge um Jesus Cristo vegetariano, pleno de amor e compaixão por todas as formas de vida e defensor de um modo de vida natural como é descrito no livro “um”. Ensinando que só pela via da compaixão e purificação do Templo, que é o corpo humano, é possível alcançar a ressureição.
 

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12 de set. de 2010

As Bases Gnósticas do Pensamento de Jung

por Heloisa Cardoso*


I - INTRODUÇÃO:

http://www.jungmich.org/Copy_of_Jung_photo_8-11-04.jpgA gnose atua sempre como uma subcorrente em relação ao pensamento hegemônico. Ela é o que se mantém oculto, no pólo dialético do ocultar-revelando e do revelar-ocultando, exigindo, desse modo, uma análise hermenêutica para o entendimento de seus pressupostos. Representa, assim, do ponto de vista da compreensão do homem e do mundo, a contracultura e as heresias em cada época, e possivelmente a semente do novo, do que está por vir.

A emergência de uma atitude gnóstica ocorre em relação às questões não respondidas, pelo paradigma hegemônico, e à perda do sentido da vida, com o desmoronamento dos valores, das culturas e instituições. Quando o paradigma já não é mais um referencial operante, quando se carecem de novos pressupostos e novas idéias; então, retoma-se o processo de conscientização para a subida em uma oitava superior, da qual o mito de Prometeu é uma metáfora.

A gnose pode manifestar-se na religião, na filosofia e na política (o mito do salvador da pátria = Hitler). A missão gnóstica é a de revelar o saber oculto, substituindo as trevas pela luz que amplie os níveis de consciência da humanidade. Foram gnoses religiosas: as de Alexandria, o cristianismo, o luteranismo, na atualidade os Brahma Kumaris etc. Nas gnoses filosóficas podem-se incluir o positivismo, o paradigma emergente, os estóicos, Hegel (e o Espírito alienado), Marx (e a dialética de exclusão entre opressores e oprimidos), Nietzshe (com a proclamação da morte de Deuse suas críticas ao racionalismo e ao cristianismo), Heidegger (e o Dasein), Jung (com seus arquétipos do inconsciente coletivo). Entre as gnoses políticas, o marxismo (em suas aplicações à praxis), Bakunin, Lênin, Sorel e o princípio do poder, o fascismo, enfim todas as “mystiques politiques” ou as “religiões políticas” etc.
O pressuposto metafísico da gnose institui o que está em cima como o que está embaixo; o que está dentro, como o que está fora: o microcosmo refletindo o macrocosmo, consoante a fórmula do CORPUS HERMETICUM. Trata-se, então, de estabelecer as correlações e analogias entre as duas realidades que, na verdade, expressam a mesma essência.
 
Do ponto de vista religioso, duas concepções se defrontam com dinâmicas bem diferentes: a religião como religare e como relegere - a primeira caracterizando o aspecto salvador da religião pela fé; a segunda, tentando promover a busca e o encontro com Deus, pelo conhecimento. Trata-se, nesta, do esforço libertador do autoconhecimento; naquela, do messianismo pela salvação coletiva através da fé. Confrontam-se, assim, as religiões oficiais e até de Estado e as religiões de mistérios, de sentido iniciático (os mistérios eleusinos, dionisíacos, órficos, na Grécia; o mitraico, adotado depois pelos militares de Roma; o culto praticado por escravos, o cristianismo em sua origem, o gênero apocalíptico, o maniqueísmo e outras).
Para o gnóstico não há questão proibida, tema tabu ou dogma, menos ainda a verdade revelada através de profetas ou oráculos. Assim, uma característica da gnose religiosa é a eliminação do intermediário autorizado (padre, ministro, pastor...) e a tentativa da experiência direta e, portanto, mística, de Deus. O pressuposto é o da imanência de Deus, habitando na alma humana, sendo dela o mais importante parceiro.

Na verdade o gnóstico já não é mais o buscador, aquele que está à procura das respostas: Ele já tem as respostas. Cristo disse: “Conhecei a verdade e Ela vos libertará!” Os gregos proclamavam: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás a Deus”.

A dicotomia entre essas duas concepções se concretizava, principalmente, pela existência de religiões oficiais ou de Estado versus as religiões de mistérios e o ritos de iniciação. Na verdade, a gnose é uma vivência mais que um simples conhecimento intelectual.
 
A grande questão, pois, colocada à indagação e ao coração do homem é a da origem da dor e do sofrimento do mundo. O próprio abandono do termo grego kosmos - que significa beleza - substituído pelo termo latino mundo, que era o buraco onde se jogavam os detritos na antiga Roma, é um poderoso indicador da radical mudança que se operara no inconsciente coletivo, na passagem do mundo pagão para o mundo cristão. O cristianismo fundou toda uma ética na base da dualidade entre corpo e alma, matéria e espírito, imanência e transcendência, anulando qualquer valor aos termos iniciais dos pares de opostos, tornando unilateral o desenvolvimento do espírito humano e, como adverte Jung, em certo sentido reprimiu seu lado sombrio, projetando-o em forças metafísicas, representantes do Mal.
 
E a queixa dos filhos de Raquel encontra eco em suas lamentações: “Quem nos jogou nas trevas” “Quem éramos nós?” “Onde estávamos?” “De onde fomos expulsos?” “Aonde nos precipitamos?” “De que temos de nos livrar para o retorno à nossa morada?” Estas são as eternas questões que todos os gnósticos se colocam, em qualquer época histórica, em qualquer latitude do Planeta.

E a resposta/explicação também é sempre a mesma: a verdadeira vida não é deste mundo, pertence aos mundos siderais - ao Paraíso, ao Cosmos, ao Nirvana, ao WU-CHI (não-sopro, vazio) etc. O mundo em que vivemos não passa de uma prisão para o espírito que vive o sentimento de ter sido expulso, de que está alienado, mas que experiencia a dialética dolorosa de querer fugir ao mundo e, ao mesmo tempo, dele tem medo de liberar-se.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhB4YFWrO1KoZjDAYbNNUIPeehLmomX1ctfGvNzL3nj-VN4Cyv9KfPpApNwPS7NCZqGWyu1dJf0oRxAwZGf2p0YwfkUK2TsEPW7mXnpTAb7vTR9vDDMuhHzXWG43FQNUmb_kpMqTYc9Kho/s1600/Jesus+Cristo.jpgEssa angústia ou leva o Homem ao desespero niilista, daquele que perdeu o contato com suas fontes superiores, ou força o caminho na busca do mito pessoal, daquele significado que torna toda vida digna de ser vivida e todo homem merecedor do respeito devido a seu ser consciente.

Inerente à essa última postura, coloca-se o mito da SALVAÇÃO, quer pelo Divino Mediador - Jesus, o Cristo - quer pela fé no encontro direto entre o Deus Transcendente e o Deus Imanente, a centelha de que todo homem é portador, e que estabelece o trânsito entre a dimensão temporal de nossa consciência corpórea e a eternidade, a dimensão própria do espírito.

As etapas da SALVAÇÃO passam por dois tipos de atitudes opostas: aquelas que se refugiam em práticas mágicas, revelando a crença egóica da possibilidade da interferência do Homem no Drama Cósmico; e aquelas que se referem ao êxtase místico, onde o abandono total do ego (o ascetismo), permite que o Self se manifeste, ativando a imago Dei, presente no recôndito da alma humana. Trata-se, portanto, de construir uma nova imagem do Homem... 

Da mesma forma, do liberalismo ao indiferentismo ou ao ascetismo, a questão é sempre a de matar o homem velho, o mundo velho, de abandonar as velhas crenças e estruturas para se fazer nascer o homem novo, o mundo novo, perfazendo o caminho da agnóia (ou ignorância) à gnose (ou conhecimento). Este é o caminho da verdadeira SALVAÇÃO. Há, no entanto, pontos de vista divergentes, que não admitem a possibilidade da salvação, como os de Mani, concebendo uma luta cósmica infindável entre as forças da luz e das trevas, do bem e do mal, consagrando de vez um dualismo que até hoje se faz presente.

Como já dissemos, para o gnóstico não há pergunta proibida, não há tema tabu ou dogma, quando a civilização está em crise e o paradigma já não é mais um referencial. Nesses momentos surgirão vozes que falarão no deserto, mas que de qualquer forma indicarão o novo caminho e a boa nova. Assim foi com o ramo cristão do judaísmo, assim será na Nova Era que se avizinha, sedenta de novas sínteses, que derrubem os muros da incompreensão e coloquem as pontes da fraternidade, do amor e da paz. Até porque o século XXI será espiritual ou não será...

Urge um novo nível de consciência, a partir desse processo de conscientização individual e coletivo, que represente uma nova vinda de Prometeu com o fogo revivido do céu. Assim, a melhor postura de análise é a gnóstica, pois ela não se fecha em nenhum conhecimento, ou tradição; pelo contrário, busca sempre a revelação nas oitavas superiores, pois não se deixa levar pelas aparências do momento, nem pelas limitações pessoais. Lá onde o UM impera, o ensinamento flui sem reservas para todo aquele que ousar ouvir o coração do Eterno.


II - A GNOSE COMO ATITUDE ANTE A VIDA

Gnose, em grego, significa conhecimento e seu estudo como epistemologia ou teoria do conhecimento integra o campo da filosofia na atualidade. No presente texto, aludimos a uma concepção específica da gnose, cujas características passamos a enunciar.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbEXHyvWg9XnXkwaom14_Yv_662qeCX2yS5MrjF-uCOiIQA-3ip5vcBL58Vury4GOlSHgiqldd5EHcL8erbUbg-x7orW7aE-DNS1d3u028RtZRHMwMgz3ftaEL0zXJOPWIEYzOKdGOq1Y/s400/creation.jpgO conhecimento ou a gnose surge como atitude ante a vida todas as vezes em que se carecem de novas estruturas intelectuais para compreender certas realidades. Quando novas questões são colocadas e novas respostas se tornam urgentes, homens e mulheres tentam a ultrapassagem do já constituído para instituir o novo mais abrangente, mais condizente.

Tanto movimentos espirituais, como reações de massa, podem significar que se está clamando por uma nova subida do nível de consciência coletiva, o que poderá ser constelado em um homem ou em grupo que afine seus ideais de vida, seus sonhos comuns.

E por que a atitude gnóstica tem este sabor de heresia (etimologicamente = aquele que pode escolher) e a de Alexandria foi assim efetivamente considerada? A resposta é simples, porque homens e mulheres, que ousam pensar e fazer de sua consciência o tribunal em que - como lembra Jung - se é ao mesmo tempo réu e juiz, tornam-se ameaça à ordem e ao poder constituído.

Do ponto de vista individual, quando se perde o sentido da vida, quando ruem os valores da moral convencional, quando as instituições já não mais atendem a seus objetivos, estabelece-se a busca. O mito da busca é a decorrência necessária do desconforto que sente o gnóstico diante da perda do paraíso pela queda ou exílio. E essa busca não tem apenas o sentido transcendente do misticismo religioso, ela também se manifesta no plano da matéria, como procura de um significado e de um entendimento para o Mal e para a Injustiça.

Mas não se trata apenas de novos referenciais teóricos: a gnose é sobretudo uma vivência, uma prática. O que caracteriza a vivência gnóstica é a percepção do mundo como algo estranho, sendo o homem um errante, à procura do retorno à sua verdadeira morada. Este é o sentido profundo da palavra ética em sua origem grega: hthos, isto é, a morada do homem. A gnose como atitude ante a vida deve ser utilizada não só em situações pessoais, mas em quaisquer eventos à nossa volta.

Sem dúvida uma questão instigante é saber se, em vez de ter prevalecido os cânones da Igreja Romana, o gnosticismo tivesse sobrevivido. De que forma isto teria afetado a cristandade e o Ocidente em geral?...

III - DA GNOSE AO GNOSTICISMO:

http://t1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSuktWkimY26WYR60W3Ok1aCBOiFX_pLGI2xC58SaH3yCSSkZ4&t=1&usg=__1q3x2AEhDn4a7X-YAhi_2EEr3Ss=A gnose pode manifestar-se de modos diferentes, segundo a época em que emerge e as circunstâncias que lhe dão origem e significância. Assim, pode-se falar em gnoses pré-cristãs e pós-cristãs; em gnoses ascendentes e descendentes, intelectualistas ou pseudo-gnoses. Pensadores como Goethe, Marx, Nietzsche, Heidegger estruturaram sistemas gnósticos, tanto quanto Blavatski e Rudolf Steiner. Como sistema filosófico ou político, o gnosticimo aparece todas as vezes em que as circunstâncias retratam o esgotamento de uma dada situação.

Na história, os essênios entre os judeus, movimentos neo-pagãos, em Alexandria, novos mitos e até religiões políticas, a partir principalmente do Renascimento, surgiram, quer como parte do fenômeno das heresias, quer como novas interpretações da história do espírito humano.

Hoeller mostra que os essênios representavam, de fato, um judaísmo pré-cristão de caráter gnóstico, organizados em comunidades espalhadas, a partir da sede em Qumram, abarcando o Egito - Alexandria, portanto - toda a Judéia, atingindo Roma e a Ásia Menor. Tal organização era a matriz perfeita para abrigar o novo credo que se formava, sob a liderança de Jesus, provavelmente, o Mestre da Retidão, de que os essênios falavam (1990:47). Para maiores detalhes consultar OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO, de Laperrousaz, s/d.

A gnose, como gnosticismo cristão, ocorreu entre o séculos II a V d.C. Como maniqueismo, ela se revela em todas as visões de mundo que promovem o embate entre as forças da luz e a das trevas, entre o Bem e o Mal, em seu sentido metafísico e absoluto. Como alquimia, na Idade Média européia, debruçou-se sobre uma tarefa que era verdadeira reviravolta de 180o graus, em relação à visão cristã oficial: não era mais Deus a salvar o homem de seus pecados, mas o homem a resgatar Deus do abraço mortal com a matéria, através da Magna Opus. Como kaballah, a gnose era um conhecimento reservado a poucos iniciados nos mistérios da língua hebraica e de seus símbolos revelados metaforicamente no Antigo Testamento. Constitui seu aspecto místico.

É bem verdade que houve diversas manifestações de gnose, tornando difícil falar desse movimento como uma unidade. Podemos perceber uma gnose mágica associada ao nome de Simão, o Mago, que se fazia acompanhar de uma prostituta que acreditava ser a encarnação da divina Helena, de Tróia (citado nos ATOS DOS APÓSTOLOS, no NOVO TESTAMENTO); ao lado da gnose mística e de práticas pneumáticas ou mediúnicas (hoje campo de estudos da parapsicologia).

http://maniadehistoria.files.wordpress.com/2009/04/cataros.jpg?w=436&h=442
Cátaros: Extermínio dos puros
Várias seitas iniciáticas se constituem em outras tantas gnoses, a saber: o templarismo, o catarismo, a maçonaria, o rosacrucianismo, a teosofia, a antroposofia etc. Todas entendem a gnose como auto-iluminação.

No presente texto, nosso interesse central é o sistema filosófico que se expandiu em Alexandria - a cidade, segundo Jung, em que o Oriente e o Ocidente se encontram - conhecido como a gnose de Alexandria, movimento carismático dos primeiros tempos do cristianismo. Nela coexistiam alguns tipos de gnose: a gnose mágica ou mística, a filosófica; a ofita ou naassena; a ascética ou liberal. A gnose ofita ou naassena, com seus adoradores da serpente (vide a serpente como símbolo do Cristo, citado em JUNG, C.G. SÍMBOLOS DA TRANSFORMAÇÃO, 1989), considera-a o divino canal pelo qual a consciência manifestou-se ao Homem; ao lado de vertentes ascéticas e de moral rígida, celibatárias, com alimentação especial etc. (como a de Marcião) e liberais, em que os excessos eram permitidos, no pressuposto de que o que quer que acontecesse ao corpo não poderia, de forma alguma, afetar a alma.


IV - A GNOSE DE ALEXANDRIA:

Os principais representantes da gnose de Alexandria (séc. II a V d.C.) são Valentino, Basilides, Carpócrates e Marcião.. “Quem nos jogou nas trevas?” A grande questão, pois, colocada à indagação e ao coração do homem é a da origem da dor e do sofrimento do mundo.

A resposta era dada mediante inspirações literárias e míticas, das quais destacamos quatro mitos:

1) o mito do paraíso perdido (o inconsciente urobórico);

2) o mito da queda ou da exclusão (a queda angélica e a queda adâmica = paralelo ao conceito grego da hybris X metron = não o mal no sentido ético do termo. O abandono pela família, como início do processo de individuação);

3) o mito da busca (sensação de alienação e de ter sido expulso, o herói ou a alma enfrentando as dificuldades e a aventura da vida);

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg8dESYcNX-J0LmMds3OkwXYcCl6W49CB6n70JIgBSmVrkmGj2HmGDpZVXADlei7rYDUVb-TNIULUIp2X012bQAYVRhxuHQOS5l9DGY4pTnpjkdI06pFSPfXFkASmlE7xh6_ucCW2oH-Ho/s1600/Wheel%2520of%2520Samsara.jpg4) o mito do eterno retorno (o estranhamento e fuga deste mundo - introspecção necessária à individuação), a sensação de ser errante ou estar de passagem; a sensação do déja-vu (teoria da reminiscência de Platão: toda lembrança é uma recordação); a necessidade de retorno à origem e à verdadeira vida dos espaços siderais - Cosmos, Paraíso, Nirvana (o medo da volta).

Desse ponto de vista mítico, as almas mais puras guardam a lembrança de sua origem divina e a ela querem retornar. Marcião funda uma seita religiosa, com base em práticas ascéticas e moral rígida, pelo pressuposto de que o corpo devia tornar-se sagrado, por ser o templo do Espírito nele aprisionado.

A atitude gnóstica não reconhece um mundo que é uma prisão. O gnosticismo busca o reconhecimento do que éramos, do que fomos, de onde estávamos, de onde fomos expulsos, aonde nos precipitamos e do que temos de nos livrar e renascer pelo impulso salvador do espírito (pneuma): “Não se põe vinho novo em odre velho”...Mito de morte e renascimento... 

Que ensinavam estes mestres? Que havia um Deus supremo, increado, que era o máximo de Unidade. Que Deus não havia criado o mundo, mas este havia sido emanado de sua Sophia, segundo um mito gnóstico, através de desdobramentos (emanações) numa série complexa de entidades intermediárias - espíritos inferiores - que terminariam, estes sim, por criar o mundo.

Assim, o desprezo dos gnósticos era pelo kosmos do Demiurgo e não pela Natureza, onde Deus habita. Cultivavam, pois, a idéia de um deus imanente (o Anthropos), idéia que foi incorporada pelos alquimistas como a lumen naturae (a luz da Natureza). Na psicologia analítica, representa os instintos e o inconsciente. Cumpria salvar o homem do mundo, que nem era um cosmos, nem criação de Deus, diferençando-se os gnósticos, tanto dos gregos como do judaísmo-cristão sobre a questão da origem do mundo.
 
Teoria da emanação antes que da criação, nela já há um primeiro confronto com o que viria a ser a ortodoxia apostólica e seus pressupostos de crença: DEUS, a CRIAÇÃO e a REVELAÇÃO, através de alguns intermediários autorizados, os primeiros dos quais naturalmente os apóstolos, entre eles os que viriam a compor os evangelhos canônicos.

http://sp6.fotolog.com/photo/22/24/33/sleeper_27/1214483932041_f.jpgPara Carpócrates as almas humanas seriam anteriores à produção do mundo, tendo vivido, portanto no seio da divindade e experimentado a máxima Unidade (influência da teoria platônica das formas puras). Basilides supõe que as entidades divinas, vivendo no Estereoma celeste, teriam engendrado o primeiro ARCONTE e suas principais entidades (os éons). As principais emanações do Absoluto seriam: Sofia ou o lado feminino e criador de Deus: a sabedoria divina (sophos = Sábio), seu amor e misericórdia como a redentora do homem; o Nous, a inteligência e a sabedoria divina que rege todos os processos do universo; o Logos, isto é, o dizer, o Verbo que, ao nomear, impregna o ente de significação; a Energueia, a energia criadora; a Dynamis, como a força, o movimento universal, a Aletheia, a verdade, a descoberta (fonte do Logos, como princípio constitutivo da coesão e da Vida) e a Phronesis, discernimento e inteligência prática responsável pelo mundo da manifestação. Elas seriam os arcontes ou regentes do mundo, seus primeiros éons.
 
Com a criação do mundo pelo Demiurgo (YALDABAOTH ou JAVÉ), diz a gnose mítica que Sofia, desejosa de conhecer todos os meandros do Pai, cai nos mundos inferiores da matéria, apaixona-se e é por ela abraçada, não podendo mais afastar-se do convívio dos homens, também eles decaídos.

Por esse mito - das centelhas de luz (espírito) presas na matéria - se configuraria a possibilidade do Absoluto de, ao contemplar o Abismo, ter se entristecido com o “Não-Ser”, tendo suas lágrimas derramadas se transformado em centelhas de luz que se aprisionaram à realidade física. A alma e o espírito do homem... E o Eterno Deus Altíssimo sonhou ainda por muito tempo. No sonho ele viu o mundo que criou potencialmente, se expressar ciclo cósmico após ciclo cósmico (éons). Quando acordou do sonho, o Altíssimo deu um grande sorriso e, voando como um pássaro, lançou-se no abismo da noite, repartindo-se em milhares de pedaços que cintilavam com tal esplendor espiritual, com tal intensidade, que ...Fez-se a luz!

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhDU_uwcY-WZQjOEqfopoZro0xw8O-4NfSPDpe824DRJX95MHp6emsmw1C_V2sPJYQM6KsGHZ5GJLfE8zIp0lgUtgor8uA9wn8h-jcR_-ldFLVtANWzuzpPpvUlXehSTdAGD96Ei6Ot_Js_/s1600/Eros+e+psique.jpgAssim é que cada um de nós é uma partícula desta luz. A gnose mística sustenta ainda que é destino da humanidade descobrir sua unidade divina e reunir-se novamente, retornando ao lugar da queda, ao local onde feminino e masculino eram um só no Absoluto. A lenda ainda conta que para empreender feito de tal envergadura, o ser humano deverá encontrar embaixo, no elemento adâmico, a unidade perdida, para só então retornar ao Paraíso, coagulando-se com as milhares de miríades de si mesmo.

Sofia representará assim o arquétipo do amor divino pelos homens, a misericórdia de Deus pela criação, e seu retorno ao mundo divino expressa a exigência da redenção da humanidade. Enquanto aprisionada na matéria perdida entre os homens é a Sophia Achamot, aguardando sua redenção para voltar a ser a companheira de Deus, primícia de suas obras: a divina Sophia Shekiná.

Uma variante do mito diz que Deus, para criar o mundo, debruçou-se em uma janela e ficou longo tempo a sonhar. Era noite, o mais denso caos, e a sucessão de imagens passava pelos Pensamentos de Deus. Lá fora o negrume do abismo sem fim contrastava sobremaneira com os Pensamentos do Eterno. No seu sonho, Deus criava Adão, o homem universal à sua imagem refletida. Sonhou também que fez cair Adão em um profundo sono magnético, de modo que Adão adormeceu e o Ser Altíssimo tomou uma das imagens mentais com que este sonhava e revestiu de beleza e forma corporal a sua base. Depois consolidou a essência desse produto da imaginação que tinha extraído de Adão, fazendo dela sua esposa intelectual e lha trouxe. E o Eterno Deus Altíssimo sonhou ainda por muito tempo. No sonho ele viu o mundo que criou potencialmente, se expressar e manifestar. O final da lenda é misteriosa, pois termina com o Homem-Deus frente ao Superior Incógnito, um duplo seu: sua imagem e semelhança.

Compare-se com a teoria bíblica das quedas (angelical, de Samael, e humana, de Adão) opondo o problema do livre-arbítrio ao do destino, sem conseguir alcançar a noção de complementaridade entre os princípios, o que seria feito, do outro lado do mundo: na China taoista, com seus pares “yang/yin” e com uma ética que visava aproximar o jen tao (o tao do homem) ao ch’ien tao ( tao do Céu), tendo como modelo as leis naturais e cósmicas...

Assim, ao lado do Deus transcendente (ainda que escondido: Júpiter, Javé, Espírito Absoluto, Dialética Materialista), admitiam os gnósticos a imanência de Deus no coração do Homem, ou seja uma nova imagem do Homem, aceitando também que o Homem poderia vir a redimir o espírito, tanto quanto o Homem-Deus viera para redimir o Homem carnal. Nesse sentido - alquímico, por excelência - os gnósticos e depois os alquimistas farão a ponte entre o paganismo e o cristianismo, tanto quanto os essênios serão o elo entre o judaísmo e o cristianismo. Até chegar a Jung e sua contundente crítica ao cristianismo, em especial a relativa à transcendência de Deus, colocada como dogma de fé, e afastando a imagem divina da interioridade humana que, sem ela ressecou no materialismo vigente em nossa época (ver Dourley, J.P. - A DOENÇA QUE SOMOS NÓS, 1987).

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh1gE1uzMFAdrforq4UlnkurXT1fSJ44QX9foFHqg1gmuXiTsdHSMvyjbt8RuoJU8QKzOXR60zJowe3DgnhFeskvEubrv4P3sj6jO4OVRvq4PsU2h6vX29ewSNrQPvi5XLZE1Ino7HaB0Mw/s1600/lucifer.jpg
A ação mítica de Lúcifer ou de Prometeu representa a possibilidade de subida do nível de consciência, graças ao impulso para a salvação que vem do espírito (pneuma) e, sobretudo, ao aspecto divino do feminino em seu afã de conhecer-se: Sofia, Lilith, Eva ou Pandora, por exemplo.

Podemos caracterizar, pois, a gnose de Alexandria como uma proposta de:

 1) hierarquia entre os indivíduos (o homem hylético, o psíquico, o pneumático) versus ahierarquia eclesiástica, que separava o clero dos fiéis. Como se percebe, tal hierarquia se estabelece, consoante o desenvolvimento espiritual de cada um: os hyléticos, que vivem ao nível da matéria: os psíquicos, que se deixam levar por suas paixões, só se alçam ao anímico eos pneumáticos que alcançam o mundo espiritual propriamente dito. Em cada grau, no entanto,havia perfeita igualdade, sem distinção entre os sexos ou entre fiéis e sacerdotes. Não havia, pois, uma hierarquia eclesiástica no sentido restrito do termo.

2) ausência do intérprete autorizado.

3) uma metafísica das relações entre o Criador e a criatura através de quatro movimentos: a
emanação, a criação, a formação e a manifestação.

4) configurar o criador do mundo na figura do demiurgo (responsável pelo mal e pelo
sofrimento). Ficam, assim, recusadas as idéias do judaísmo e do maniqueismo sobre o livre-
arbítrio ou o destino como origem do mal .

5) partir da idéia de um Deus imanente em complementação à de um Deus transcendente. 

6) uma missão do homem redimindo o espírito (Deus), contrária à tradição de um Homem-Deus
redimindo o homem carnal. Nesse sentido a Alquimia se revela como continuação do
gnosticismo. 

7) opor a idéia messiânica de uma salvação coletiva ao esforço libertador do autoconhecimento individual e solitário (A verdade vos libertará...Conhece-te a ti mesmo e conhecerás a Deus...).

Obs. O mal para os gnósticos não é apenas uma categoria moral, a hybris grega oposta ao métron, nem deve ser atribuído às quedas luciferina ou adâmica, em função do livre-arbítrio. “À pergunta: por que o homem deseja o mal?” respondem com a idéia de destino, como isca, colocado pelas moiras, entidades que urdiam o destino das coisas, na mitologia grega.


V - INFLUÊNCIAS GNÓSTICAS NO PENSAMENTO DE JUNG:

Jung encontrou nos gnósticos verdadeiros amigos, que lhe permitiram refazer elos históricos. Vislumbrou ele uma linha de continuidade entre suas descobertas relativas ao inconsciente, principalmente ao inconsciente coletivo - que nos identifica enquanto espécie - e as intuições dos mestres de Alexandria que, a seu modo, mítico ou especulativo, também eles iam ao encontro do inconsciente, ou de sua projeções.

Por uns foi acusado de ser gnóstico (a pior das heresias para os cristãos ortodoxos); por outros, de agnóstico (pela recusa de assumir pressupostos metafísicos). Para Stephan Hoeller, Jung foi um gnóstico. Não só por sua atitude ante a vida, trazendo novos conceitos e dimensões para explicar o humano, como pelo fato de que buscou o gnosticismo de Alexandria, nos séc. II a IV, de nossa era, como fundamento para muitas de suas idéias. Para Jung. o processo de individuação permite o autoconhecimento e a autotranscendência. Contudo, Jung é considerado, entre outras razões, como agnóstico, por recusar a fé como fundante da experiência de Deus. E isto fica muito claro, em sua entrevista à BBC de Londres, quando indagado se acreditava em Deus, ele responde: “Eu não creio em: eu sei!”.

A obra indiscutivelmente gnóstica de Jung é um pequeno texto, escrito sob a forma de poema-metafórico, intitulado OS SETE SERMÕES AOS MORTOS que ele assina sob o pseudônimo de Basilides, homenagem ao grande filósofo de Alexandria. Esse texto surgiu em circunstâncias estranhas, em uma atmosfera pesada, sentida até por seus filhos, ainda pequenos: campainhas tocando, sem que ninguém estivesse batendo; sonhos perturbadores etc., até que Jung resolveu pegar da pena e começou a escrever...E escreveu sobre a vida e a morte, tal como sentida por um gnóstico...

No 1o Sermão, Jung faz uma espécie de cosmogonia, indicando a natureza do elemento primordial, o PLEROMA, segundo a terminologia gnóstica, isto é: o Nada ou Vazio primordial, que paradoxalmente, contém potencialmente Tudo ou a Plenitude. Trata-se de uma dialética de ambigüidade. O conceito de inconsciente coletivo pode ser entendido como o PLEROMA dos gnósticos, em nível psicológico individual. É infinito e incognoscível, é eterno, transcendental, incriado e intemporal. Nele os conteúdos são indiferenciados, e, portanto, incognoscíveis, no entanto, ele é, ao mesmo tempo, a fonte e matriz da consciência e de todos os seus conteúdos.

Para Jung, o mundo criado se constitui de emanações e é penetrado pelo Pleroma, assim como um corpo é penetrado de luz. Daí, poder-se falar do Pleroma em nós, como um ponto pequeno e hipotético, no firmamento ilimitado do cosmos. Tudo que é definido e sólido é sujeito à mudança. A criação dos seres é fruto da diferenciação que exige o Principium Individuationis.

Nesse Sermão, Jung fala, pois, do princípio de individuação, um dos pilares de sua teoria, e que se constitui na diferenciação a ser feita entre os pares de opostos que emanam do Nada primordial. Tal diferenciação não é, para Jung, apenas uma questão intelectual, mas a necessidade de que cada ser atinja a verdade de sua própria natureza. Para ele, há, assim, uma dialética de implicação mútua entre o Criador e os seres criados, cabendo ao homem realizar a soma de suas potencialidades latentes, integradas no Si-mesmo, sua totalidade transconsciente.

A indiferenciação é como a morte, já que os opostos se anulam no Pleroma e, assim, Jung, diferentemente, de certas posições orientais dá grande valor ao trabalho consciente do ego, capaz de diferenciar os opostos. Na verdade, o estado anterior de igualdade é, para Jung, a anulação do indivíduo enquanto tal.

Esses representam emanações do Pleroma e se apresentam como syzygias (pares complementares de opostos), significando as qualidades do Pleroma em nós, pois o Pleroma em si é vazio e não tem qualidades. Dessa forma, Jung se apresenta não como um dualista, pois cada um deve transcender o fascínio de cada pólo e guardar a distância de cada um (função transcendente). Jung apoia-se aqui na idéia do conflito de opostos de Heráclito.

Diz ele: “Não a vossa mente, mas o vosso ser constitui a diferenciação”. Daí Jung recomendar que cada um de nós deve lutar por realizar sua verdadeira natureza, mantendo o raciocínio sob controle, através da gnose, sem anular as forças da vida. Trata-se de seguir o caminho fáustico, existencial, de viver a vida em sua plenitude.

A salvação do homem constitui, pois, em sua libertação dos pares de opostos, das syzygias que, em termos junguianos, se constituem dos aspectos positivos e negativos dos arquétipos. Como, para Jung, o inconsciente é a matriz da consciência, nós não temos os pensamentos, mas eles fluem para nós a partir do Pleroma (função psicológica da intuição) e abrem nossa consciência para a plenitude do Ser.
Assim, a verdadeira natureza do homem implica a relação dialética entre a consciência e a inconsciência, entre a moral e o instinto, sendo que nós no Ocidente privilegiamos a consciência, enquanto o Oriente desenvolveu mais seu relacionamento com o inconsciente. 

Daí que o desejo de autoconhecimento, da mesma natureza que o desejo por alimento ou por sexo, é o movimento pela transformação, superando as unilateralidades da consciência pela compensação exercida pelo inconsciente. Se vida e liberdade se reconquistam a cada dia, podemos dizer que Jung é um precursor da psicologia existencial.

Na verdade, para ele, as teorias são apenas abstrações que nos afastam do mundo concreto e das conexões com nossa criatividade transformadora. Diz ele: É preciso mudar não os conceitos, mas a si mesmo, pondo o pensamento sob o controle do Self. 

No 2o Sermão, Jung faz uma espécie de teogonia. Ele fala de Deus, que denomina de Helios (sol) e do demônio. Deus já pertence ao mundo criado, pois se diferencia do Pleroma (é uma qualidade deste), mas é menos definido e diferenciado que a própria criação. Deus é a plenitude efetiva, manifestada do Pleroma; é a criação como atividade. Ele é a potencialidade do bem e do mal. É como a luz das estrelas que nos guiam, enquanto o demônio é o espaço vazio manifestado, que circunda cada uma. Ele é também o vazio efetivo do ser e o mal, como um princípio que atua em nós. O que Deus constrói, o demônio destrói, numa trama eterna de criação e destruição.

Na psicologia junguiana, esses dois princípios estariam representados pelos arquétipos, as formas estruturantes de nossa psique e eles só existem se os discernirmos do Pleroma que eles também são.
Esse dualismo DEUS-DEMÔNIO (influências zoroastrinas e maniqueistas) só existe no mundo das emanações, como as primeiras manifestações do NADA ou do Pleroma resistindo um ao outro, como opostos ativos, pela atividade de ABRAXAS, o deus incognoscível da atividade real do todo, ou da não-realidade ativa do ser criado. No Pleroma, eles se anulam porque se unificam.

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Fausto (Goethe)
Para Jung, a atividade está acima de Deus e do Demônio, pois ABRAXAS, a atividade manifesta do Pleroma, preexiste a ambos e cria os seres diferenciados do Pleroma. Aqui é patente a influência de Goethe em Jung, quando no capítulo V, do Fausto, o poeta alemão diz: No princípio era a ação...

Assim, bem e mal não seriam encarados como realidades éticas ou morais (ele critica, pois, o cristianismo por ter reduzido o problema à sua única dimensão moral), mas como forças metafísicas (por sua magnitude titânica), o que explica o célebre antinomianismo (desprezo pelas leis dos homens) por parte dos gnósticos. Enfim, o que está em jogo é o princípio do poder, a persistência e a mutação em todos os seres, pois, para ele, a vida é uma tensão de opostos e o mal é o oposto necessário para que se reconheça o bem (yin/yang como complementares metafísicos). Como um é relativo ao outro, sua origem está no próprio homem. Em suma, o conflito é uma realidade psicológica necessária (Heráclito) ao processo de individuação. O arquétipo correspondente é o dos irmãos inimigos: Caim e Abel, Esaú e Jacó, Osiris e Seth etc.

Jung advoga a importância do reconhecimento de Deus na alma, como imago Dei, ou o Self. Desse modo, para ele, os arquétipos são o aspecto divinal da multiplicidade de deuses, são como que emanações divinas, como dito no item IV, sobre a gnose de Alexandria.
No 3o Sermão, Jung fala de ABRAXAS, uma espécie de atividade cósmica, igualmente doadora da vida e da morte. Nesse Sermão Jung atinge beleza literária, com suas metáforas, semelhantes às de Goethe, o supremo poeta da língua alemã.

http://etc.usf.edu/clipart/14200/14282/abraxas_14282_lg.gifABRAXAS é a vida indefinível (seu nome tem 7 letras ou os sete regentes do mundo ou os raios criativos das esferas planetárias e significa “abir” = touro + “áxis” = pólo, eixo); é a energia psíquica, a atividade do todo, a mãe do bem e do mal, na dialética de ambigüidade em que o indivíduo se vê envolvido em sua ascese às esferas celestiais. É o élan vital, o arauto celestial, o poder supremo que une luz e treva, a energia vibrante e a suprema atividade responsável pelas primeiras manifestações do Pleroma.
http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQDfrBN89AorU6Tx_usKpp_-f5kbu5pZp0F5GWjcr5Ih1At-v0&t=1&usg=__IK4kwQQONFxgu9g0MiHCs9uylHI=Nesse sermão, Jung refere-se ao ano cósmico do touro e sua etimologia que, em grego e em hebraico, compõe o número 365 (para os gnósticos eram os diversos céus governados por ABRAXAS), o número de obstáculos psicológicos a serem vencidos, na totalidade do tempo, para a libertação. Trata-se, na verdade, de um eterno-agora (criador/destruidor ou Vishnu X Shiva), ligado à figura de Osiris, do Cristo ressuscitado para os gnósticos, enfim de todos os heróis que triunfaram sobre os regentes guardiães do ego humano (arquétipos ou os planetas, na astrologia, que definem o caráter daqueles que subjugam - Marte, a ira; Vênus, o erotismo, Mercúrio, a ambição, etc.) e sobre o tempo linear ou cíclico a que estavam sujeitos. 

Esses regentes representam os poderes obstrutivos que caíram e se tornaram ignorantes e maléficos em camadas cada vez mais inferiores. Eles se opõem à busca e ao retorno às esferas e éons celestiais, a verdadeira fonte para o cumprimento das tarefas, obrigações, purificações e transformações. 

Invocado por talismãs e amuletos, ABRAXAS afastava a influência limitadora dos Regentes do Mundo, auxiliando na ascensão a estados transcendentes. Ele é o primeiro dos mistérios. Dos homens, apenas os pneumáticos (espiritualizados) podiam destruir o tempo, libertando-se do ciclo das necessidades (o sansara budista: a roda dos nascimentos).

A salvação pela redenção de Jesus é um evento irreproduzível: mas a salvação pela ascese entre os éons é um evento reproduzível, pelo processo de crescimento espiritual. Do ponto de vista psicológico, ABRAXAS representa a união dos opostos, a dualidade complementar entre consciência e inconsciente. É a árvore e suas raízes escuras. É isto e aquilo; e não isto ou aquilo.

Assim, a luta pela individuação é a conquista das diferentes regiões do inconsciente por parte da consciência, pela renovação através do Self. O requisito é a libido ou a energia psíquica, a força espiritual titânica, impessoal e amoral, indiferenciada que perpetua a vida da psiqué, incluindo os opostos e não se ligando unilateralmente a um deles. O que importa é a plenitude do ser. Para isso, não basta o conhecimento intelectual, é preciso a sabedoria intuitiva. Trata-se de unir o demiurgo à Sophia.
A atitude da consciência em face de ABRAXAS não é a da simples contemplação ou veneração; mas a do temor, da reverência e da prudência. Não se deve resistir a ABRAXAS, porque ele representa o poder da Natureza, a aceitação do inconsciente, a permeabilidade entre a repressão e a servidão, pois na verdade nada acrescentamos nem subtraímos. Em suma, o 3o Sermão nos coloca diante da tarefa de projetarmos nossa alma para fora e para dentro, introjetando o arquétipo de Deus dentro de nós.

http://t1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQh6U7xZH08hKnzQ3uqSCQcaXE5KG2cJZd7b9fDxkUpHAVU1xo&t=1&usg=__OyjD26ZP39JbnEpP5RAsq66kzxQ=No 4o Sermão, Jung nos remete às relações entre dois princípios divinos que unem o bem e o mal: Deus-Sol, como bem supremo; o demônio, como o mal supremo. Eles se apresentam como Eros flamejante (a chama que brilha e devora e se apaga: a própria vida em toda a sua violência) e como a Árvore da Vida. O primeiro gerador e doador de vida; o segundo acumula a matéria viva enquanto cresce, estabilizando e construindo a cultura e a civilização. O Homem, em sua escalada espiritual, precisa de ambos os princípios. Eles são arquétipos que opõem a consciência aos instintos. Vida e amor opõem-se mutuamente em sua divindade. 

Jung considera um politeísmo (e um polidemonismo) ao referir-se à quaternidade (quatro é o número das dimensões do mundo) dos deuses: o UM = o Deus-Sol, como princípio; o DOIS = Eros que se expande; o TRÊS = a Árvore da vida que dá forma aos seres, preenchendo o espaço com os corpos; e o QUARTO = o demônio, que abre o que está fechado, tudo dissolve e tudo destrói, conduzindo de volta ao nada. Deus é a estrela; o demônio é o espaço vazio por ela ocupado. O Pleroma é o vazio do todo e a unidade de tudo. ABRAXAS é a atividade do todo: o oposto de ABRAXAS é o irreal.

Ele também fala de uma multiplicidade de deuses que podem converter-se em UNIDADE, como símbolos e arquétipos; sendo que como deuses se encontram em solidão e separados, enquanto cabe ao Homem o movimento de libertar sua existência pela individuação, à base de uma nova ética.

Assim, Jung coloca-se como monoteísta, pois ele acha lastimável que se substitua a unidade de Deus - como união dos opostos - por uma diversidade que significaria a luta entre esses opostos. Indaga ele: “Como podeis ser leais à vossa natureza quando tentais fazer um dos muitos?”. Diz Jung: “O homem é um partícipe da essência dos deuses, ele vem dos deuses e vai para Deus” (o eterno retorno) . Mas acrescenta: há deuses da luz (celestiais que se expandem ao infinito) e deuses das trevas (que diminuem e encolhem infinitamente). E, assim, tem-se um mundo celestial, múltiplo, em expansão (HÉLIO) e um inferno que se contrai, é o espírito da Lua e o servo da Terra. O menor, o mais frio e inerte que a própria terra. Mas esses diferentes deuses são apenas a expansão e a contração ao infinito da mesma energia.

Nesse Sermão, Jung usa símbolos como os da sarça ardente e da árvore da vida e procura realçar que os pólos em luta na vida de cada um de nós são, de um lado, o corpo; do outro, o espírito; o sentimento versus o intelecto; o feminino versus o masculino; o instinto versus a civilização; Dioniso versus Apolo; ou o flamejante versus o florescente; a revolução versus a conservação; a guerra versus a paz; a destruição versus a construção.

Diante desses opostos, cabe ao homem a tarefa heróica, mística e ética, de centralizar-se em face de cada pólo, verticalizando-se ao imprimir à sua vida um sentido, uma significação através do Self ou da divindade interior: ao mesmo tempo deve horizontalizar-se, ao se colocar em relação com o Outro, buscando conhecê-lo na vida social, assumindo suas responsabilidades em face da nação (como entre os judeus) ou no domínio de uma fé comum (como entre os cristãos). Sendo o caminho, o do autoconhecimento e o da individuação.

Não se trata de uma pura e simples volta à Natureza (Rousseau), pois esta pode não ser pacífica e até ser destruidora, colocando-se acima do bem e do mal humanos. Aconselha Jung a segurança, a continuidade, a permanência ao lado da criatividade, da espontaneidade, assegurando tanto as instituições sociais, quanto a criatividade artística individual.

Ele alerta contra a trivialidade do cotidiano, das repetições e dos hábitos, que refazem sempre um retorno cíclico às acomodações costumeiras. Jung mostra os pontos positivos do florescente: a autopreservação e a nutrição, a cultura e a civilização que retratam a realidade do coletivo, exigindo tolerância, refreamento do instinto; e seus pontos negativos, como a repressão, propondo, em seu lugar, uma disciplina interior ou uma autodisciplina.

No 5o Sermão, Jung fala do Homem e da comunidade, para os cristãos primitivos, a Igreja ou ekklesia (assembléia do eleitorado: homens que se reconhecem como de origem divina). Constituem a oposição entre a espiritualidade (Pleroma, deuses celestiais) e a sexualidade (deuses terrestres); entre o Logos, Apolo e Minerva, de um lado; e Eros, Dioniso, Afrodite, de outro. É um problema energético que exige uma concessão à carne, pois representam demônios super-humanos, mais próximos do homem que dos deuses.

Nesse sermão, Jung fala do mito da Grande-Mãe (mater coelestis) e do phallos (pai telúrico), a matéria (hylé). O princípio celestial é feminino; o terrestre é masculino: o primeiro recebe e compreende; o segundo gera e cria. A união desses opostos engendra o Anthropos, o Andrógino, o Espírito, Logos e Sophia.

No homem, diz Jung, a sexualidade é mais terrena e a espiritualidade, mais celestial, na direção do maior. Na mulher, a sexualidade é mais celestial e a espiritualidade, mais terrena, na direção do menor. O conflito entre anima e animus beneficia a ambos, embora homem e mulher devam separar seus caminhos espirituais, segundo a natureza da diferenciação, para não se tornarem demônios um para o outro. “Cada um deve dirigir-se ao próprio lugar.”

De fato, para Jung, o homem deve separar-se da espiritualidade e também da sexualidade - colocando a necessária distância entre esses dois demônios para não ser vitimado por eles. O homem deve conhecer o que é menor; e a mulher o que é maior. Mesmo que esteja sujeito às leis da sexualidade e da espiritualidade (que são seres superiores e externos a ele), deve buscar apoio na comunidade, porque é fraco e pode ser por eles vitimado.
Nós não possuímos esses dois demônios; eles é que nos possuem, e se não nos diferenciarmos, ficaremos sujeitos às suas leis. Eles são causas comuns e perigos graves aos quais não se pode escapar. Por isso, devemos unir-nos em comunidade, compensando nossas fraquezas, ou sob o signo da mãe ou do pai (phallos). Assim, evitaremos sofrimentos e enfermidades, embora a comunidade fragmente e dissolva, pois a diferenciação conduz à solidão..
Na verdade, ensina Jung, a comunidade existe por causa dos deuses que forçam a uma comunhão, e ele mostra que, enquanto a vida em comunidade nos faz crescer em abrangência, a solidão do indivíduo que procura a si mesmo faz crescer em altura e profundidade. O primeiro dá calor, o segundo dá luz. O tema é a tensão entre o individual e o coletivo, entre o masculino que se resolve em profundidade e o feminino que engendra o silêncio (yang/yin). Pois, afinal, é da tensão dos opostos que se gera a energia e seu excedente é necessário à construção da cultura e da civilização, da arte e da estética, da religião etc.

É marcante a influência de Heráclito no pensamento de Jung, do princípio de que é da luta dos opostos que nasce a luz. Do ponto de vista psicológico, acha Jung que não se deve ter apego a qualquer dos pólos, nisso consistindo o valor transformativo do conflito. 

Simbolicamente, Jung vê a comunidade feminina na cidade-mãe e a masculina na fortaleza-pai. Os opostos, psicologicamente, para Jung, se fundem, ou para produzir algo novo intrapsiquicamente (o andrógino alquímico); ou criam algo novo no campo de força entre eles, as duas pessoas interagindo com autonomia, mas na relação surgindo algo novo entre elas.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/8e/DaVinci_MonaLisa1b.jpgEva é a feminilidade psíquica da intuição; Adão é a alma vivente, moroso, animalesco que se conscientiza através de Eva. Esta constatação não deve ser confundida com uma dualidade, em função da consciência diferenciadora, que considere o espiritual como bom e o animal, como mal. Nesse ponto, Jung critica o cristianismo hegemônico que acabou com o valor do conflito, considerando toda concessão à carne como pecado contra o espírito, traduzindo-se em culpa e desesperança.

Em conseqüência, surgiu um espiritualismo unilateral ao qual se opôs o Renascimento e, por sua vez, um antropocentrismo unilateral: materialista, trivializando a vida. Ele comenta sobre alternativas orientais - o taoísmo, o tantrismo - opostos que se complementam em luta criativa às premissas unilaterais ocidentais. É claro que Jung critica também a unilateralidade da espiritualidade de algumas seitas orientais, considerando como missão do Ocidente reviver seus próprios mitos, como a alquimia de Toth ou de Hermes.

Esse Sermão levanta, enfim, todo o problema das relações entre os sexos, não escapando às questões do feminismo, com suas implicações culturais. Mas o que verdadeiramente importa é a união dos opostos relativos à construção do gênero (masculino/feminino) em cada um de nós. 

A realização da androginia compondo 4 fases:

1) a do ego, do sexo ou da nigredo;
2) a do sexo unido à emoção ou da albedo;
3) a do amor romântico, projetado, ou da citredo;
4) a do hieros gamos, a rubedo, a introjeção do Cristo gnóstico ou do 2o Adão (o homem individuado).

No 6o Sermão, Jung analisa dois símbolos: o da serpente que corporifica a sexualidade, ou o pensamento do desejo; e o do pássaro branco, que corporifica a espiritualidade ou o desejo do pensamento. Mais uma vez considera o conflito entre sexualidade e espiritualidade, no Anthropos ou no Deus interior. 

A serpente é a alma telúrica, mensageira do Pai Telúrico ou do PHALLOS; e o pássaro branco é o mediador entre o Homem e a Mãe Celestial. Interessante notar a inversão que aqui Jung faz, considerando a divindade celestial, feminina; e atribuindo caráter masculino à Terra.

http://listas.terra.com.br/system/items/000/019/670/medium/0_Ad_o_Eva_e_a_serpente_no_Para_so.jpg?1265184701Jung fala dos adoradores da serpente (os ofitas) e da kundalini. A serpente é como Mefistófeles a guiar Fausto. Ela representa a sabedoria sagrada dos instintos que resgata o 1o Adão da servidão ao demiurgo. É uma alma semidemoníaca, tem um caráter feminino, associada aos mortos que não passaram ao estado de solidão, e instila temor, inflamando o desejo.

Psicologicamente, trata-se de um espírito tirano e atormentador, tentando para a pior espécie de companhia. A serpente desce às profundezas, paralisa e estimula o demônio fálico. Traz pensamentos ardilosos saturados de desejo. Ela nos é útil ao escapar de nosso alcance e, ao persegui-la, ela nos mostra o caminho que, limitados, não poderíamos encontrar.


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 O pássaro branco é a alma semicelestial, casta e solitária; mensageira da MÃE CELESTE que intercede e adverte, embora não possua poderes contra os deuses. É o pensamento efetivo, masculino, é o desejo do pensamento que dá significado à vida, através do conflito. Comanda a solidão e recebe as mensagens dos que alcançaram a perfeição. Para atingir tal significado é preciso a gnose, como autoconhecimento, introspecção e consciência; ligada à pistis (confiança ou fé empírica). É um veículo do Sol.

Em sua dialética de oposições, Jung acha necessário incorporar os dois princípios: o pensamento e o desejo. Diz ele: “Cada oposto contém sua polaridade latente que pode emergir pela enantiodromia...O mistério dos opostos não é um problema a ser solucionado, mas uma condição a ser superada pela psiqué como um todo, não apenas pelo intelecto, levando à transformação na cadeia infinita dos opostos polares que formam a estrutura do ser.”
Criticando o racionalismo ocidental, Jung adverte para a questão do significado, da gnose como experiência da totalidade ou da inteireza. É um processo de tensão entre opostos e a posição gnóstica é um tipo especial de significado que deve ser vivido. Para Jung, a verdadeira ekklesia é a porção da humanidade que reconhece sua própria origem divina, é a pessoa consciente que busca a comunidade para fortalecer a vontade humana no sentido da individuação ou da solidão.

Isso gera a tensão entre o individual e o coletivo, já que o autoconhecimento ou a gnose, para ser atingida, exige a distância em relação ao coletivo que, no entanto, existe duplamente em nós, por via da consciência e do inconsciente.

Para o gnóstico, pecar é errar o alvo (etimologia do termo hermatia) e a questão da paz de espírito é apenas uma pausa entre o conflito passado e o conflito iminente. Mas como o conflito é que traz o significado, a gnose é a experiência desses significado, a compensação entre os opostos.

Hoeller considera que há diferenças entre a serpente gnóstica e a concepção junguiana dela. A primeira é sábia e sagrada, mensageira de SOPHIA e da consciência, tendo representado esse papel junto a Eva. Para os hindus, a serpente kundalini é um símbolo da individuação humana. Para Jung, ela é um demônio tirânico, com o qual, no entanto, se aprende, pois ensina a gerar-se a si mesmo, numa opus contra naturam, por sermos duais: carne e espírito, a serem transcendidos para se formar um novo Self.
Em aramaico, a palavra serpente quer dizer instruir, pelo simbolismo dual do anfíbio, por sua co-inerência de opostos num mesmo ser ou princípio. Comenta Hoeller que, na verdade, a serpente e o pássaro têm a mesma natureza: a feminina e a masculina, formando o Andrógino e fundando a divisão do Anthropos em terrestre e celeste.

Enfim, o pássaro branco é o pensamento, o espírito, a transcendência, o princípio salvador. É Hermes, como o deus da revelação, o mediador entre os homens e os deuses, levando-lhes a SOPHIA. O Anthropos hoje é pessoal e humano e deve precaver-se contra o perigo da inflação do ego.

No 7o Sermão, Jung fala do ser humano - criador de significados - como o portal por meio do qual penetramos do macrocosmos (o infinito exterior, o mundo dos deuses, dos demônios e das almas) no microcosmos (o infinito interior) e diz que “à imensurável distância cintila solitária uma estrela, no ponto mais alto do céu. Trata-se do único Deus desse solitário ser. É seu mundo, seu Pleroma, sua divindade”. É seu Deus pessoal...Simbolicamente, o pentagrama representaria o microcosmo, e o hexagrama o macrocosmo, representação do mundo das projeções.

O homem é o elo, o mediador que promove o equilíbrio entre o micro e o macrocosmos; mas isso ele só fará se, como ABRAXAS, for capaz de dar nascimento a seu próprio mundo, de mudar e transformar-se, operando a opus contra naturam, isto é, superando o mundo natural, criando um mundo de significados, acabando com as projeções ilusórias, libertando-se dos dualismos e de ABRAXAS, conquistando o Self, no retorno a Si-mesmo, unindo o micro e o macrocosmos, mediante a lei da sincronicidade, que traduz a eternidade interior e exterior, pela transgressividade dos arquétipos.

A estrela que cintila solitária é o Deus do homem e seu destino; é sua divindade tutelar e seu repouso. O fim da jornada de sua alma, nela reluzem todas as coisas com o brilho de uma grande luz. “A esse Ser, o homem deveria orar”, aumentando a luz da estrela, construindo uma ponte sobre a morte, aumentando a vida no microcosmo. 

E só quando conquistado o seu Deus pessoal a ser gnosticamente vivenciado, além da fé e da crença cegas, com a imago Dei em seu coração é que o homem se sentirá interdependente com Deus, promovendo pela gnosis kardia - isto é, pelo “conhecimento do coração” que confere um significado à vida - o mito da redenção mútua e da encarnação contínua de Deus em cada indivíduo da espécie humana. Aí poderá vivenciar o mito do eterno retorno: RUMO AO LAR ENTRE AS ESTRELAS...




VI - CONCLUSÃO

Jung é um gnóstico, na medida em que vivencia a experiência direta e interior (1914-19) com as imagens arquetípicas: sombra, trevas etc., como o caminho do auto-conhecimento e da individuação.
O processo junguiano de individuação é a contrapartida moderna da luta pela aquisição gnóstica do autoconhecimento. Assim, salvar o Homem do mundo é para um gnóstico o que Jung denomina de desidentificação em relação ao Outro exterior e ao Outro interior, inclusive de sua Sombra, já que o Bem e o mal estariam contidos no Pleroma, a realidade indivisa primitiva, indiferenciada, para Jung, o inconsciente de Deus, contendo em potencial o caos e o cosmos.

Os Sermões representam a expressão metafórica de uma experiência interna. Assim, alguns paralelos podem ser traçados entre os princípios gnósticos e a psicologia junguiana. São em número de oito:
 
1- o elemento pneumatológico = Si-mesmo;
2- diálogo consciência/inconsciente, como a tentativa de experiência direta com a realidade
arquetípica;
3- processo de individuação como o percurso da alma para retornar à sua verdadeira morada, a
seu hthos, pelo processo de autoconhecimento;
4- a aceitação do mal, da dor e do sofrimento como ontologicamente substantes e não apenas
como ausência do Bem;
5- a vivência da alienação da consciência para atingir a plenitude;
6- o Pleroma, o Anthropos e o Si-mesmo, como a experiência dos opostos;
7- a plenitude do Si-mesmo como aspiração substitutiva à da santidade de Deus e dos santos;
8- a plenitude e não a perfeição moral como escolhas emocionalmente auto-sustentadas.

A teogonia de Jung é a projeção no macrocosmo da psiqué humana e os mitos de criação (cosmogônicos) descrevem o despertar da consciência a partir do inconsciente. Para ele, o Demiurgo é o ego ou o pequeno Si-mesmo. Nossos relacionamentos projetam nossos fracassos e inadequações interiores: é o reino da sombra, o vilão interior. Além disso, ele escolhe Sophia como a mais elevada entre as figuras de anima: Barbelo, Eva, Helena e Maria. Estas são representantes de fases anteriores do processo de autoconhecimento masculino, que é acionado quando a anima, ativada, conduz a alma para dentro do interior psíquico e produz a totalidade indispensável. Para ele, salvar o homem do mundo é um processo de desidentificação em relação ao Outro externo e ao Outro interno.

Jung diz mais: mudança sem transformação é um desastre: os elementos naturais apenas mudam, mas não se transformam, por isso é necessário realizar a opus contra naturam, para que haja real transformação e diminuam as projeções, preparando o homem para encarar sua própria luz interior, quando o Self retorna a si-mesmo, dando a quintessência do que foi e do que será.

Sobre a questão do mal, Jung pronuncia-se contra a teoria platônica, retomada por Santo Agostinho, de que o mal é a ignorância ou privação do Bem; para ele, o mal existe como pólo antinômico do Bem, atributos que se anulam no Pleroma. Isso ele afirma em seu Primeiro Sermão. Nessa questão, Jung coloca-se contra a teoria agostiniana da privatio boni, de origem platônica.

Jung levanta a hipótese da inconsciência de Deus, a partir do caos da indiferenciação ao cosmos, da lei, da ordem e da diferenciação. Para ele, não existem seres irreligiosos, apenas há os que não reconhecem o nível importante do inconsciente, o poder da imaginação e a dialética de compensação que efetiva, por meio dos símbolos, os conteúdos inconscientes. Mas acrescenta ele: a necessidade não é de uma crença e sim de uma experiência religiosa que integra a alma numa totalidade. Deus é para ser vivenciado, pois só o que experimenta está vivo, o que crê está morto. Daí a importância do controle da consciência que enriquece e beneficia a alquimia e a magia do inconsciente em suas projeções.

É assim que Jung dá grande importância à subida do nível de consciência, a partir do inconsciente urobórico e indiferenciado. Disso dão conta os mitos luciferinos e prometeicos, bem como os papéis de Lilith e Eva.

Na verdade, Jung acha que não somos nós que fazemos as imagens de Deus: “Elas é que se fazem”, constituindo-se a imago Dei num complexo autônomo de grande força e intensidade, arraigado na plenitude do Ser, na psiqué como um todo, cabendo apenas ao ego pessoal confiar nesse poder transcendente, que é o Deus que está na alma, como uma realidade viva, dando-nos o esplendor dos recursos suprapessoais, da criatividade e da auto-renúncia.

Tais idéias conduzem diretamente à relatividade da concepção de Deus, sendo a prece apenas o prazer que se extrai da experiência divina, como doação de si-mesmo a seu Deus interior: a gnosis kardia, já mencionada. Por via de conseqüência, o mito da encarnação contínua de Deus nos seres criados e a redenção mútua do homem e de Deus, idéias que Jung retomará na década dos 50, com seu “Resposta a Jó”.

No campo da moral, Jung aceita o antinomianismo dos gnósticos (não reconhecimento das leis ditadas pela moral convencional dos homens em sociedade) e propõe a ética da convicção pessoal, ditada pelo núcleo arquetípico da sabedoria interior que cada homem possui. Para ele, a meta da plenitude não deve ser confundida com os ideais da perfeição, pela via da imitação do Cristo.

Hoeller acha mesmo que a individuação pode implicar em ir-se contra os critérios estabelecidos pela sociedade, evidenciando um conflito entre a lei e a liberdade do indivíduo, único verdadeiro portador de consciência. (Cf. 1993:155).

Como Deus é uma união de opostos no Pleroma, a plenitude do Ser só ocorre no inconsciente coletivo: bem e mal, belo e feio, verdade e erro etc. Daí, a importância da integração da sombra, para compor a totalidade do indivíduo, incluindo seu lado negativo ou rejeitado no processo de individuação.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiI-U1j-YHficNJBtiIX-fHcctRl7N6nysKEpwvpbMquyXhNoDI5Ji7zN0yw-CeyyudruMEfgiNghpfCxHC76a11mRcnEw7DCJue6wYRhyphenhyphenyWBKY4F8Ub6CJAohMlFGMqovVkSymYNDbHTQ/s320/Lucifer_Mars_Seal_Glowing_.jpgAcompanhando Hartmann e Schopenhauer, Jung concebe Deus como inconsciente, representado pelo caos e sua indiferenciação, tanto no inconsciente, como no cosmos. Resulta, então que a missão do homem é o resgate da diferenciação pela consciência, inclusive pela consciência do mal.

A subida do nível de consciência, cujos mitos principais, já apontados, são os de Lúcifer e de Prometeu é a verdadeira missão do homem na terra e o papel do feminino no processo de individuação (Lilith, Eva, Pandora) é reconhecido em diversos mitos de diferentes povos.

Jung segue ainda as idéias de um filósofo medieval - Joachim dei Fiori - que falava de uma Era do Pai, uma Era do Filho e uma Era do Espírito Santo. Em seu livro “Resposta a Jó”, Jung retoma essas idéias com seu mito de encarnação contínua de Deus e da redenção mútua do homem e de Deus.
Do ponto de vista religioso, aceitam os gnósticos de Alexandria, nesses primeiros séculos da Era de Peixes, a figura de Jesus - o homem perfeito - que encarna o CRISTO, o ungido, o Messias - emanação do Deus perfeito - para a redenção do Homem e da Humanidade. Jung, no entanto, criticará a unilateralidade da concepção cristã, com a ausência da sombra divina, o Leviatã. Ele fala, também, da sombra de Deus e do Cristo, ainda que não aceita oficialmente pelo cânones da Igreja. Ele se refere à figura do Anticristo, que surgiu no fim do primeiro milênio cristão, como uma enantiodromia à perfeição imaculada do Cristo. Aconselha ele que devemos temer a Deus e ensina que a idéia do anticristo é arquetípica, para completar o quatérnio: MAL X BEM; ESPÍRITO X MATÉRIA..

Em suma, a salvação ou redenção do Homem não se faz pela fé, mas pelo conhecimento - GNOSE (do grego = conhecimento). Mais precisamente, pelo autoconhecimento. Coincide assim o esforço gnóstico com o processo de individuação junguiano, a partir dos seguintes pressupostos:

1) - se há um Deus supremo, transcendente; por outro lado, há um Deus imanente, em cada ser humano, que cumpre libertar e contactar, pela experiência direta do divino em nós;

2) - o caminho para isso é o da transformação da alma, cadinho onde as experiências místicas ocorrem, e onde se cumpre (ou não) o casamento alquímico do Rei e da Rainha, do divino e do humano, em nossos corações: é o Caminho da Individuação;

3) - a meta e o propósito da vida são, portanto, o atingimento desse estado de consciência, a partir da inconsciência - da agnoia - anterior, sombra que sustenta o desabrochar da consciência divina no Homem;

4) - o grande pecado da alma é a ignorância (avidya, em sânscrito) que a mantém nas trevas, afastada de sua divina origem.

5) - a possibilidade de se realizar a transmutação da alma é sustentada pelos arquétipos,elementos estruturantes da psiqué, padrões e formas dominantes que organizam o ego,complexo do nível consciente, assim como as demais partes que se confrontam na arena psíquica: a sombra - geralmente identificada pelos aspectos rejeitados, não assimilados que permanecem subliminares na inconsciência; a persona - cuja base arquetípica permite a adaptação ao mundo exterior, de relação, integrando a consciência coletiva no indivíduo etc.

6) - dos arquétipos - do pai, da mãe, do puer, da puella, do senex, do animus, da anima e outros - o principal, é o SELF (Si-mesmo), o que coordena, estrutura e corrige compensatoriamente os desvios das ações conscientes. Representa a imagem de Deus em nossa alma, o Deus interior, o Cristo imanente, objeto constante da busca gnóstica pelo conhecimento e pela devoção.
7) - por último, a relação dual entre matéria e espírito, se é resolvida por alguns gnósticos pela negação da primeira e até por sua tentativa de supressão, por outros, mantido embora o dualismo, a matéria é considerada divina, por ser o Templo que abriga o espírito e, assim, é considerada e respeitada. Alguns gnósticos chegaram ao extremo de supor que nada do que fosse materialmente feito poderia afetar o espírito, razão pela qual permitiam-se até exageros e licenciosidades, condenados pelos demais (Carpócrates).
8) - ABRAXAS é a energia psíquica, a vida criativa que confere significado a partir da ilha da consciência que emerge do inconsciente. O mergulho neste, no entanto, exige o afastamento do espetáculo feérico da vida ativa sustentada por ABRAXAS.

Os Sete sermões representam a descida pelo setenário do Pleroma à psiqué humana, a criadora das imagens, sendo o homem o mediador entre as duas eternidades, e a sincronicidade o ponto de encontro entre ambas. Trata-se do encontro entre a física subatômica e a psicologia analítica.

É o homem que dá significado através da consciência - reino das avaliações subjetivas - contactando e ativando emocionalmente o inconsciente e, assim, trazendo as imagens arquetípicas à luz da consciência. Sendo os arquétipos psicofísicos ou psicóides, eles se manifestam nos dois planos, o que caracteriza sua transgressividade.

O homem, como alquimista e sacerdote dessa nova gnose, é um modelo unitário da realidade com conexões causais e acausais, reconciliando espírito e matéria, na unidade do mundo, na síntese do unus mundus. Vida e espírito se reúnem: o espírito dá o significado, mas ele não é nada sem a vida...
Sem dúvida, que a natureza dual da condição humana aconselha o convívio sábio com estas forças instintivas, inconscientes, que deverão ser encaminhadas - pela GNOSE, pelo reconhecimento - à luz da consciência, que delas retirará a necessária energia para a Grande Obra, a saber a transmutação do chumbo em ouro, da matéria bruta em matéria sutil, ultrapassando os sete corpos, os 32 caminhos e as 50 portas - estreitas que sejam - para se chegar à flor de ouro, que jaz escondida no fundo de nossas almas. Achá-la é o desafio diuturno da vida de cada um de nós!

No entanto, é preciso precaver-se contra o falso otimismo do poder positivo da mente: é preciso estar sempre de olhos abertos, sabendo introvertê-los, para fugir da sedução de ABRAXAS, encontrando o Deus interior que realiza a própria transformação, como realidade psíquica, que dá significado à vida, engendrando o processo de individuação.

BIBLIOGRAFIA

1 - BAIGNET, M., LEIGH, R., e LINCOLN H. - O SANTO GRAAL E A LINHAGEM SAGRADA. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
2 - DOURLEY, J.P. - A DOENÇA QUE SOMOS NÓS: a crítica de Jung ao cristianismo São Paulo: Paulinas, 1987.
3 - FERRATER MORA, J. DICCIONARIO DE FILOSOFIA. Buenos Aires: Sudamericana, 1958.
4 - HOELLER, S.A. - A GNOSE DE JUNG E OS SETE SERMÕES AOS MORTOS. São Paulo: Cultrix, 1990.
5 - _____________ - JUNG E OS EVANGELHOS PERDIDOS: uma apreciação junguiana sobre os Manuscritos do Mar Morto e a Biblioteca de Nag Hammadi. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1993.
6 - JUNG, C.G. - SÍMBOLOS DA TRANSFORMAÇÃO
7 - LAPERROUSAZ, - OS MANUSCRITOS DO MAR MORTO. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
8 - SCHUON, F. - GNOSIS, lenguaje del Si. Trad. do francês por José Manuel de Rivas. México: Heliópolis, 1993.
9 - VOEGLIN, E. - CIENCIA, POLITICA Y GNOSTICISMO. Madrid: Rialp, 1977.
* Livre-Docente e Doutora em Ciências pela UERJ. Pesquisadora da obra de Jung, com livros e artigos publicados.

FONTE:  Junguian Institute of Rio de Janeiro

                                                                                                             
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