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22 de jan. de 2012

Cristo

Bem disse Cristo:


“Ninguém pode chegar ao Pai, senão por mim.”


Esta é a verdade, pois onde poderemos ver o Pai, senão no Filho? Todo ser humano, por mais pobre e mísero que seja, é um templo de Deus, um reflexo de Deus que enche o universo, mas que se manifesta por intermédio de um verdadeiro instrutor.Todos nós reconhecemos que Deus existe, embora não o vejamos nem o compreendamos; porém se compararmos um genuíno Instrutor com o conceito que temos formado de Deus resultará que o caráter do Instrutor supera o nosso conceito de Deus e verificamos que não podemos formar um conceito que supere o caráter do Instrutor que se nos manifesta como encarnação pessoal de Deus. A divina encarnação dos judeus, que nela creram, foi Cristo. Quando Cristo nasceu, os judeus se achavam em um estado de estagnação e só se ocupavam de minúcias e pormenores, sem dar atenção ao essencial. Cristo velo ao mundo, para dar um novo Impulso à humanidade, na Palestina. Os fariseus e saduceus podiam ter sido hipócritas e ter feito o que não deviam, porém foram a causa e o Instrutor Cristo foi o efeito. Embora os rituais, a liturgia, as cerimônias, as formalidades e por menores acessórios da religião, às vezes, causem riso, acumulam não pouca energia e, precisamente, esta energia estava acumulada no formalismo religioso dos judeus. Rodeados de inimigos por todos os lados, estavam recolhidos no recinto onde foram encerrados pela força militar dos romanos e a mentalidade dos gregos; não obstante, conservavam a energia racial, até hoje mantida pelos seus descendentes. Não era possível que essa energia ficasse comprimida por muito tempo; por isso encontrou sua expansão no cristianismo, no Instrutor Jesus de Nazareth, apelidado a Cristo, como a Gautama apelidaram o Buda. Cada Instrutor surge em harmonia com a época, como criação do passado de sua raça e iniciador da futura. A causa de hoje é o efeito do passado e causa do futuro. Nesta situação se encontra o Instrutor, que encarna aquilo que de melhor e mais nobre há em sua raça, sendo ao mesmo tempo o impulsionador do futuro da humanidade. Por isso disse: "Não crede que vim mudar a lei, mas sim cumpri-la." Devemos considerar que Jesus, o Cristo, era oriental, embora os pintores se empenhem em figurá-lo com olhos azuis e cabelos louros. Também a Bíblia é oriental em seus dois testamentos; aliás, suas descrições, comparações, imagens e metáforas denotam estilo oriental. As cenas, os lugares, as atitudes, os personagens, a linguagem poética que nos fala do aguilhão, do deserto, dos vales com seus lírios, do brilhante firmamento, dos rebanhos, das mulheres que com o cântaro na cabeça vão buscar água no poço, dos moinhos, dos arados e de tudo quanto atualmente se vê na Ásia, como prova do primitivo trabalho do homem, tudo isso é oriental. A voz da Ásia tem sido a voz da religião. A voz da Europa tem sido a voz da Política. Cada um é grande em sua própria esfera. A voz da Europa é a voz da antiga Grécia. Para os gregos sua nação era tudo. Quem não falava sua língua era bárbaro e não tinha direito à vida. Segundo os gregos, tudo isso que faziam era justo e perfeito; o resto que se fazia no mundo era incorreto.


Não obstante, eram intensamente humanos em suas simpatias, intensamente naturais e, portanto, profundamente artistas. O grego vive por completo neste mundo. Não sonha. Até sua poesia é prática. Seus deuses e deusas são intensamente humanos, com todas as paixões, sentimentos e emoções do homem. Ama a beleza do mundo externo, das montanhas e das neves, das flores e das aves. Como foram os mestres dos posteriores povos europeus, a voz da Europa é um eco da Grécia. Na Ásia, porém, a religião é uma coisa prática, tal como foi a vida de Cristo, como legítimo filho do Oriente: intensamente prática. Seu reino não é deste mundo, não se preocupa com as coisas perecíveis deste mundo e nem tem onde reclinar a cabeça. Não se entretém em interpretar os textos das Escrituras, mas sim em exortar aos povos que se preparem porque o reino dos céus se aproxima e o fim pode colhê-los de surpresa. Cristo não fez da religião capa e máscara da vaidade, como se costuma fazer atualmente; a prova de que os cristãos não compreenderam o caráter de seu predileto Instrutor está em que uns o qualificam de revolucionário e comunista, outros o consideram o modelo do patriotismo judaico e outros ainda, de hábil político. Entretanto, não há nos Evangelhos nada que justifique estas suposições; ao contrário, Ele aconselha a dar a César o que é de César, afirmando com isto o princípio da autoridade civil e não fazendo distinção entre gentios e judeus. O melhor comentário da vida de Cristo é a sua própria vida e atualmente, os cristãos anseiam pelas riquezas, pelo poderio, a fama, a posição social, quando deveriam modificar sua conduta a fim de não profanar com ela o nome do seu Instrutor. Cristo não viveu ligado por laços de família. Quando lhe disseram que sua mãe e seus irmãos o esperavam fora, não se deteve para saudá-los nem os fez chegar onde Ele estava exclamando: "Quem é minha mãe e quem são meus irmãos - "E estendendo a mão para os seus discípulos, disse: "Eis aqui minha mãe e meus irmãos, porque todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” E nas bodas de Canaã, quando sua mãe lhe disse. que havia acabado o vinho, Ele respondeu: “Que tenho eu contigo, mulher? Minha hora ainda não chegou.". Cristo não tinha a sensação de sexualidade, nem havia chegado ao mundo como os outros homens, à semelhança dos animais, porque era a encarnação de Deus. Seu corpo era unicamente a expressão de sua alma, que nele atuava para o bem da humanidade. A alma não tem sexo. Esse ideal, não obstante, pode estar muito longe do nosso alcance, mas não o devemos perder de vista, mantendo o propósito de realizá-lo algum dia. Em sua vida, Cristo não teve outra ocupação nem outro pensamento além de que era puro espírito manifestado na carne, porém não sujeito a ela; com sua maravilhosa intuição, sabia que todo ser humano, homem ou mulher, judeu ou gentio, rico ou pobre, justo ou pecador, era a encarnação de seu próprio espírito, embora ainda não manifestado em sua plenitude, como Pai manifestava. Assim, em sua oração do Pai, disse:"Mas rogo não somente por estes, senão também pelos que hão de crer em mim pela palavra deles, a fim de que todos sejam uma coisa, como tu, em mim ó Pai e eu em ti: que também sejam em nós uma só coisa. "Isto não pode significar mais do que anelo de que chegue o dia em que, pela fé do Cristo, possa alcançar os crentes o reconhecimento de sua unidade essencial com Cristo e com Deus. Desse modo, a obra capital de sua vida foi estimular em quantos o seguiam o reconhecimento dessa unidade essencial, dizendo-lhes: "O reino de Deus está em vós."



Equivalia a dizer-lhes que abandonassem as velhas e supersticiosas idéias de que eram vermes desprezíveis da terra e que podiam ser tiranizados como escravos, porque em seu interior estava o triunfante reino de Deus, o espírito divino, invulnerável, eterno, imortal. Jesus jamais fala deste mundo, nem do aspecto do mundo senão para vituperar sua vaidade e exortar aos povos do mundo a que sigam avante em seu aperfeiçoamento, até alcançarem a resplandecente luz de Deus, até que todos reconheçam a divindade essencial de sua natureza e que fique vencida a morte e anulada a aflição, não vamos discutir agora, se há algo de lendário no Novo Testamento, algo de místico relativamente à vida de Jesus Cristo, nem nos importa que os Evangelhos datem de séculos depois de sua morte. O importante é a moral evangélica, idêntica no fundo à moral ensinada por todos os Instrutores que precederam a Cristo. Para a salvação não há necessidade de ciência acadêmica, nem de riquezas, poderio ou fama. Só necessitamos de pureza, porque o espírito é puro por essência e não pôde ser de outra maneira, porque procede de Deus; por isso diz a Bíblia que o espírito é o sopro de Deus e o Corão afirma que é a alma de Deus. Não obstante, está, por assim dizer, encoberto pelo pó das nossas ações e as obscuridades da nossa ignorância. Basta eliminarmos o Ego e as obscuridades, para que o espírito brilhe em todo o seu esplendor. "Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus." "O reino de Deus está em vós.". "Não busqueis o reino de Deus aqui nem ali, porque está em vosso íntimo. Também ensinou Jesus, o Cristo, a renúncia como o melhor meio para eliminarmos as obscuridades que cobrem a luz do espírito como uma capa. O jovem rico pergunta a Jesus: Ó bom Mestre, que farei para conquistar a vida eterna? Jesus responde: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus e se queres conquistar a vida eterna, guarda os mandamentos. O jovem indaga: Quais são? Jesus replica: Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não dirás falsos testemunhos. Honra o teu pai e à tua mãe e ama o próximo como a ti mesmo. Falou então, o jovem: - Tudo isso observei desde a minha adolescência. Que mais me falta? Respondeu Jesus: - Se queres ser perfeito, anda, vende o que tens, dá aos pobres e terás tesouros no céu; vem e segue-me. O jovem, porém, afastou-se muito triste, sem obedecer ao Mestre, porque era possuidor de multas riquezas. Todos nós somos mais ou menos como esse jovem. A Voz ressoa dia enoite em nossos ouvidos, no meio dos nossos prazeres e alegrias; no meio das coisas mundanas esquecemo-nos das espirituais até que em um momento de pausa ressoa em nossos ouvidos a Voz que aconselha: "Vende quanto tens e segue-me.""Todo aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á e todo aquele que por Mim perca a vida, a salvará. "Porque todo aquele que renuncia a vida deste mundo por amor a Cristo, conquista a vida imortal.


Swami Vivekananda
  

17 de ago. de 2011

Jung: Livro de Jó, Alquimia e Sincronicidade

http://www.saindodamatrix.com.br/archives/jung-deus-diabo.jpg 


Retirado do livro "C. G. Jung: Entrevistas e Encontros", de William McGuire e R.F.C. Hull (Ed. Cultrix)
 
Entrevista do Prof. Mircea Eliade com Jung, em 1952.

Eliade: Aos 77 anos de idade, o Professor C. G. Jung nada perdeu de sua extraordinária vitalidade, de seu surpreendente espírito juvenil. Ele acabou de publicar, um após outro, três novos livros: sobre o simbolismo de Aion (Tempo), sobre sincronicidade, e "Resposta a Jó", o qual já deu origem a reações sensacionais, especialmente entre os teólogos.

Jung: Esse livro sempre esteve em minha mente, mas aguardei 40 anos para escrevê-lo. Fiquei terrivelmente chocado quando, ainda criança, li o Livro de Jó pela primeira vez. Descobri que Javé é injusto, que é mesmo um malvado. Pois permite-se ser persuadido pelo diabo, concorda em torturar Jó por sugestão de Satã. Na onipotência de Javé não existe consideração pelo sofrimento humano. São abundantes os exemplos da injustiça de Javé em certos escritos hebraicos. Mas não é esse o ponto; o ponto que interessa é a reação do crente à injustiça. A questão é a seguinte: Existe na literatura rabínica qualquer prova da existência de reflexão crítica ou de uma reconciliação desse conflito na Deidade? Num texto tardio (Talmud babilônbico), Javé solicita a bênção do sumo sacerdote Ishmael, e Ishmael responde-lhe: "Seja a Tua vontade que a Tua misericórdia suprima a Tua ira, e que a Tua compaixão possa prevalecer sobre os Teus outros atributos..."

O Todo-Poderoso sente que um homem verdadeiramente santificado é superior a Ele.

É possível que tudo isso seja uma questão de linguagem. Pode ser que aquilo a que chamamos a "injustiça" e a "crueldade" de Javé sejam apenas fórmulas aproximadas e imperfeitas para expressar a transcendência total de Deus. Javé é "Aquele que é", de modo que está acima e além do bem e do mal. Ele é impossível de ser apreendido, compreendido, formulado; por conseguinte, é misericordioso e injusto simultaneamente. Isto é uma maneira de dizer que nenhuma definição pode circunscrever Deus, nenhum atributo esgota as suas potencialidades.

Eu falo como psicólogo e, sobretudo, estou falando do antropomorfismo de Javé e não de sua realidade teológica. Como psicólogo, digo que Javé é contraditório, e também penso que essa contradição pode ser interpretada psicologicamente. A fim de testar a fidelidade de Jó, Javé concede a Satã uma licença quase ilimitada. Ora, esse fato não está isento de conseqüências para a humanidade. Eventos muito importantes são iminentes no futuro por causa do papel que Javé se sentiu obrigado a atribuir a Satã. Diante da crueldade de Javé, Jó está silencioso. Esse silêncio é a mais bela e a mais nobre resposta que o homem pode dar a um Deus onipotente. O silêncio de Jó é já uma anunciação do Cristo. De fato, Deus fez-se homem, tornou-se Cristo, a fim de redimir a sua injustiça para com Jó.

Javé errou mas reconheceu o erro. Será Jó sabedor disso? De qualquer modo, a posteridade percebeu o conflito doloroso causado pela imoralidade de Javé. Há a história de um sábio muito piedoso e devoto que não suportava ler o Salmo 89. Jó está certamente consciente da injustiça divina e, assim, está mais consciente do que Javé. É a superioridade sutil do progresso do homem em consciência moral, em face de um Deus menos consciente. Essa é a razão para a Encarnação.

O grande problema em psicologia é a integração de opostos. Encontramo-lo em toda a parte e em todos os níveis. Em Psicologia e Alquimia tive ocasião de me interessar pela integração de Satã. Pois enquanto Satã não for integrado, não haverá cura para o mundo nem salvação para o homem. Mas Satã representa o mal - e como pode o mal ser integrado? Só existe uma possibilidade: assimilá-lo, ou seja, elevá-lo ao nível da consciência. Isso é feito mediante um processo simbólico muito complicado, o qual é mais ou menos idêntico ao processo psicológico de individuação. Em alquimia, chama-se a conjunção dos dois princípios. De fato, a alquimia assumiu e levou por diante a obra do cristianismo. Na concepção alquimista, o cristianismo salvou o homem, mas não a natureza. O sonho do alquimista era salvar o mundo em sua totalidade; a pedra filosofal foi concebida como o filius macrocosmi, o que salva o mundo, ao passo que o Cristo era o filius microcosmi, o salvador apenas do homem. A finalidade suprema do opus alquímico é a apokatastasis, a salvação cósmica.

Estudei alquimia durante 15 anos, mas nunca falei sobre isso a ninguém; não desejava influenciar os meus pacientes ou meus colegas de trabalho por sugestão. Mas, após 15 anos de pesquisa e observação, impuseram-se-me conclusões inelutáveis. As operações alquímicas eram reais, só que essa realidade não era física mas psicológica. A alquimia representa a projeção de um drama cósmico e espiritual em termos de laboratório. O opus magnum tinha duas finalidades: o resgate da alma humana e a salvação do cosmo. Aquilo a que o alquimista chamava "matéria" era, na realidade, o eu (inconsciente). A "alma do mundo" (anima mundi), que foi identificada com o spiritus mercurius, estava aprisionada na "matéria". Por essa razão é que o alquimista acreditava na verdade da "matéria", porquanto a "matéria" era, na realidade, a própria vida psíquica do alquimista. Mas era uma questão de libertar essa "matéria", de salvá-la - numa palavra, de descobrir a pedra filosofal, o corpus glorificationis.

Esse trabalho é difícil e repleto de obstáculos; o opus alquímico é perigoso. Logo no começo encontramos o "dragão", o espírito ctônico, o "diabo" ou, como os alquimistas lhe chamavam, a "escuridade", o nigredo, e esse encontro produz sofrimento. A "matéria" sofre até ao desaparecimento final da escuridade; em termos psicológicos, a alma encontra-se nas vascas da melancolia e da angústia travando uma luta com a "sombra". O mistério da conjunção (coniunctio), o mistério central da alquimia, visa precisamente a síntese dos opostos, a assimilação da escuridade, a integração do diabo. Para o cristão "despertado" isso constitui uma experiência psíquica muito séria, pois trata-se de um confronto com a sua própria "sombra", com a escuridade, o nigredo, que permanece à parte e nunca pode ser completamente integrado na personalidade humana.

Ao interpretar-se o confronto do cristão com sua sombra em termos psicológicos, descobre-se o medo oculto de que o diabo seja mais forte, de que Cristo não tenha conseguido conquistá-lo completamente. Caso contrário, por que se acreditava e ainda se acredita no Anticristo? Por que se aguardava e continua se aguardando a vinda do Anticristo? Porque só depois do reino do Anticristo e só depois do segundo advento do Cristo o mal será finalmente conquistado no mundo e na alma humana. Em nível psicológico, todos esses símbolos e crenças são interdependentes; é sempre uma questão de lutar com o diabo, com Satã, e de conquistá-lo, ou seja, de assimilá-lo, integrando-o na consciência. Na linguagem dos alquimistas, a matéria sofre até que o nigredo desapareça, quando a aurora será anunciada pela cauda do pavão (cauda pavonis) e um novo dia nascerá, o leukosis ou albedo. Mas nesse estado de "brancura" não se vive, na verdadeira acepção da palavra; é uma espécie de estado ideal, abstrato. Para insuflar-lhe vida, deve ter "sangue", deve possuir aquilo a que os alquimistas chamam o rubedo, a "vermelhidão" da vida. Só a experiência total da vida pode transformar esse estado ideal do albedo num modo de existência plenamente humano. Só o sangue pode reanimar o glorioso estado de consciência em que o derradeiro vestígio de escuridade é dissolvido, em que o diabo deixa de ter uma existência autônoma e se junta à profunda unidade da psique. Então, o opus magnum está concluído: a alma humana está completamente integrada.

Eu sou e continuo sendo um psicólogo. Não estou interessado em qualquer coisa que transcenda o conteúdo psicológico da experiência humana. Nem sequer pergunto a mim mesmo se tal transcendência é possível, visto que, em qualquer caso, o transpsicológico tampouco é de interesse para o psicólogo. Mas no nível psicológico tenho que ocupar-me das experiências religiosas que possuem uma estrutura e um simbolismo que pode ser interpretado. Para mim, a experiência religiosa é real, é verdadeira. Apurei que, através de tais experiências religiosas, a alma pode ser "salva", a sua integração acelerada, e estabelecido o equilíbrio espiritual. Para mim, como psicólogo, o estado de graça existe: é a perfeita serenidade da alma, um equilíbrio criativo, a fonte de energia espiritual. Falando sempre como psicólogo, afirmo que a presença de Deus é manifesta, na experiência profunda da psique, como uma coincidentia oppositorum, e toda a história da religião, todas as teologias, dão testemunho do fato de que a coincidentia oppositorum é uma das mais comuns e mais arcaicas fórmulas para expressar a realidade de Deus. A experiência religiosa é numinosa, como Rudolf Otto a designa, e, para mim, como psicólogo, essa experiência difere de todas as outras de um modo que transcende as categorias ordinárias de espaço, tempo e causalidade. Recentemente, empenhei-me no estudo da sincronicidade (em poucas palavras, a "ruptura do tempo"), e estabeleci que se assemelha estreitamente às experiências numinosas em que espaço, tempo e causalidade são abolidas. Não aplico qualquer juízo de valor à experiência religiosa. Afirmo que um conflito interno é sempre a fonte de profundas e perigosas crises psicológicas, tão perigosas que podem destruir a integridade de um homem. Esse conflito interno manifesta-se psicologicamente nas mesmas imagens e no mesmo simbolismo testemunhados por toda e qualquer religião no mundo, e utilizados também pelos alquimistas.

Por isso me interessei pela religião, por Javé, Satã, Cristo, pela Virgem. Entendo muito bem que um crente veja algo muito diferente nessas imagens do que eu, como psicólogo, tenho o direito de ver. A fé de um crente é uma grande força espiritual, é a garantia de sua integridade psíquica. Mas eu sou médico e estou interessado em curar os meus semelhantes. A fé e somente a fé já não tem poder - infelizmente! - para curar certas pessoas. O mundo moderno está dessacralizado; por isso está em crise. O homem moderno deve redescobrir uma fonte mais profunda de sua própria vida espiritual. Para tanto, é obrigado a lutar com o diabo, a enfrentar sua própria sombra, a integrar o diabo. Não há outra escolha. É por isso que Javé, Jó, Satã, representam situações psicologicamente exemplares; eles são como paradigmas do eterno drama humano.

Eliade: Jung descobriu o inconsciente coletivo - quer dizer, tudo o que precede a história pessoal do ser humano - e aplicou-se a decifrar as suas estruturas e a sua "dialética", com vistas a facilitar a reconciliação do homem com a parte inconsciente de sua vida psíquica e a conduzi-lo no sentido da integração de sua personalidade. Ao invés de Freud, Jung toma em consideração a história: os arquétipos, essas estruturas do inconsciente coletivo, estão carregados de história. Já não é uma questão, como quer Freud, de uma "espontaneidade natural" do inconsciente de cada indivíduo, mas de um imenso reservatório de lembranças históricas, uma memória coletiva na qual é preservada, em essência, a história de toda a humanidade. Jung acredita que o homem deve fazer maior uso desse reservatório; o seu método analítico dedica-se, precisamente, a encontrar os meios adequados para usá-lo.

Jung: O inconsciente coletivo é mais perigoso do que dinamite, mas existem métodos para manipulá-lo sem maiores riscos. Depois, quando se desencadeia uma crise psicológica, estamos em melhor posição do que qualquer outro para resolvê-la. Temos sonhos e devaneios; tratemos de os observar. Poderíamos quase dizer que todo o sonho, à sua própria maneira, contém uma mensagem. Ela não só nos diz que algo está errado nas profundidades do nosso ser, mas também nos oferece uma solução para sair da crise. Pois o inconsciente coletivo que nos envia esses sonhos já possui a solução: nada se perdeu da toda a experiência imemorial da humanidade, toda a situação imaginável e toda a solução parecem ter sido previstas pelo inconsciente coletivo. Basta apenas que observemos cuidadosamente. A análise ajuda a ler corretamente essas mensagens.

Eliade: Foi observando seus próprios sonhos - que ele tentou em vão interpretar nos termos da psicanálise freudiana - que Jung foi levado a pressupor a existência do inconsciente coletivo. Isso aconteceu em 1909. Dois anos depois, começou a dar-se conta da importância de sua descoberta. Finalmente, em 1914, ainda em conseqüência de uma série de sonhos e devaneios, ele compreendeu que as manifestações do inconsciente coletivo são, em parte, independentes das leis do tempo e da causalidade. Como o Professor Jung amavelmente me permitiu que falasse desses sonhos e devaneios, os quais desempenharam um papel capital em sua carreira científica, eis um resumo deles.

Jung: Em outubro de 1913, enquanto viajava de trem de Zurique para Schaffhausen, ocorreu-me um estranho incidente. Ao atravessar um túnel, perdi a consciência de tempo e lugar, e só fui acordado uma hora depois, quando o condutor anunciou a chegada a Schaffhausen. Durante todo esse tempo fui vítima de uma alucinação, de um devaneio. Estava olhando para o mapa da Europa e vi como, país por país, começando com a França e a Alemanha, a Europa era tragada pelo mar, até ficar submersa. Pouco depois, todo o continente era um lençol de água, com exceção da Suíça; a Suíça era como uma alta montanha que as ondas não podiam alcançar. Vi-me sentado na montanha. Mas então, olhando mais atentamente à minha volta, percebi que o mar não era de água, mas de sangue. Flutuando sobre as ondas havia cadáveres, telhados de casas, madeiras calcinadas.

Três meses mais tarde, em dezembro de 1913, e novamente no trem que me levava a Schaffhausen, repetiu-se o mesmo devaneio, de novo ao entrar no túnel (Dei-me conta, subseqüentemente, de que era como uma imersão no inconsciente coletivo). Como psiquiatra, fiquei preocupado, imaginando se eu não estaria a caminho de "fazer uma esquizofrenia", como dizíamos na linguagem desses tempos. Finalmente, alguns meses mais tarde, tive o seguinte sonho: Vi-me nos mares do sul, perto de Sumatra, no verão, acompanhado de um amigo. Mas soubemos pelos jornais que uma terrível onda de frio tinha varrido a Europa, como não havia notícia de que tivesse ocorrido antes. Decidi ir até Batávia e embarcar num navio de volta à Europa. O meu amigo disse-me que pegaria um veleiro de Sumatra para Hadramaut, e daí continuaria sua viagem através da Arábia e Turquia. Cheguei à Suíça. Em meu redor só via neve e mais neve. Uma vinha enorme estava crescendo algures; tinha muitos cachos de uvas. Acerquei-me e comecei apanhando as uvas, distribuindo-as por um magote de gente que me rodeava mas que eu não podia ver.
Três vezes esse sonho se repetiu e, finalmente, fiquei deveras intranqüilo. Eu estava justamente nessa época preparando uma conferência sobre esquizofrenia, para ser lida num congresso em Aberdeen, e não me cansava de repetir para mim mesmo: "Estarei falando de mim mesmo! Muito provavelmente enlouquecerei depois de ler a conferência". O congresso teria lugar em julho de 1914 - exatamente o período em que, nos meus três sonhos, via-me viajando pelos mares do sul. A 31 de julho, imediatamente após a minha conferência, soube pelos jornais que eclodira a guerra. Finalmente entendi tudo. E quando desembarquei na Holanda, no dia seguinte, ninguém era mais feliz do que eu. Agora tinha a certeza de que nenhuma esquizofrenia me ameaçava. Compreendi que os meus sonhos e as minhas visões me chegavam do subsolo do inconsciente coletivo. O que me restava agora fazer era aprofundar e validar essa descoberta. E isso é o que estou tentando fazer há 40 anos.

Eliade: Jung ficou satisfeito ao receber uma segunda explicação desse sonho pouco depois. Os jornais não tardaram em noticiar que um capitão da Marinha alemã, de nome von Mücke, que tinha cruzado os mares do sul num veleiro, de Sumatra para Hadramaut, se refugiara na Arábia e daí alcançara a Turquia.


Um post  de Saindo da Matrix


 

29 de jan. de 2011

Os "adoradores" de Serpentes

"Sede prudentes [3]  como as serpentes e sem malícia como as pombas" (Mt 10:16)

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Moisés e a  Serpente de Bronze


Conhecemos menos sobre os verdadeiros grupos esotéricos do que sobre os místicos, porque aqueles não são cerceados por juramentos secretos que os impedem de divulgar suas experiências interiores. Sigilo absoluto sobre tudo o que é dito e feito atrás dos portais da Câmara Sagrada sempre foi um dos requisitos exigidos dos candidatos à iniciação nos Mistérios. A natureza sigilosa das atividades desses grupos é tida como necessária para salvaguardar a humanidade da má utilização de seus segredos por indivíduos egoístas e sem a devida capacitação moral. Essa obrigação foi tão estritamente observada ao longo dos milênios que nenhuma narrativa dos verdadeiros segredos dos Mistérios jamais chegou ao conhecimento dos curiosos ou dos historiadores. O voto não se estendia a todos os elementos de um Mistério, mas sim aos detalhes cerimoniais, às revelações feitas no templo, à interpretação esotérica do mito representado de forma dramática, às palavras de passe da fraternidade e seu significado, às fórmulas de iluminação e sabe-se lá que outros fatos de interesse oculto.[1]  


Os místicos, ao contrário, sempre sentiram a obrigação de compartilhar suas experiências com seus irmãos buscadores, de forma a confirmar que é possível a união com Deus para aqueles que seguem o árduo, mas gratificante, caminho da entrega total ao Pai Supremo até alcançarem o merecimento de receber a graça da Luz Divina. 

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Os membros dos grupos esotéricos podem, num certo sentido, ser considerados como místicos, porém, com uma característica toda especial, eles também se valem de uma série de rituais e outros procedimentos para facilitar e acelerar o processo de transformação interior que, com o tempo, leva à iluminação. Esses grupos, geralmente estabelecidos por iniciados com elevados dons espirituais, utilizam a teurgia, ou seja, a energia divina direcionada por aqueles devidamente capacitados, para promover condições facilitadoras para as progressivas expansões de consciência que caracterizam o caminho espiritual.  


Esses procedimentos não devem causar nenhuma surpresa ao estudioso, pois Jesus demonstrou ser um grande teurgo, usando a energia divina tanto para curar o corpo como, principalmente, a alma. Jesus era familiarizado com os grupos ocultos de sua época, pois acredita-se que ele era um essênio e recebeu instrução de seu tio o Rabbi Jehoshuah e, mais tarde, do Rabino Elhanan, renomado cabalista em sua época, sobre os mistérios da Cabala. Os essênios eram grandes ocultistas e buscavam, principalmente em seu centro de treinamento em Qumrã, o ideal místico de todos os séculos, a união com Deus. O mesmo deve ser dito dos grupos cabalistas, que mantiveram acesa a chama do conhecimento divino entre os judeus.   


Não seria de estranhar, portanto, que Jesus ministrasse ensinamentos reservados a um grupo de discípulos mais avançados, como é mencionado na Bíblia: "Porque a vós foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus" (Mt 13:11). Esse grupo de discípulos foi o núcleo do primeiro grupo esotérico da tradição cristã. Dele derivou-se, ao longo dos séculos, toda uma série de outros grupos sempre com o objetivo de perseguir a gnosis divina que levava ao prometido ?Reino dos Céus.?  


É lógico supor-se que após a morte de Jesus esse grupo interno continuou seus trabalhos e procurou manter, com todo o zelo característico dos discípulos mais próximos do Mestre, a tradição oculta que lhe havia sido transmitida. Assim, as instruções secretas, rituais, sacramentos e todo o instrumental transformador ensinado por Jesus foram mantidos por seus discípulos. Como sói acontecer, na prática de todos os grupos verdadeiramente esotéricos, seus membros comprometem-se solenemente a manter acesa a chama divina da gnosis [2] para o benefício de todos os verdadeiros buscadores que puderem ser admitidos ao ádito sagrado.   


Seria lícito perguntar, portanto, por que a Igreja nunca reconheceu oficialmente a existência de grupos que seriam os mantenedores da tradição esotérica cristã? A resposta é óbvia. O grupo que mais tarde tornou-se a Igreja Católica, consolidada no século IV, sob a égide de Constantino, não era o ramo esotérico da tradição, mas sim aquele que manteve a tradição aberta, a tradição das parábolas de Jesus ministradas aos muitos (ao público). Entende-se, portanto, porque as autoridades eclesiásticas sempre relutaram em reconhecer a existência de uma tradição interna e, com o tempo, cada vez mais preocupadas com sua autopreservação, tornaram-se inimigas coléricas e perseguidoras dos grupos ocultistas, usando de todos os meios para neutralizá-los, desacreditá-los e destruí-los.  


Os primeiros grupos internos de nossa tradição foram conhecidos como gnósticos, podendo-se destacar dentre eles os ofitas. Esses termos, gnósticos e ofitas, tão injustamente vilipendiados pela ortodoxia merecem um esclarecimento. Gnóstico é o buscador da gnosis, que em grego significa conhecimento, não um conhecimento meramente intelectivo, mas sim a percepção direta, intuitiva da verdade, sobre a qual Paulo fez tantas alusões em suas epístolas. Esse conhecimento só é adquirido por aqueles que conseguem silenciar a mente e ouvir a voz silenciosa do Cristo interior, que tudo revela aos seus bem amados. É importante lembrar que os grupos gnósticos já eram conhecidos antes do ministério de Jesus.   


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Ofita vem do termo grego ofis, serpente. Esses grupos não eram adoradores da serpente, como maldosamente lhes é atribuído. A serpente sempre foi o símbolo da sabedoria em todas as grandes tradições, daí a instrução de Jesus a seus discípulos: "Sede prudentes [3] como as serpentes e sem malícia como as pombas" (Mt 10:16). A serpente sempre foi um símbolo usado para representar a sabedoria nas tradições da antigüidade. Entre os judeus, a serpente, (Gênesis 3) aparece como a primeira reveladora do conhecimento divino.[4] Os antigos cabalistas judeus usavam a serpente nechushtan, com sua cauda segura entre os dentes, como  símbolo da sabedoria e da iniciação. [5] Tanto na tradição hinduísta como na budista, os grandes nagas (serpentes,em sânscrito) são representados como os instrutores primordiais. É possível que isso reflita o fato de que certos buscadores passam pela experiência interior de visualização de uma ou várias serpentes, na verdade um teste de sua coragem e determinação. Caso o buscador não se retraia com medo, é dito que a experiência prossegue com a serpente se aproximando do devoto, abrindo sua boca e, finalmente, fundindo-se com o fiel indômito. Essa visão parece ser uma espécie de iniciação que possibilita a abertura de um processo de revelação progressiva da verdadeira sabedoria ao buscador da verdade. É dito na tradição budista que, no momento da iluminação do Senhor Buda, estando em profunda meditação, uma enorme serpente aproximou-se e postou-se por trás e acima dele como que o protegendo e inspirando durante toda a experiência interior. Finalmente, a serpente é também o símbolo da kundalini, o fenômeno de subida da energia conhecida como ?fogo serpentino?, dormente no chacra básico, até o centro da cabeça, onde se encontra com a energia superior, causando a iluminação.  


        Portanto, os gnósticos e os ofitas cristãos, formavam os grupos de buscadores da verdade, ou sabedoria divina, fundados pelos discípulos mais chegados de Jesus. Mais tarde esses grupos passaram a ser conhecidos por diferentes nomes dependendo de características regionais e ênfase da doutrina externa exposta. Dentre os grupos mais ativos nos dois primeiros séculos de nossa era destacam-se os naasenos (palavra aramaica com o mesmo significado de ofitas, de origem grega), perates, sethianos (gnósticos de orientação judaica), docéticos (propunham que a natureza exterior do Cristo era ilusória), carpocráticos, basilidianos e valentinianos. Vale a pena mencionar que ainda hoje existem dois grupos remanescentes do movimento original no primeiro século de nossa era, conhecidos como mandeanos e drusos.  


Os mandeanos, também conhecidos como discípulos de São João, praticam seus rituais de batismo por imersão em água corrente, como fazia seu fundador, João o Batista. Atualmente, encontram-se pequenas comunidades de mandeanos na região sul do Iraque, principalmente em Basra, Amarah e Nasiriya, bem como no Irã, na província de Khuzistan, especialmente em Ahwaz e Shushtar. A denominação dessa seita deriva-se da antiga palavra ?mandeana? que significava ?percepção ou conhecimento?; portanto, o termo refere-se ?àquele que conhece, ou gnóstico.? A literatura existente sobre essa tradição é considerável, dado o número relativamente pequeno de seus membros. Dentre seu acervo literário destacam-se: "o Tesouro" (Ginza) e o "Grande Livro" (Sidra Rabba). Sua cosmologia é muito semelhante à dos antigos gnósticos, incluindo uma deidade suprema (Ferho) e um deus criador inferior (Ptahil). Os números sete e doze ocorrem com freqüência em sua hierarquia espiritual. O ponto alto da cosmogonia é a redenção, que ocorre com os ?Mistérios? que proporcionam a ?Gnosis da Vida.? [6]  


A referência mais confiável que temos sobre os drusos foi escrita há pouco mais de um século por Blavatsky. Essa autoridade informa que os misteriosos drusos do Monte Líbano são descendentes dos grupos originais de gnósticos, ou ofitas. Os drusos eram de origem copta, e caracterizavam-se por serem estudiosos e diligentes, podendo ser encontrados em pequenas comunidades em vários países do oriente médio. De acordo com Blavatsky, havia na sua época "cerca de 80.000 guerreiros, espalhados desde a planície oriental de Damas até a costa ocidental. Não fazem proselitismo, fogem da notoriedade, mantêm a fraternidade - na medida do possível - seja com os cristãos, seja com os muçulmanos, respeitam a religião de qualquer outra seita ou povo, mas jamais revelam seus segredos. Quanto aos não iniciados, jamais se lhes permitiu ver os escritos sagrados, e nenhum deles tem a mais remota idéia do local onde estão escondidos." [7] O pouco que se sabe a seu respeito vem de uma comunicação escrita por um de seus iniciados a Blavatsky, que aparentemente tinha autorização para fazê-lo. Nessa carta, é mencionado que os mandamentos da seita, erroneamente divulgados por outros autores, são da mais alta ética e comparáveis aos mais avançados códigos de outras tradições.
 

O grupo de maior repercussão no cenário ocidental e no oriente médio foi provavelmente o dos chamados maniqueus. Isso se deve ao impacto das idéias e do trabalho de seu fundador Mani, que no século III revolucionou a vida de muitas centenas de milhares de buscadores com suas revelações. Como não poderia deixar de ser, esse grupo foi imediatamente alvo de críticas por parte da então nascente Igreja Católica, sendo seu fundador perseguido e finalmente morto sob intensa tortura por parte das autoridades civis e religiosas, em circunstâncias que lembram o martírio do próprio Jesus. Mani deixou uma extensa obra literária e, apesar da constante perseguição a seus seguidores ao longo dos séculos, inúmeros grupos locais foram estabelecidos em diferentes países, geralmente com nomes diferentes para tentar escapar da perseguição sistemática a que eram submetidos. 
 

"A vitalidade dos maniqueístas permaneceu poderosa, não obstante as severas perseguições que suportaram durante o Império Romano, ateu e cristão; mas sobreviveram no Oriente e no Ocidente, tendo reaparecido com freqüência na Idade Média, em diferentes partes da Europa. O maniqueísmo ousou aquilo que os gnósticos jamais se aventuraram: entrar abertamente em conflito com a Igreja, no século V. Ademais, a autoridade civil auxiliou a religiosa na sua repressão. Os maniqueístas, onde quer que aparecessem, eram imediatamente atacados; foram condenados na Espanha no ano 380 e em Treves, em 385, por intermédio de seus representantes, os priscilianistas." [8]  


Com o passar do tempo, os herdeiros da tradição gnóstica e maniqueísta foram mudando de nome. Sem tentar um levantamento exaustivo da matéria, que não é o objetivo deste estudo, podemos indicar o aparecimento dos seguintes grupos: entre os séculos III e IX: Euchites, Magistri Comacini, Artífices Dionisianos, Nestorianos e Eutychianos; no século X: Paulicianos e Bogomilos; no século XI: Cátharos, Patarini, Cavaleiros de Rodes, Cavaleiros de Malta, Místicos Escolásticos; no século XII: Albigenses, Cavaleiros Templários, Hermetistas; no século XIII: a Fraternidade dos Winklers, os Beghards e Beguinen, os Irmãos do Livre Espírito, os Lollards e os Trovadores; no século XIV: os Hesychastas, os Amigos de Deus, os Rosa-cruzes e os Fraticelli; no século XV: os Fraters Lucis, a Academia Platônica, a Sociedade Alquímica, a Sociedade da Trolha e os Irmãos da Boêmia (Unitas Fratrum); no século XVI: a Ordem de Cristo (derivada dos Templários), os Filósofos do Fogo, a Militia Crucífera Evangélica e os Ministérios dos Mestres Herméticos; no século XVII: os Irmãos Asiáticos (Irmãos Iniciados de São João Evangelista da Ásia), a Academia di Secreti e os Quietistas; no século XVIII: os Martinistas; no século XIX: a Sociedade Teosófica. [9] O fato de um determinado grupo ter aparecido num século não significa que tenha atuado somente naquele período. Diversos grupos, como os cátaros, os albigenses, os rosa-cruzes, os templários e os alquimistas permaneceram ativos por dois ou mais séculos.  


Foge ao escopo desta obra descrever o trabalho e a doutrina desses grupos que, ao longo dos séculos, mantiveram acesa a chama da verdade, servindo como foco de transformação interior e inspiração para as transformações da sociedade de seus dias. Esses grupos geralmente trabalhavam veladamente, pois, quando conhecidos abertamente, eram invariavelmente perseguidos, como ocorreu com os albigenses no século XIII.  


Para entender o chocante genocídio dos albigenses, devemos lembrar que a insatisfação e as críticas generalizadas sobre o estado de podridão moral da Igreja na Idade Média fez com que o papado agisse com crescente rigor, não para promover uma renovação interior, mas para perseguir todos os dissidentes e potenciais inimigos, valendo-se de sua supremacia. O exemplo de virtude e religiosidade dos cátaros não podia ser deixado livre para florescer, pois iria certamente estimular movimentos semelhantes em outras regiões, solapando o poder da Igreja. Portanto, o Papa Inocêncio III e seus prelados atacaram os albigenses com toda a fúria dos fanáticos que vêem seus interesses ameaçados. A campanha de trinta anos contra os albigenses prenunciou um período de quinhentos anos de repressão brutal pela "Santa Inquisição" em todas as áreas de influência da Igreja, que se estendeu, mais tarde, às colônias européias nas Américas e na Ásia. [10]





[1] Samuel Angus, The Mystery-Religions and Christianity (N.Y.: Citadel Press, 1966), pg. 78-79.


[2] O termo gnosis, que significa conhecimento, no original grego, não é o conhecimento usual obtido pelas regras aceitas de raciocínio metódico, mas sim por revelação interior. Para os gnósticos, como para os ocultistas, a gnosis era um conhecimento que oferecia a salvação, portanto, era basicamente de natureza interior. Na definição de Reitzenstein a gnosis era: ?Conhecimento imeditato dos Mistérios de Deus, recebido por meio de relacionamento direto com a Deidade ... Mistérios que devem permanecer ocultos ao homem natural, um conhecimento que exercita, ao mesmo tempo, uma reação decidida em nosso relacionamento com Deus e também com nossa própria natureza ou disposição.? Citado por G.R.S. Mead em A Gnosis Viva do Cristianismo Primitivo (Brasília: Núcleo Luz, 1995). Para outro autor, ?Aqueles que tinham a gnosis sabiam o caminho para Deus, de nosso mundo material visível para o reino espiritual do ser divino; sua meta final era conhecer ou ?ver? a Deus que, às vezes, ia a ponto de tornar-se unido com Deus ou permanecer em Deus.? Roelof van Den Broek, Gnosticism and Hermeticism in Antiquity, em Gnosis and Hermeticism edit. por R.V.D. Broek e W.J. Hanegraaff (N.Y.: State University of New York Press, 1998), pg. 1.


[3] A expressão original, como formulada no Evangelho de Tomé (vers. 39, op.cit., pg. 131), era: ?Sede sábios como as serpentes e mansos como as pombas,? tendo sido mudada mais tarde para que as palavras de Jesus não fossem usadas para fortalecer os grupos ofitas. 


[4] Vide Helmuth Koester, History and Literature of Early Christianity (N.Y., Walter de Gruyter, 1987), pg. 231.


[5] Dion Fortune, The Mystical Qabalah (N.Y.: Samuel Weiser, 1996), pg. 25.


[6] Vide Kurt Rudolph, Gnosis. The Nature and History of Gnosticism (Harper SanFrancisco, 1977), pg. 343-366.


[7] H.P. Blavatsky, Isis Sem Véu (S.P.: Pensamento), vol. III, pg. 269-270.


[8] P. Marras, Secret Fraternities of the Middle Ages (Londres, 1865), pg. 19-20.


[9] Vide Isabel Cooper-Oakley, Maçonaria e Misticismo Medieval (S.P., Pensamento), pg. 21-22. 
                                                                                                               
[10] As atrocidades cometidas pela inquisição guardam um paralelo com os regimes totalitários da atualidade. Assim como os torturadores das ditaduras justificam seu barbarismo em nome da segurança nacional, os inquisidores justificavam suas atrocidades em nome do Deus de compaixão para a salvação das almas dos supostos hereges. A frieza com que esses inimigos da humanidade agiam com o respaldo dos bispos e do Papa, pode ser aquilatada numa obra chocante intitulada Manual dos Inquisidores, escrita por Nicolau Eymerich em 1376 e revista e ampliada por Francisco de Peña em 1578, ambos experientes inquisidores da ordem dos dominicanos. Esse livro foi publicado pela Fundação Universidade de Brasília em 1993, com uma excelente introdução de Leonardo Boff.


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Roman coin (AD 62/63)

Top of a Roman standard with Jupiter Dolichenus motif





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Iconografia Comunista


                                        

fonte: http://www.levir.com.br/ensinosdejesus.php 

Sobre os Ofitas (Wikipédia) -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Ofitas  



9 de nov. de 2010

Os Essênios


http://www.espacoholistico.com.br/imagens/vasoceramica.jpgEram originários do Egito, e durante a dominação do Império Selêucida, em 170 A.C., formaram um pequeno grupo de judeus, que abandonou as cidades e rumou para o deserto, passando a viver às margens do Mar Morto, e cujas colônias estendiam-se até o vale do Nilo.
Os essê
nios pertenciam a uma das cinco seitas judaicas da época, a saber:








Os Fariseus – Flexíveis na interpretação das escrituras, valorizavam a erudição, questionavam a tradição e adaptavam as leis ás circunstâncias. Acreditavam na alma imortal e na ressurreição, mas não eram messiânicos.

Os Saduceus – Aristocráticos estavam sempre ao lado de quem detinha o poder. Dominavam os serviços religiosos no Templo em Jerusalém, e interpretavam literalmente as leis. Negavam a imortalidade da alma e a ressurreição.

Os Sicários – “Homens com punhal” partilhavam das mesmas crenças dos fariseus, mas viam a guerrilha contra Roma como um preparo de ações maiores a serem realizadas na chegada do Reino de Deus.

Os Zelotas – De origem sacerdotal pregavam a expulsão dos romanos e a morte dos judeus que colaboravam com o invasor, chegando a matar os que se casavam com mulheres pagãs. Desencadearam a revolta contra os romanos que levou à Guerra Judaica( 66-70d.C.) Entre os seguidores de Jesus, Pedro, Judas e seu irmão Thiago teriam sido zelotas.

No meio da corrupção que imperava na época, os essênios conservavam a tradição dos profetas e o segredo da Pura Doutrina. De costumes irrepreensíveis, moralidade exemplar, pacíficos e de boa fé, dedicavam-se ao estudo espiritualista, à contemplação e à caridade, longe do materialismo avassalador. Segundo alguns estudiosos, foi nesse meio onde passou Jesus, no período que corresponde entre seus 13 e 30 anos.

Os essênios suportavam com admirável estoicismo os maiores sacrifícios para não violar o menor preceito religioso. Procuravam servir a Deus, auxiliando o próximo, sem imolações no altar e sem cultuar imagens. Eram livres, trabalhavam em comunidade, vivendo do que produziam. Em seu meio não havia escravos.

Tornaram-se famosos pelo conhecimento e uso das ervas, entregando-se abertamente ao exercício da medicina ocultista. Em seus ensinos, seguindo o método das Escolas Iniciáticas, submetiam os discípulos à rituais de Iniciação, conforme adquiriam conhecimentos e passavam para graus mais avançados. Mostravam então, tanto na teoria quanto na prática, as Leis Superiores do Universo e da Vida, tristemente esquecidas na ocasião.
Alguns dizem que eles preparavam a vinda do Messias. Eram uma seita aberta aos necessitados e desamparados, mantendo inúmeras atividades onde a acolhida, o tratamento de doentes e a instrução dos jovens eram a face externa de seus objetivos.
Muitos estudiosos acreditam que a Igreja Católica procura manter silêncio acerca dos essênios, tentando ocultar que receberam desta seita muitas influências. Não há nenhum documento que comprove a estada essénia de Jesus, no entanto seus atos são típicos de quem foi iniciado nesta seita.

A missão dos seguidores do Mestre Verdadeiro foi a de difundir a vinda de um Messias e nisto contribuíram para a chegada de Jesus. Na verdade, os essênios não aguardavam um só Messias, e sim, dois. Um originário da Casa de Davi, viria para legislar e devolver aos judeus a pátria e estabelecer a justiça.
Esse Messias-Rei restituiria ao povo de Israel a sua soberania e dignidade, instaurando um novo período de paz social e prosperidade. Jesus foi recebido por muitos como a encarnação deste Messias de sangue real. No alto da cruz onde padeceu, lia-se a inscrição: Jesus Nazareno Rei dos Judeus.
O outro Messias esperado nasceria de um descendente da Casa de Levi. Este Salvador seguiria a tradição da linhagem sacerdotal dos grandes mártires. Sua morte representaria a redenção do povo e todo o sofrimento e humilhação por que teria que passar em vida seria previamente traçado por Deus.
O Messias-Sacerdote se mostraria resignado com seu destino, dando a vida em sacrifício. Faria purgar os pecados de todos e a conduta de seus atos seria o exemplo da fé que leva os homens a Deus. Para muitos, a figura do pregador João Batista se encaixa no perfil do segundo Messias. Até os nossos dias, uma seita do sul do Irã, os Mandeanos, sustenta ser João Batista o verdadeiro Messias.
Vivendo em comunidades distantes, os essênios sempre procuravam encontrar na solidão do deserto o lugar ideal para desenvolverem a espiritualidade e estabelecer a vida comunitária, onde a partilha dos bens era a regra. Rompendo com o conceito da propriedade individual, acreditavam ser possível implantar no reino da Terra a verdadeira igualdade e fraternidade entre os homens. Consideravam a escravidão um ultraje à missão do homem dada por Deus.

Todos os membros da seita trabalhavam para si e nas tarefas comuns, sempre desempenhando atividades profissionais que não envolvessem a destruição ou violência. Não era possível encontrar entre eles açougueiros ou fabricantes de armas, mas sim grande quantidade de mestres, escribas, instrutores, que através do ensino passavam de forma sutil os pensamentos da seita aos leigos. O silêncio era prezado por eles. Sabiam guardá-lo, evitando discussões em público e assuntos sobre religião. A voz, para um essénio, possuía grande poder e não devia ser desperdiçada. Através dela, com diferentes entonações, eram capazes de curar um doente. Cultivavam hábitos saudáveis, zelando pela alimentação, físico e higiene pessoal. A capacidade de predizer o futuro e a leitura do destino através da linguagem dos astros tornaram os essênios figuras magnéticas, conhecidas por suas vestes brancas. Eram excelentes médicos também. Nos escritos dos rosacruzes, são considerados como uma ramificação da Grande Fraternidade Branca, fundada no Egito no tempo do faraó Akenaton.

Em cada parte do mundo onde se estabeleceram, eles receberam nomes diferentes, às vezes por necessidade de se protegerem contra as perseguições ou para manterem afastados os difamadores. Mestres em saber adaptar seus pensamentos às religiões dos países onde se situavam, agiram misturando muitos aspectos de sua doutrina a outras crenças. O saber mais profundo dos essênios era velado à maioria das pessoas. É sabido também que liam textos e estudavam outras doutrinas. De sua teologia e de suas doutrinas se conhece muito pouco. Não se sabe se tiveram outros livros sagrados além do Pentateuco.
Para ser um essênio, o pretendente era preparado desde a infância na vida comunitária de suas aldeias isoladas. Já adulto, o adepto, após cumprir várias etapas de aprendizado, recebia uma missão definida que ele deveria cumprir até o fim da vida. Vestidos com roupas brancas, ficaram conhecidos em sua época como aqueles que “são do caminho”. Foram fundadores dos abrigos denominados “beth-saida” , que tinham como tarefa cuidar de doentes e desabrigados em épocas de epidemia e fome. Os beth-saida anteciparam em séculos os hospitais, instituição que tem seu nome derivado de hospitaleiros, denominação de um ramo essênio voltado para a prestação de socorro às pessoas doentes. Fizeram obras maravilhosas, que refletem até os nossos dias.

COTIDIANO E FILOSOFIA DOS ESSÊNIOS

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/83/Josephus.jpg/220px-Josephus.jpgÉ possível conhecer o dia-a-dia dos essênios a partir de informações do historiador judeu Flávio Josefo ( 37 d.C – 100 d.C) que com 16 anos viveu durante três anos com um mestre essênio e deixou documentos relatando as suas experiências.
De acordo com Josefo, os membros da seita acordavam antes do nascer do Sol. Permaneciam em silêncio e faziam suas preces até o momento em que um mestre dividia as tarefas entre eles de acordo com a aptidão de cada um. Trabalhavam durante 5 horas em atividades como o cultivo dos vegetais ou o estudo das escrituras. Terminadas as tarefas, banhavam-se em água fria e vestiam túnicas brancas. Comiam uma refeição em absoluto silêncio, só quebrado pelas orações recitadas pelo sacerdote no início e no fim. Retiravam então a túnica branca, considerada sagrada, e retornavam ao trabalho até o pôr-do-sol. Tomavam outro banho e jantavam com a mesma cerimônia.


Josefo também nos conta que os essênios tinham com o solo uma relação de devoção. Um dos rituais comuns deles consistia em cavar um buraco de cerca de 30 centímetros de profundidade em um lugar isolado dentro do qual se enterravam para relaxar e meditar.
As refeições eram frugais, com legumes, azeitonas, figos, tâmaras e, principalmente, um tipo muito rústico de pão, que quase não levava fermento. Eles possuíam pomares e hortos irrigados pela água da chuva, que era recolhida em enormes cisternas e servia como bebida. Além dela, as bebidas essênias se resumiam ao suco de frutas e “vinho novo”, um extrato de uva levemente fermentado.
Os hábitos alimentares frugais e a vida metódica dos essênios garantiam-lhes uma vida saudável. Segundo Josefo, muitos deles teriam atingido idade extraordinariamente avançada.
Uma das principais obras que permitem o estudo sobre a filosofia essênia é um manuscrito encontrado em 1785 por um historiador francês em viagens pelo Egito e pela Síria. É um dialogo entre Josefo e o mestre essênio Banus a respeito das leis da natureza. Abaixo estão algumas definições:

O Bem - Tudo aquilo que preserva ou produz coisas para o mundo, como “o cultivo dos campos, a fecundidade de uma mulher e a sabedoria de um professor”.
O Mal - O que causa a morte, como a matança de animais. Por esse motivo, o sacrifício de animais, mesmo que para a alimentação, é condenável.
A Justiça - O homem deve ser justo porque na lei da natureza as penalidades são proporcionais às infrações. Deve ser pacífico, tolerante e caridoso com todos, “para ensinar aos homens como se tornarem melhores e mais felizes”.
A Temperança - Sobriedade e moderação das paixões são virtudes, pois os vícios trazem muitos prejuízos à saúde.
A Coragem - Ela é essencial para “rejeitar a opressão, defender a vida e a liberdade”.
A Higiene - Uma outra virtude essencial para os essênios para “renovar o ar, refrescar o sangue e abrir a mente à alegria”.
O Perdão - No caso de as leis não serem cumpridas, a penitência é simples e para se obter o perdão, deve-se “fazer um bem proporcional ao mal causado”.

JESUS CRISTO TERIA SIDO UM ESSÊNIO?

Há dezenas de dúvidas sobre os essênios, mas a hipótese de que Jesus Cristo teria tido contato com eles é uma das mais intrigantes.
Não há relatos sobre onde esteve nem o que Jesus fez entre seus 13 e 30 anos. Assim, a hipótese que os estudiosos adotam é a de que Jesus, durante esse tempo, esteve com os essênios e teve sua “clarividência” despertada junto a esse povo.
Outro fato intrigante, é que, sendo os essênios uma das três mais importantes seitas da Palestina naquela época, por que o evangelho não fala deles?
Teria sido o evangelho “censurado”? A verdade ainda é desconhecida, mas, de acordo com os manuscritos do mar Morto, eis alguns costumes dos essênios:
• Batismo.
• Santa Ceia.
• Caridade.
• Andavam em grupo de doze.
• Jejum.
• Curandeirismo (por imposição das mãos).
O tipo de vida dos essênios se parecia muito com a dos primeiros cristãos, o que faz algumas pessoas pensarem que Jesus fez parte dessa seita antes de começar sua missão pública.
O que se tem certeza é de que Jesus pode tê-la conhecido, mas não há nada que prove que Ele a tenha adotado, e tudo o que se escreveu sobre esse assunto não tem comprovação.

O LEGADO ESSÊNIO

No fim de 1946 (Novembro ou Dezembro) três pastores em Ain Feshka, oásis próximo ao Mar Morto, descobrem em uma das grutas da região uns jarros de argila e em um deles três rolos escritos em hebraico antigo, o que dificulta a identificação. Esta gruta está situada nos rochedos de uma falésia a cerca de 1300 metros ao norte de algumas ruínas que os árabes conhecem pelo nome de Khirbet Qumran.
Assim, com a descoberta, os arqueólogos relacionam o grupo que vivia nessas ruínas com os possíveis responsáveis pelos manuscritos encontrados. E ao redor, outras grutas são encontradas contendo outros fragmentos cuidadosamente embalados em jarros, o que leva a crer que aqueles documentos não estariam ali por acaso.
No total, são recuperados, em 11 grutas de Qumran, 11 manuscritos mais ou menos completos e milhares de fragmentos de mais de 800 manuscritos em pergaminhos e papiros. Escritos em hebraico, aramaico e grego, cerca de 225 manuscritos são cópias de livros bíblicos, sendo o restante livros apócrifos. Os manuscritos estão sendo traduzidos até hoje e muito já foi descoberto.

José Maria Vidotto 

O Evangelho Essênio da Paz

Em 1923 Edmond Bordeaux Szekely, filologista, arqueólogo e investigador, teve acesso aos arquivos do Vaticano e encontrou um manuscrito em aramaico chamado “O Evangelho Essênio da Paz”, da autoria do apóstolo João. Sem autorização da igreja, e tendo-lhe custado a excomunhão, em 1928 publica a tradução do chamado primeiro livro.

Em 1979 ao morrer encarrega um seu amigo e colaborador de publicar o quarto e último volume dois anos após a sua morte.


O Evangelho Essênio da Paz mostra que Jesus foi um Mestre dessa comunidade, reporta como nenhum outro a relação entre o Mestre e os seus Discípulos, revelando um conjunto de ensinamentos que eram reservados a estes.


Entre muitas revelações surge um Jesus Cristo vegetariano, pleno de amor e compaixão por todas as formas de vida e defensor de um modo de vida natural como é descrito no livro “um”. Ensinando que só pela via da compaixão e purificação do Templo, que é o corpo humano, é possível alcançar a ressureição.
 

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