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14 de jul. de 2012

Aprendendo com o Medo

O palestrante aborda os aspectos psicológicos do medo e suas relações com o pensamento, com o apego e com o desejo. Citando e refletindo sobre ensinamentos teosóficos e de Jiddu Krishnamurti, o palestrante nos trás profundas reflexões sobre como compreender e entender o medo de forma a engrandecer e elevar a vida humana como um todo.

 


 

29 de jun. de 2012

Acesso ao Eterno; Disciplina e Via Espontânea


 

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiYEe65fdIcrB4hKRRyju9z4oRkMZCUGSJCGP4_Knl1Jy39d_eHmU-ZMq6nSwUV-RnHp3XhJR9WYOEyZi-6UMZNRVraZSxcnIJi-fAPwbr0GPioZDZH024wH_DoZbsAxD6Kb3TRnvi5qgo/s1600/mente.jpgQuando a mente busca, não pelo desejo de resultado, mas pela simples necessidade de buscar, porque percebeu a falsidade do que estava fazendo - então esse processo de investigação é disciplina que nenhuma relação tem com auto-aperfeiçoamento. (…) A verdade é para ser achada, e não para se crer, e para achá-la a mente deve ser livre. (…) (O Homem Livre, pág. 147)

A virtude, pois, é essencial para se compreender a Realidade, e virtude não é respeitabilidade. Ser virtuoso, sem procurar tomar-se virtuoso, exige extraordinária investigação, lúcido pensar. Descobrireis, então, que existe uma disciplina não relacionada com a disciplina da moralidade social; uma disciplina que é essencial, porquanto torna a mente capaz de seguir com incomum velocidade o célere movimento da Verdade. (…) (Idem, pág. 147)



Se desejais compreender o que é a Realidade, vossa mente deve ser capaz de extraordinária lucidez, silêncio, velocidade; e não é lúcida, não é silenciosa, não é veloz a mente quando agrilhoada a qualquer forma de disciplina. (…) Ao compreenderdes isso, vereis que existe uma disciplina, uma austeridade não resultante de atividade egocêntrica; e essa disciplina é que é essencial, para que a mente possa seguir o rápido movimento da Verdade. (Idem, pág. 147)

Ora, a mente que busca a Realidade encontra, nessa própria busca, um “processo” de disciplina em que não há experimentar por parte do “experimentador”. Para que o “experimentador” não tenha experiências, requer-se extraordinária lucidez, espantosa firmeza de pensamento, de compreensão; e dessa compreensão da totalidade da mente, que é autoconhecimento, provém uma disciplina, uma conduta, um comportamento produtivo daquela austeridade tão essencial ao “abandono” (de si mesmo). Com esse “abandono” (…) encontra-se a Beleza. Só a mente que de todo se abandona é realmente austera, e ela é que pode compreender a Verdade, a Realidade. (O Homem Livre, pág.148)

Pergunta: Não é necessária a prática de uma disciplina regular?
Krishnamurti: Um dançarino ou um violinista pratica muitas horas por dia a fim de manter os dedos macios e os músculos flexíveis. Ora, é possível mantermos a mente maleável, reflexiva, compassiva, com o praticar determinado sistema de disciplina? Ou só podeis conservá-la aberta, aguda, com a percepção constante do pensamento-sentimento? (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 170)

Ao passo que, se nos tornarmos conscientes e compreendermos que pensamos em termos de sistemas, fórmulas e padrões, então o pensamento-sentimento, libertando-se deles, tornar-se-á pouco a pouco flexível, alerta e agudo. Se considerarmos plenamente (…) seremos capazes de compreender e sentir ampla e profundamente. (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 170-171)

Essa larga e profunda percepção traz a própria disciplina, disciplina não imposta, exterior ou interiormente (…) resultante do conhecimento de nós mesmos, (…) do correto pensar, da compreensão. Tal disciplina é criadora, não forma hábito nem estimula a indolência. (Idem, pág. 171)
Pergunta: Todas as religiões têm encarecido a necessidade de alguma espécie de disciplina. (…) Mas pareceis dar a entender que tais disciplinas constituem um obstáculo. (…)
(…) O que em geral acontece é que escolheis o que é mais conveniente, (…) satisfatório; simpatizais com o homem, sua aparência, suas idiossincrasias. (…) Mas, deixemos de lado tudo isso. (…) (Solução para os nossos Conflitos, pág. 79-80)

Que implica a disciplina? Por que nos disciplinamos (…)? A disciplina e a inteligência são compatíveis uma com a outra? (…) A maioria das pessoas acha que precisamos, mediante dada espécie de disciplina, subjugar ou controlar o bruto, o ignóbil que está em nós. Mas esse bruto, essa coisa ignóbil, é suscetível de controle mediante disciplina? (Solução para os nossos Conflitos, pág. 81)
 
Que entendemos por disciplina? (…) Um padrão de conduta que, se praticado com diligência, aplicação e muito ardor, me dará, no fim, aquilo que desejo. Poderá ser penoso, mas estou decidido a segui-lo. Isto é, o “eu”, essa entidade agressiva, interesseira, hipócrita, cheia de ansiedades e temores; esse “eu”, que é a causa do bruto que em nós existe, nós o desejamos transformar, subjugar, destruir. (Idem, pág. 81)

E como se consegue isso? Conseguir-se-á pela disciplina, ou pela compreensão inteligente do passado do “eu”, da identidade do “eu”? (…) Isto é, devemos destruir o bruto (…) pela compulsão, ou pela inteligência? E a inteligência se consegue pela disciplina? (…) (Solução para os nossos Conflitos, pág. 81-82)

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Outros sim (…) O temor está no fundo de nosso desejo de ser disciplinados, mas o desconhecido não pode ser colhido na rede da disciplina. Pelo contrário, o desconhecido necessita de liberdade e não do padrão da vossa mente. Essa a razão por que é essencial a tranqüilidade da mente. Quando a mente está cônscia de estar tranqüila, já não está tranqüila; (…) (Solução para os nossos Conflitos, pág. 88)

(…) Pode o que é real ser percebido através da disciplina ou da vontade? Isto é, pela compulsão, pelo esforço do intelecto, curvando, controlando, disciplinando, guiando, forçando o pensamento em uma direção particular, podeis conhecer-vos? E podeis conhecer-vos por meio de padrões de conduta, torcendo o vosso pensamento e o vosso sentimento aos seus ditames (…)? (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 77)

Há, então, o outro estado, que é espontâneo. Podeis conhecer-vos somente quando estiverdes despreocupados, quando não estiverdes calculando, nem protegendo, nem constantemente observando para guiar, para transformar, para subjugar, para controlar; quando vos virdes inesperadamente, isto é, quando a mente não tiver preconcepções com relação a si mesma, quando estiver aberta, não preparada para defrontar o desconhecido. (Idem, pág. 78)

Assim, a espontaneidade só pode surgir quando o intelecto não se está defendendo, (…) protegendo, quando já não teme por si; e isso só pode suceder partindo do interior. Isto é, o espontâneo deve ser o novo, o desconhecido, o incalculável, o criativo. (…) Observai os vossos próprios estados emocionais e vereis que os momentos de grande alegria, de grande êxtase, não são premeditados; eles acontecem, misteriosa, obscura, desconhecidamente. (…) (Idem, pág. 79)

A humildade, pois, não é uma coisa que se deve alcançar com esforço. Alcançá-la-eis naturalmente, facilmente, “graciosamente”, uma vez percebido como um processo total esse movimento do exterior e do interior. Então começareis a aprender. Aprender é o estado da mente que jamais acumula experiência como memória. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 213)

E vereis que da humildade provém a disciplina. Em maioria, não somos disciplinados. Submetemo-nos, ajustamo-nos, reprimimos, sublimamos. (…) Submissão não é disciplina e, sim, meramente, um produto do medo; por conseguinte, torna a mente estreita, estúpida, embotada. (Idem, pág. 213)

Refiro-me a uma disciplina que se torna existente espontaneamente, quando há esse extraordinário senso de humildade, e a mente, por conseguinte, se acha num “estado de aprender”. Não é então necessário impor à mente nenhuma disciplina, porquanto o “estado de aprender” é, em si mesmo, disciplina. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 213)

Espero estar explicando isso bem claramente. Refiro-me a uma disciplina completamente diferente, uma disciplina que nasce espontaneamente, quando se compreende esse extraordinário processo da vida, não em fragmentos, mas como um todo indiviso. Quando compreendeis a vós mesmo, não “especializado” como músico, artista, orador, iogue, etc., mas como ser humano total, então há um “estado de aprender”, e esse mesmo “estado de aprender” é disciplina na qual não há ajustamento, imitação. A mente não está sendo moldada de acordo com nenhum padrão e, portanto, é livre, e nessa liberdade há um espontâneo senso de disciplina. (Idem, pág. 213-214)

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(…) Podemos viver mil vidas, praticando a autodisciplina, sacrificando, subjugando, meditando, mas por esse meio nunca seremos levados ao direto percebimento, o qual só é realizável em plena liberdade, e não por meio de controle, de subjugação, de disciplinas; e só pode aparecer a liberdade quando a mente se torna cônscia, de pronto, de seu condicionamento, pois então se verifica a cessação desse condicionamento. (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 10)

Quase todos nós desejamos encontrar uma pessoa autorizada que nos ensine o que devemos fazer. (…) Ora, pode-se chegar a Deus - essa entidade suprema, inefável, indefinível - (…) pela disciplina, pela observância de um padrão de ação? Queremos alcançar determinado alvo pela disciplina, reprimindo, sublimando ou substituindo (…) (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 155-156)
 
Que implica a disciplina? Por que nos disciplinamos (…)? Podem coexistir a disciplina e a inteligência? A maioria das pessoas crê que podemos, por meio de certa disciplina, subjugar ou controlar o bruto que em nós reside. Esse bruto, (…) monstro, pode ser controlado pela disciplina? O “eu”, entidade agressiva, egoísta, hipócrita, inquieta, medrosa (…), esse “eu”, que gerou o bruto em nós, queremos transformá-lo, subjugá-lo, destruí-lo. (Idem, pág. 156)

Como consegui-lo? Pode-se conseguir isso por meio de disciplina, ou só pela compreensão inteligente do passado do “eu”, da natureza do “eu”, sua origem, etc.? Será destruído o bruto que existe no homem pela compulsão, ou só pela inteligência? Inteligência é questão de disciplina? (…) (Idem, pág. 156)

Antes de tudo, deve a mente estar tranqüila, (…) não perturbada, para que possa compreender qualquer coisa, principalmente aquilo que não conheço, (…) que minha mente é incapaz de descobrir, ou seja (…) Deus. (…) Pode essa tranqüilidade profunda ser atingida por meio de qualquer forma de compulsão? (…) A resistência, pois, não é o caminho. (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 157)

O primeiro requisito, não como disciplina, é evidentemente a liberdade; só a virtude pode dar essa liberdade. Avidez é confusão; cólera é confusão; malevolência é confusão. Ao perceberdes isso, estais livre dessas coisas; não mais lhes resistis, porque vem a compreensão de que só em liberdade podeis descobrir, e que toda forma de compulsão não é liberdade, não permite descobrimento. (Idem, pág. 158)

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A palavra “disciplina” significa aprender de um homem que sabe; supõe-se que vós não sabeis e tendes de aprender dele. É isso o que implica a palavra “disciplina”. Mas, aqui, não a vamos empregar com o sentido de aprender de outrem, mas, sim, com o significado de observar a si próprio. A observação de si próprio exige uma disciplina em que não haja repressão, imitação, obediência ou, sequer, ajustamento; (…) O próprio ato de aprender é, em si, disciplina, já que requer muita atenção, grande energia e “intensidade” e instantaneidade de ação. (Fora da Violência, pág. 21)

As atitudes cultivadas da moça, e aquelas disciplinadas do asceta chamado religioso, são, igualmente, resultados deformados de uma mente vulgar, pois ambos repelem a natural espontaneidade. Temem-na, um e outro, porque a espontaneidade os revela, a si próprios e a outros, tais como são; ambos estão diligenciando destruí-la, e a medida do seu sucesso é o completo ajustamento ao padrão. (…) A espontaneidade é a única chave que abre a porta do que é. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 132)

A reação espontânea revela a mente tal como é; mas o que se revela é imediatamente adornado ou destruído, e, com isso, se põe fim à espontaneidade. A destruição da espontaneidade é própria da mente vulgar. Só na espontaneidade, na liberdade, pode haver descobrimento. A mente disciplinada não pode descobrir; poderá funcionar com muita eficiência (…); não pode, porém, desvelar o insondável. É o medo que cria a resistência, chamada disciplina; mas o espontâneo descobrimento do temor é libertação do temor. Ajustar-se a um padrão é medo, e este só pode gerar conflito, confusão e antagonismo. (Idem, pág. 132)

Sem espontaneidade não pode haver autoconhecimento; e sem autoconhecimento a mente é moldada por influências passageiras. (…) O que se junta peça por peça pode ser desfeito, e o que não foi ajuntado só pode ser descoberto pelo autoconhecimento. O “eu” é uma coisa que foi ajuntada, e, só quando se desmancha o “eu”, pode aquilo que não é resultado de influência, que não tem causa ser conhecido. (Idem, pág. 132-133)

“Parece uma coisa interminável, essa constante análise, introspecção, vigilância. Tudo já tentei: gurus de caras raspadas, gurus barbados, sistemas de meditação - o “repertório” que bem conheceis. No fim de tudo, a gente fica de boca seca e oco por dentro.”
Por que não começar pelo outro lado, o lado que desconheceis - a outra margem que não podeis enxergar desta margem? Começai com o desconhecido, em lugar do conhecido, pois o constante exame e análise só têm o efeito de condicionar mais ainda o conhecido. Se vossa mente viver com suas raízes no outro lado, todos os vossos problemas deixarão de existir. (A Outra Margem do Caminho, pág. 124)

“Mas, como posso começar do outro lado? Eu o desconheço, não posso vê-lo.”
Essa pergunta - como posso começar do outro lado? - tem sua base neste lado. Portanto, não a façais, e parti do outro lado, que desconheceis completamente, de uma outra dimensão que pensamento, malgrado sua sagacidade, é incapaz de apreender. (A Outra Margem do Caminho, pág. 124)

“Não vejo como posso começar daquele lado. Em verdade, não compreendo essa vaga asserção. Eu só posso me dirigir a um lugar que conheça.”
Mas, que é que conheceis? Só conheceis uma coisa já terminada, acabada. Só conheceis o ontem, e nós estamos dizendo: parti daquilo que desconheceis, vivei com vossas bases lá. (…) Mas, se viveres com o desconhecido, estareis vivendo em liberdade, agindo com base na liberdade, e isso, afinal, significa amor. Se disserdes: Eu sei o que é o amor” - nesse caso não sabeis o que é ele. (…) Já que não é isso, vivei então com aquilo que desconheceis. (A Outra Margem do Caminho, pág. 125)

“Não sei o que é isso de que estais falando. (…)”
Estou fazendo uma pergunta muito simples. Estou dizendo que, quanto mais se cava, mais há para cavar. Esse mesmo ato de cavar é condicionamento, e cada porção que se retira com a pá forma um degrau - degraus que não levam a parte alguma. Quereis que outros façam para vós os degraus, ou quereis vós mesmo fazer os degraus que vos levarão a uma dimensão de todo diferente? (…) Portanto, abandonai tudo e parti do outro lado. Mantende silêncio, e o descobrireis. (A Outra Margem do Caminho, pág. 125)
Desejo explicar hoje que há um modo de viver naturalmente, espontaneamente, sem a constante fricção da autodisciplina, do ajustamento. Quando viveis completamente na harmonia de vossa mente e coração, então o vosso agir é natural, espontâneo, sem esforço. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 130)

(…) Ninguém pode, de modo algum, forçar a espontaneidade. Nenhum método vos dará a espontaneidade. (…) Nenhuma disciplina produz a alegria espontânea do desconhecido. Quanto mais vos esforçardes para ser espontâneo, tanto mais a espontaneidade se afasta e se torna oculta e obscura. (…) Tendes de vos aproximar dela negativamente, não com a intenção de capturar o desconhecido, o real. (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 81)

Se não tiverdes simpatia nem afeição, jamais podereis alcançar ou identificar-vos com a meta. A mente que está contente e satisfeita nunca adquirirá simpatia, nem tampouco dará entendimento a outrem. Tenho observado pessoas que desejam muito ajudar a outrem, mas não sabem como fazê-lo. São incapazes de se colocar no lugar de outrem, e assim perceber seu ponto de vista. (Vida em Liberdade, em “Carta de Notícias” da ICK nº 1 a 6, de 1945, II, pág. 15)

 

22 de nov. de 2011

Mundo do Porvir; Nova Ordem, Princípios, Ensaios...

...O indivíduo, por conseguinte, é que é importante, e não a sua idéia ou aquele a quem segue, ou a sua pátria, ou a sua crença. Vós é que tendes importância, e não a ideologia ou a nação, a bandeira ou o credo a que pertenceis; (…) Esses fatores de condicionamento podem, num dado nível, ser úteis como conhecimento; mas, noutro nível, (…) tornam-se eles daninhos e destrutivos em extremo. (…) (Nosso Único Problema, pág. 82-83)


http://farm3.static.flickr.com/2036/2399167382_1ce76a128f.jpgSe queremos ter paz no mundo, não podemos mais pertencer a nenhuma nacionalidade. Aqueles que são pessoas importantes no mundo, que têm posição, prestígio, não desejarão naturalmente fazer nenhuma experiência nesse sentido (…). Só as pessoas comuns, aquelas que não têm nem poderio nem posição e que lutam e se esforçam por compreender, são essas, talvez, as que começarão a experimentar e a descobrir por si mesmas. (Viver sem Temor, pág. 23)

(…) A submissão do homem aos interesses materiais equivale, em última análise, a provocar guerras e catástrofes econômicas e sociais. Procurar o enriquecimento por meio de coisas, sejam elas manufaturadas, sejam produto do intelecto, é criar pobreza interior, (…) desventura. O acúmulo de tais riquezas e a relevância que lhes atribuímos privam o pensamento-sentimento de compreender o real, o único fator capaz de trazer ordem, clareza, felicidade. (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 152)

Por certo, toda mudança exige ordem. Vemo-nos atualmente num estado de desordem, e, para se sair da desordem, necessita-se de ordem: ordem social, ordem dentro de nós mesmos, e ordem em nossos valores (…) perspectiva das coisas. Assim, pois, mudar (…) significa estar livre para estabelecer a ordem. (…) A sociedade teme que a liberdade acarrete desordem, porque está satisfeita em viver nessa desordem a que chama “ordem”. (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 26)

Assim, quando emprego a palavra “mudança”, entendo: “mudança da desordem para a ordem”; porque, como indivíduos humanos, não nos achamos em ordem. Estamos em conflito, (…) confusos, ambiciosos, ávidos, invejosos (…) Temos medo, terror, de tantas coisas; e alterar inteiramente essa estrutura de medo, significa promover a ordem. (…) (Idem, pág. 26)

(…) A ordem, portanto, não é produto de revolta, porque a revolta contra a sociedade é uma reação que só produzirá uma série de ações dentro dos limites da estrutura social, e, como acontece com o comunismo ou qualquer outra espécie de reação, volta-se, com o tempo, ao ponto de partida. (Idem, pág. 26-27)

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A ordem - que é em essência o começo e o fim da virtude - não surge (…) mediante ato deliberado. Qualquer ato deliberado para estabelecer a ordem é imoral (…) A ordem social que estabelecemos em várias partes do mundo baseia-se (…) na competição, na inveja e na brutalidade. Nossa ordem social é desordem e, por conseguinte, imoral. Não estou condenando a sociedade, porém apenas discriminando fatos. (O Descobrimento do Amor, p. 111)

Mas a ordem é negada por causa da própria estrutura básica, psicológica da sociedade. Ainda que se proclame o contrário, a sociedade está notoriamente baseada na competição, na avidez, no impulso agressivo (…) Em tal sociedade não pode existir liberdade (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 116)

A ordem só pode nascer do percebimento da desordem. Não podeis criar a ordem; percebei bem esse fato. O que podeis fazer é tornar-vos cônscios da desordem existente tanto no exterior como no interior. Uma mente desordenada não pode criar nenhuma ordem, porque não sabe o que significa ordem.  Poderá unicamente (…) criar um padrão a que chama “ordem” e, depois, tratar de ajustar-se a esse padrão. Mas, se a mente se torna cônscia da desordem em que está vivendo - ou seja, do negativo, sem projetar o positivo - a ordem se torna então algo extraordinariamente criador, um movimento vivo. (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 121)


A ordem que vem da compreensão da desordem, não segue nenhum plano previamente traçado (…) nenhuma autoridade, ou vossa própria experiência. Essa ordem, é óbvio, deve surgir sem se fazer nenhum esforço - pois o esforço deforma -, sem se exercer nenhum controle. (Fora da Violência, pág. 78)

Controle supõe repressão, rejeição ou exclusão, separação entre o “controlador” e “a coisa controlada”, supõe conflito. (…) Dizeis: “como pode haver ordem sem controle, sem a ação da vontade?” - mas, como já dissemos, controle implica separação entre “o controlador” e a coisa que vai ser controlada; nessa divisão, há conflito, deformação. Quando se percebe isso realmente, está terminada a separação entre “controlador” e “coisa controlada” e, por conseguinte, há compreensão. (…) (Idem, pág. 78)

A ordem não é um plano, um padrão de vida. Ela só vem ao compreendermos o “processo” total da desordem. (…) Nossa vida é desordem, ou seja, contradição - dizer uma coisa, fazer outra, (…) Essa é uma existência fragmentária e, dentro dessa fragmentação, queremos descobrir uma espécie de ordem. (…) A mente sujeita ao controle e à disciplina, padrão estabelecido pela própria pessoa, pela sociedade ou por determinada cultura, não é livre, é (…) deformada. (…) E pela compreensão da desordem, de como se origina ela, surge a ordem - uma coisa viva. (Fora da Violência, pág. 117)

A ordem, pois, é necessária, e a própria compreensão da desordem cria sua peculiar disciplina, e esta é ordem, sem repressão nem ajustamento. (…) Disciplina significa “aprender”, e não acumular conhecimentos mecânicos; cumpre-nos aprender a respeito da vida desordenada que estamos levando (…) Se o estamos observando em nós mesmos, surgirá então, naturalmente, a ordem, a liberdade; estaremos livres de toda e qualquer autoridade e, por conseguinte, do medo. Poderemos errar, mas saberemos corrigir imediatamente os nossos erros. (Idem, pág. 117-118)

A ordem, conforme me parece, só pode realizar-se ao descobrirmos por nós mesmos o que gera desordem; da compreensão do verdadeiro fator da desordem, nascerá naturalmente a ordem. (…) Assim, a ordem a que nos referimos não é um ato positivo, porém só se realiza pela compreensão e negação da desordem. Mas, da compreensão da desordem resulta uma ordem natural. (…) (A Suprema Realização, pág. 222-223)

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Cumpre-nos averiguar o que é que gera a desordem, tanto no mundo exterior como no interior. A compreensão da desordem exterior traz a compreensão da desordem interior. Mas essa desordem que dividimos em “exterior” e “interior” é essencialmente uma só e mesma coisa; (…) porquanto cada um de nós (…) é ao mesmo tempo sociedade e indivíduo. O indivíduo não está separado da sociedade; ele criou a estrutura psicológica da sociedade, e nela se acha todo enredado. Se trata de libertar-se dessa estrutura psicológica. (Idem, pág. 223-224)

Ordem significa um estado mental em que não há contradição e, portanto, nenhum conflito. Isso não implica estagnação ou declínio. A ordem que obedece a uma fórmula, a um ideal ou conceito é, simplesmente, desordem. Se um ente humano se ajusta a um padrão de pensamento - uma certa coisa ideal que ele deveria ser - nesse caso está meramente a imitar, a ajustar-se, a disciplinar-se, a forçar-se, a fim de adaptar-se a um molde. (…) (A Essência da Maturidade, pág. 21)

Ora, (…) estamos começando a ver o que é necessário, e que a ordem, a absoluta ordem interior, é indispensável. Há duas espécies de ordem: a primeira é a ordem gerada pela disciplina, a ordem do soldado, exercitado (…) para obedecer, ajustar-se, cumprir instruções. (…) Essa é (…) uma ordem puramente mecânica e insignificante. (Onde está a Bem-Aventurança, pág. 56)

Mas, há outra ordem, de espécie totalmente diferente, não dependente de ajustamento, de imitação, de padrão algum. (…) Porque a liberdade é absolutamente necessária. (…) E a liberdade não vem por meio da disciplina, mas por meio da ordem - não a ordem mecânica da respeitabilidade, (…) que a sociedade quer impor ao homem, (…) de uma sociedade corrupta, em decomposição. A ordem a que nos referimos é de espécie e dimensão totalmente diferentes; ela vem com a compreensão da desordem. Da negação do que não é verdadeiro, vem o positivo. (Idem, pág. 56)

Passemos, pois, a descobrir o que é a desordem. Toda a atual estrutura social baseia-se na desordem, com divisões de classe e de outra espécie. Quando cada homem só está a trabalhar para si próprio, a competir, a endeusar o êxito e a fama - isso faz parte da desordem, tanto exterior como interior. Desordem significa conflito interior, profundo, na estrutura psicológica; e conflito exterior, com o próximo, com a esposa ou marido. (Onde está a Bem-aventurança, pág. 56-57)

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Existirá sempre conflito enquanto houver atividade egocêntrica. E o conflito gera, necessariamente, a desordem. Há a desordem decorrente das nacionalidades (…); a desordem causada pelas religiões, separando as pessoas (…) E, para descobrirmos o que é a ordem (e ela existe dentro de nós, a ordem absoluta, e não uma ordem relativa, circunstancial: ordem total e absoluta) - para descobrirmos o que é a ordem, temos de compreender o que é a desordem, (…) a desordem existente no mundo e os fatores que a produzem. (…) (Idem, pág. 57)

A ordem, pois, é virtude. (…) A ordem, como a virtude, não é cultivável; se cultivais a humildade, não sois, de certo, humilde (…) O que se pode fazer é apenas ver a desordem total existente dentro e fora de nós - vê-la! (…) Não se pode ver a desordem por meio de explicações, (…) de análise das várias causas da desordem. (Onde está a Bem-Aventurança, pág. 57)

O homem, no mundo inteiro, está sendo organizado - econômica, social e religiosamente. Vive em cidades densamente povoadas, em arranha-céus, em “gavetas”, em “caixas”. (…) E, enredado nessa espantosa “eficiência” organizadora (…), busca o homem fronteiras mais longínquas, espaço mais amplo, (…) ilimitado, sem horizonte, sem margens. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 135)

Vós não deveis seguir a ninguém, inclusive a mim mesmo. Pela vossa voluntária compreensão é que chegareis a criar qualquer organização que se torne necessária. Ao passo que, se uma organização vos fosse imposta, tornar-vos-íeis meros escravos dessa organização e seríeis explorados. (…) (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 16-17)
 
Eu não sou contra todas as organizações. Sou contra aquelas que impedem o preenchimento individual, especialmente a organização que se chama religião, com seus temores, crenças (…) Supõe-se que ela auxilia o homem, porém, de fato, embaraça profundamente o seu preenchimento. (Idem, pág. 17)

(…) O problema é também vosso, porquanto todos nós necessitamos de roupa, alimentação e moradia. Essas coisas precisam ser organizadas em escala mundial, e não apenas numa escala comunal, o que significa que necessitamos de homens que não estejam com o sentido no nacionalismo, etc., mas, sim, no próprio homem. Que tenham em mente (…) a felicidade humana. (…) (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 14)

No entanto, podemos viver em extrema simplicidade e sensatez, e conseqüentemente em paz, se nossa mente e nosso coração não estão entranhados do desejo de posse, quer das coisas feitas pela mão, quer das criadas pela mente. (O Caminho da Vida, pág. 20)

O de que necessitamos em matéria de alimentação, vestuário e teto, chegar-nos-á de maneira fácil e racional, quando as nossas vidas tiverem sido libertadas da violência. Essa liberdade que nos abriga da violência é o Amor. (Idem, pág. 20)


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O especialista, econômico ou religioso, político ou social, nos está conduzindo ao desastre. Cada um de nós deve interessar-se com empenho na criação de uma nova sociedade ou uma nova civilização, resguardada das causas que estão destruindo e desintegrando o mundo em que vivemos. (…) (Idem, pág. 20)

(…) Podem os especialistas oferecer-nos planos de ação cuidadosamente elaborados, mas não são as ações planejadas que irão trazer-nos a salvação, mas tão somente a compreensão do processo total do homem, isto é, de vós mesmos. (O Caminho da Vida, pág. 25)

(…) Isto é, ao invés de esperarmos por um milagre que altere este sistema, é necessário que haja uma completa mutação revolucionária cuja necessidade todos reconhecem. (Palestras em Auckland, 1934, pág. 154)

(…) Quer isto dizer, senhores, que somente pode haver verdadeira liberdade de comércio, desenvolvimento das indústrias, etc., quando não mais houver nacionalidades no mundo. (…) Enquanto houver muros tarifários protegendo cada país, haverá guerras, confusão e caos; (…) (Idem, pág. 155)

Ora, na minha opinião, a exploração manifesta-se quando os indivíduos buscam ter mais do que exigem as suas necessidades essenciais. (…) Naturalmente, necessitamos de alimento, abrigo, vestuário e tudo o mais; porém, a fim de tornar essas coisas possíveis para todos, os indivíduos têm de começar a perceber quais são as suas próprias necessidades, e organizar sobre elas todo o sistema de pensamento e ação. (Palestras em Auckland, 1934, pág. 153)

Pergunta: O senhor, como outros orientais, parece ser contrário à industrialização. Por quê?
Krishnamurti: Não sei se muitos orientais são contrários (…), mas julgo já haver explicado (…) não ser a industrialização a solução para os problemas humanos e os conflitos e aflições deles decorrentes. (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 92)

A mera industrialização estimula os valores materiais; banheiros e automóveis amplos e luxuosos, distrações, diversões e tudo o mais. Aos valores eternos se sobrepõem os transitórios. Procura-se a felicidade e a paz por meio da posse, das coisas elaboradas pela mão e pela mente do homem. (…) (Idem, pág. 92)

Queremos nos distrair, divertir-nos, fugir de nós mesmos, tal a nossa miséria e pobreza interior, a nossa vacuidade e tristeza. E, desse modo, onde há procura, há produção e a tirania da máquina. No entanto, julgamos poder solucionar o problema econômico e social com a simples industrialização (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 92)

Podeis fazê-lo temporariamente, mas com isso surgem as guerras, as revoluções, a opressão e a exploração, conduzindo a chamada civilização - a industrialização e tudo que ela implica - a um estado de barbárie. (…) Para o indivíduo rico interiormente, a industrialização tem seu devido significado. (…) (Idem, pág. 92-93)

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Senhor, este é o “nosso mundo”. Não é um mundo comunista, nem um mundo capitalista, mas um mundo nosso, para nele vivermos (…) e sermos felizes. (…) Mas quando existe o sentimento de que esta é a nossa Terra, não haverá então empregador e empregado, não haverá o sentimento de que um é o “patrão” e outro, “o empregado”. (…) (As Ilusões da Mente, pág. 61)

(…) O homem de negócios pergunta: “que posso fazer?” Se ele tiver aquele sentimento, poderá fazer centenas de coisas; poderá fazer ricos os pobres, dando-lhes participação no negócio, tornando o seu negócio uma sociedade cooperativa. (…) (Idem, pág. 62)

Penso ser este o problema real (…) Temos agora as máquinas e as técnicas que permitem produzir tudo de que necessita o homem, e em breve, provavelmente, teremos uma distribuição equitativa dos recursos para a satisfação das necessidades físicas, e a cessação da luta de classes; mas o problema básico continuará existente. O problema básico é que o homem não é criador, não descobriu por si mesmo a extraordinária fonte de criação, não inventada pela mente; e só quando se descobre essa fonte criadora, atemporal, é que se encontra a suprema felicidade. (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 55)

Estão-se verificando importantes mudanças no mundo, no campo científico e no campo da medicina. Temos o computador, a automação, que irão proporcionar ao homem muito lazer. Ainda não chegou talvez a hora de fruirmos esse lazer, mas está por chegar. O homem vai ter liberdade e lazer em abundância, para fazer o que quiser. A família, as relações entre marido e mulher - tudo vai ser revolucionado. Na hora atual, ocorre uma extraordinária mudança no mundo, no terreno econômico, social, científico, médico. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 111)

(…) Porque, no final de tudo, o mundo tenderá mais e mais e mais no sentido da federação e não do constante fracionamento. (…) Nessas condições, o que cada um de nós pode fazer é abandonar o comunalismo: podemos deixar de ser brahmanes, (…) de pertencer a qualquer casta ou a qualquer nação. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 6)

Posso expor os princípios básicos, (…) mas não tem valor algum. O que tem valor é vós e eu descobrirmos juntos os princípios básicos sobre os quais se deveria edificar uma sociedade nova; porque no momento em que descobrirmos, conjuntamente, (…) existirá uma nova base de relações entre nós. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 154)

Já não serei o instrutor e vós o discípulo, ou vós o auditório e eu o conferencista (…) Significará isso ausência de autoridade (…) Seremos parceiros no descobrimento e, por conseguinte, estaremos em cooperação; (…) (Idem, pág. 154)

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Enquanto houver autoridade nas relações entre pessoas, haverá compulsão; e pela compulsão nada se pode criar. Um governo que compele, um instrutor que compele, um ambiente que compele, não cria relações, mas apenas um estado de escravidão. (Idem, pág. 154)

(…) Quando não existe domínio, autoridade, compulsão, que significa isso? Significa, é claro, que há afeição, que há ternura, que há amor, que há compreensão. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 155)

É muito importante que cada um de nós descubra qual é a sua relação com a sociedade, se ela está baseada na ganância - que significa auto-expansão , preenchimento do “eu”, que supõe poder, posição, autoridade - ou se simplesmente aceitamos da sociedade as coisas essenciais, tais como alimentação, roupa e moradia. (…) (A Arte da Libertação, pág. 173)

(…) Como a atual sociedade se está desintegrando rapidamente, precisamos descobrir; e aqueles cuja relação é só de necessidade, criarão uma nova civilização, constituirão o núcleo de uma sociedade na qual as coisas necessárias à vida serão distribuídas equitativamente, e não utilizadas como meio de auto-expansão. (…) (Idem, pág. 174)

Considerando-se o mundo - não só o que se passa neste país, na Ásia, mas também na Rússia, onde estão ocorrendo grandes mudanças (…) - considerando-se tudo isso, não podemos deixar de perguntar-nos se a nova semente já estará a germinar, se já estará a nascer uma nova cultura, uma nova sociedade, uma mente nova, não moldada pelo velho padrão, (…) isenta das infantilidades que hoje praticamos. (…) (A Importância da Transformação, pág. 103)

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O desafio é imenso; temos de enfrentá-lo (…) com a compreensão de todo este mundo humano - de guerras, fome, nações subdesenvolvidas, superpovoamento, o luxo dos ricos e o sofrimento dos pobres, etc., etc. (…) Se pudermos observá-lo totalmente, (…) penso que encontraremos então a resposta - a qual pode não corresponder a nosso gosto, pode não ser a que desejamos. (…) (Idem, pág. 104)

(…) Digo-vos, porém, que não podeis resolver esses problemas separadamente; não podeis resolver o problema religioso isoladamente, nem o econômico, nem tampouco o social, mas fá-lo-eis verificando a relação de interdependência que entre si têm os problemas religioso, social e econômico. (Palestras em Auckland, 1934, pág. 5)

(…) Enquanto não tratarmos dos problemas social, religioso e econômico como um todo compreensivo e não dividido, percebendo antes a delicada e sutil conexão (…), não o podereis resolver, apenas aumentareis a luta. (Palestras em Auckland, 1934, pág. 6)

Pergunta: Por que não alimentais os pobres, em vez de falar?

Krishnamurti: Agora, o interrogante quer saber por que falo. (…) Para que os pobres sejam alimentados, necessita-se uma revolução completa; não uma revolução superficial, da esquerda ou da direita, mas uma revolução radical; (…) Uma revolução baseada em idéia não é revolução; pois qualquer idéia é mera reação a determinado condicionamento, (…) não pode produzir modificação fundamental. (…) (Que Estamos Buscando, pág. 29-30)

Só quando vós e eu estivermos livres de idéias, poderemos produzir uma revolução radical, interiormente, e, portanto, exteriormente. Não se trata de ricos nem de pobres. O que há é a dignidade humana, o direito de trabalhar (…) Não há, então, ninguém que tenha demais, para dar de comer aos que tenham de menos. Não há diferenças de classes. (…) (Idem, pág.30)

Será uma realidade, quando houver aquela radical revolução interior. (…) Uma transformação fundamental dentro de cada um de nós. Não haverá então nem classes, nem nacionalidades, nem guerras, nem separatismo destrutivo; e isso só poderá verificar-se quando houver amor em vosso coração. (…) (Idem, pág. 31)

A unidade humana só pode encontrar-se no amor, no esclarecimento que nos traz a verdade. Essa unidade do homem não pode estabelecer-se mediante simples ajustamento econômico e social. (…) Esperamos que uma revolução externa, uma reforma exterior dos valores, transformem o homem.

Embora, sem dúvida, essas coisas produzam certos efeitos no homem, a sua vontade aquisitiva (…) continua a existir. Essa atividade aquisitiva, infinita e vã, não pode em tempo algum trazer a paz ao homem, e é só quando o indivíduo está livre dela, que pode haver o estado criador. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 168)

Crédito das Imagens: Banksy 

4 de nov. de 2011

Homem Novo: Arquitetos, Agentes das Mudanças



Eis por que tanto importa, enquanto estais jovens, que não vos deixeis condicionar. (…) Os homens que investigam o que é a Verdade, o que é Deus - só esses homens podem criar uma nova civilização, uma nova cultura, e não aqueles que se submetem ou se revoltam apenas dentro da prisão do velho condicionamento.

Podeis pôr as vestes de um asceta (…); mas, se não houver dentro de vós aquele movimento para descobrir o que é real, (…) a Verdade, vossos esforços serão sem significação. Podeis ser muito ilustrados (…), mas tudo isso está dentro da prisão da tradição (…), não tem nenhum valor revolucionário. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 89)

Por homem civilizado não entendo aquele que conseguiu dominar o mecanismo da vida moderna. Civilização é o resultado de uma cultura (…), distinta da percepção individual da Verdade. (A Finalidade da Vida, pág. 20)

Um homem civilizado, antes de tudo, não deve pedir a outros coisa alguma para si mesmo, e não deve necessitar de nada para si próprio. É esse o principal requisito, do meu ponto de vista. (…) (Idem, pág. 20)

Pois bem: se esse homem não precisa pedir coisa alguma a outrem, significa isso que ele é um modelo para si mesmo, que é a sua própria luz - e, assim, não projetará sombras no caminho de outrem. (…) (Idem, pág. 20)

Não o limita o temor da autoridade externa, o temor de um deus desconhecido, não o limitam as superstições e tradições, porque, no instante em que ele depender de alguém ou de algo, a sua percepção da Verdade se atenuará. (Idem, pág. 20-21)

Também é necessário que ele seja dominado pela intuição, que é o ponto culminante da inteligência. (…) E se desejais despertar essa intuição (…) deveis manter a vossa inteligência entusiasticamente desperta. (A Finalidade da Vida, pág. 21)

E deve, ainda, o homem civilizado, (…) culto, ser tolerante, capaz de examinar qualquer assunto imparcialmente, livre de preconceitos e influências, (…) capaz de um exame crítico de toda coisa nova, antes de a rejeitar ou aceitar. (…) (Idem, pág. 21)

Esse homem chegou realmente ao alvo (…) embebeu realmente o seu coração nas águas da vida. (…) E esse estado só pode alcançar-se quando o alvo é o árbitro definitivo, a autoridade decisiva. (…) (Idem, pág. 21-22)

Esse homem é simples, (…) é puro. Ele é lúcido e calmo (…) esse homem preencheu a vida, porque deixou a vida pintar o quadro que desejava e não foi ele quem, com sua estreiteza, (…)suas limitações, deturpou e corrompeu a vida. (A Finalidade da Vida, pág. 22)

(…) E quando houverdes compreendido esse caminho, (…) realizado essa união, o tempo e todas as suas complicações deixarão de existir. (…) (Idem, pág. 22)

Sereis então vosso próprio Senhor, vosso próprio Deus, vossa própria Luz. E, uma vez realizado isso, todas as outras coisas serão secundárias, (…) desnecessárias. (Idem, pág. 22)

(…) São precisos novos arquitetos, novos construtores, para criar uma sociedade nova. A estrutura tem de ser edificada sobre alicerces novos, sobre fatos e valores novos, que cumpre descobrir. Esses arquitetos não existem ainda. (…) Tal é o nosso problema. Vemos que a sociedade está ruindo e se desintegrando, e somos nós - vós e eu - que temos de ser os arquitetos. (…) (A Primeira e Última Liberdade, 3ª ed., pág. 36) (1ª ed., pág. 37)

Se o reformador (…) Quem quer reformar o mundo, deve primeiramente compreender-se a si mesmo, porquanto o mundo é ele. As atuais tribulações e degradações do homem são acarretadas pelo próprio homem; e, se ele pretender reformar apenas o padrão do conflito, sem compreender-se fundamentalmente a si próprio, concorrerá somente para aumentar a ignorância e o sofrimento. Se cada indivíduo procurar o valor eterno, chegará então o fim do conflito interior e descerá a paz sobre a terra. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 114-115)

Se desejais pôr termo ao conflito, à confusão e às tribulações que se vos deparam (…), de onde deveis partir? Do mundo, do exterior (…)? Ou deveis partir de vós mesmos, a fim de eliminardes radicalmente as causas responsáveis por todos os conflitos e sofrimentos? Se fordes capazes de desvencilhar-vos da paixão e da mundanidade, em que se baseia a atual civilização, descobrireis e compreendereis o valor eterno, esse valor que não se ajusta a molde algum. Sereis, então, quiçá, capazes de ajudar a outros. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 114-115)

Nosso primeiro dever, por conseqüência, é descobrirmos o Real, porque somente ele nos dará paz e felicidade. Só nele pode cessar o conflito e a aflição; só nele se encontra a potência criadora. Sem esse tesouro interior, pouca importância tem a organização das condições externas, por meio de legislação e (…) planos econômicos. Com a percepção do Real, deixam de estar separados o “exterior” e o “interior”. (Idem, pág. 116)

(…) Conhecemos a fuga intelectual: racionalização, mais e mais planos engenhosos, técnica e mais técnica, mais e mais reações econômicas à vida, todas muito sutis e intelectuais. E há a fuga pela via do misticismo, dos livros sagrados, da adoração de uma idéia estabelecida. Ora, tanto o intelectual como o místico são produtos da mente. O intelectual pode ter a capacidade de falar, de expressar-se com mais clareza, mas também ele se recolhe nas suas idéias e ali vive muito tranqüilo, indiferente à sociedade, acalentando suas ilusões, nascidas da mente. (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 193-194)
(…) Somos nós, vós e eu, a gente comum, que temos de resolver este problema, sem sermos intelectuais nem místicos, sem escaparmos pela racionalização nem por meio de termos vagos e de hipnose por palavras e métodos que são autoprojeções nossas. O que sois, o mundo é, e se não compreendeis a vós mesmos, o que criardes aumentará sempre a confusão e o sofrimento; (…) (Idem, pág. 194)

(…) Ao falarmos em revolução, temos em vista a estrutura psicológica da sociedade em que nos vemos aprisionados (…) Há necessidade de pelo menos uns poucos indivíduos, não um grupo organizado em torno de um dogma, uma crença ou um líder - indivíduos firmemente cônscios da própria psique e da sociedade, e cônscios, também, da necessidade de uma revolução total, interior, para que não continuemos a viver neste estado de violência, de ódio, de antagonismo, de mera busca de prazeres e entretenimentos. (…) (Como Viver neste Mundo, pág. 46-47)

Ora, (…) As revoluções fundamentais são produzidas pela massa, ou são elas iniciadas por uns poucos indivíduos de visão que, por seu verbo e sua energia, influenciam grande número de pessoas? É assim que nascem as revoluções. (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 89)

Afinal, a massa é uma entidade constituída de pessoas que estão enredadas, hipnotizadas por palavras, por certas idéias. (…) Não deveríamos manter-nos à margem da corrente e tirar dela outros indivíduos, em número crescente, para, dessa maneira, influir na corrente? (…) (Idem, pág. 90)

Não é muito importante que se realize uma transformação fundamental no indivíduo, em primeiro lugar, (…) em vez de esperar que todo o mundo se transforme? Não é um ponto de vista “escapista” (…) pensar que vós e eu não sejamos capazes de influir, por pouco que seja, na sociedade como um todo? (Idem, pág. 90)

Antes de agir, precisamos saber pensar. (…) Só quando vós e eu descobrirmos a maneira de pensar corretamente, estaremos aptos a resolver os formidáveis problemas que nos desafiam. (Idem, pág. 13)
Ora, como começar a pensar corretamente? Precisais conhecer-vos a vós mesmos, não achais? (…) Vós que sois diferente do mundo; o problema do mundo é vosso problema, e o vosso “processo” individual é o “processo” total do mundo. (…) (Idem, pág. 13)

O que tem importância (…) Vemos o que está acontecendo no mundo - o crescente conflito da destruição, da miséria. Esse conflito vós não podeis sustar; o que podeis fazer é alterar a vossa relação com o mundo (…) o mundo de vossa esposa, vosso marido, vosso emprego, vosso lar. (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 52)

Nesse mundo podeis operar uma transformação, e essa transformação se espalhará em círculos cada vez mais amplos; (…) Mas, se compreendemos o conflito da existência de cada dia, podemos passar além, porque nisso se encerra todo o significado da vida. A mente em conflito é destrutiva, desperdiçada. (…) (Idem, pág. 52)

(…) Todos os intelectuais que se têm ocupado com esses problemas e tentado mostrar-nos o caminho, têm falhado. Os intelectuais falharam, suas fórmulas são impraticáveis. (…) O que nos interessa, pois, é a ação, (…) o descobrimento de uma nova maneira de encarar esses problemas. Já vimos que, se os encararmos de acordo com as velhas e habituais diretrizes, não conseguimos nenhuma modificação fundamental. (…) (A Arte da Libertação, pág. 12)

(…) É bem óbvio que não podemos ficar à espera de alguém, guru ou guia, que venha resolver nossas dificuldades. Isso é infantil, é um modo imaturo de pensar. A responsabilidade é vossa e minha; e, uma vez que falharam os chefes e os guias (…) que nenhuma significação têm as fórmulas e os sistemas, não podemos ficar sentados como expectadores, à espera de que nos digam o que fazer. (…) (Idem, pág. 12-13)

Antes de agir, precisamos saber pensar. Não há ação sem pensamento. A maioria de nós, porém, age sem pensar, e o agir sem pensar nos trouxe a esta confusão. Por conseguinte, precisamos descobrir como pensar, antes de saber como agir. (…) Só quando vós e eu descobrirmos a maneira de pensar corretamente, estaremos aptos a resolver os formidáveis problemas que nos desafiam. (…) (Idem, pág. 12)

Os problemas que se apresentam a cada um de nós e, portanto, ao mundo, não podem ser resolvidos pelos políticos ou pelos especialistas. Esses problemas não são resultado de causas superficiais. (…) Nossos problemas são complexos; só podem ser resolvidos como um processo total das reações humanas ante a vida. Podem os especialistas oferecer-nos planos de ação cuidadosamente elaborados, mas não são as ações planejadas que irão trazer-nos a salvação, mas tão somente a compreensão do processo total do homem, isto é, de vós mesmos. Os especialistas só têm capacidade para tratar de problemas num nível exclusivo, com o que aumentam os nossos conflitos e a nossa confusão. (O Caminho da Vida, pág. 25)

(…) Julgamos que muito pouco podemos fazer neste mundo, que os grandes políticos, os escritores famosos, os grandes guias religiosos são homens capazes de ação fora do comum. Na verdade, entretanto, vós e eu somos infinitamente mais capazes de produzir uma transformação fundamental do que os políticos profissionais e os economistas. Se dermos atenção às nossas próprias vidas, se compreendermos as nossas relações com os outros, teremos criado uma nova sociedade; do contrário, não faremos mais do que perpetuar a atual desordem e confusão. (Nosso Único Problema, pág. 30)
A esperança de um novo mundo está naqueles de vós que começarem a ver o que é falso e a revoltar-se contra o falso, não apenas verbalmente, porém realmente. E esta é a razão por que deveis buscar a educação correta; pois, só crescendo em liberdade, podereis criar um novo mundo não baseado na tradição ou moldado de acordo com a idiossincrasia de certo filósofo ou idealista. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 18)

(…) Para sermos livres, devemos pôr em dúvida a reação social, pois só então poderemos descobrir se o indivíduo é apenas o resultado da sociedade, ou algo mais. (…) Só os que põem em dúvida são capazes de promover a revolução social. Tais indivíduos, uma vez livres de padrões, de crenças, de ideologias, estão aptos para ajudar a criar uma nova sociedade, não baseada em condicionamento algum. (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 8)

(…) Senhor, uma nova sociedade, uma nova ordem, não pode ser estabelecida por outras pessoas; ela tem de ser estabelecida por vós mesmo. Uma revolução baseada numa idéia não é revolução, absolutamente. A verdadeira revolução vem de dentro, (…) só vem quando compreendeis as vossas relações, (…) atividades diárias, vossa maneira de proceder, de pensar, de falar, vossa atitude para com o próximo, para com vossa esposa, vosso marido, vossos filhos. (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 196-197)

Se, como indivíduos, não produzirmos essa transformação, de que outra maneira se produzirá ela? (…) Os poderosos, os milionários, os homens de muitas posses, não o farão. Isso tem de ser feito por gente comum, por vós e por mim. (…) Um homem pode ter coragem para opor-se aos ditames da sociedade; mas só o homem que compreende o complexo problema da transformação (…) a estrutura da sociedade, que é ele próprio, torna-se um verdadeiro indivíduo, e não um simples representante do todo coletivo. Só o indivíduo que não está preso à sociedade, pode influenciá-la. (…) (Verdade Libertadora, pág. 36)

Senhores, toda sociedade nova, toda civilização nova, deve ser começada por vós. Como foi que começou o cristianismo, o budismo, e todo movimento significativo? Pela iniciativa de uns poucos inflamados pela idéia e pelo sentimento. Tinham eles os corações abertos a uma vida nova. Constituíam um núcleo, não tinham crença em determinada coisa, mas tinham em si próprios a experiência da realidade - a realidade daquilo que viam. (…) (O que te fará Feliz, pág. 18)

Senhores, deveria existir uma classe de pessoas independentes do governo, não pertencentes à sociedade, à margem da sociedade - a atuarem como guias. Essas pessoas são os “açoitadores”, os profetas, que vos apontam os vossos grandes erros. (A Arte da Libertação, pág. 95)

Mas não existe nenhum grupo desses, porque o governo, no mundo moderno, não pode apoiar tal grupo, um grupo sem autoridade, que não pertence ao governo, a nenhuma religião, casta ou nação. É só um grupo desses que pode atuar como freio aos governos. (…) (Idem, pág. 95)

Em razão de os governos se estarem tornando cada vez mais prepotentes, pondo a seu serviço uma maioria de seres humanos, os cidadãos, em números cada vez maiores, se vão tornando incapazes de pensar por si mesmos.(…) Assim, só quando existe um grupo desses, um grupo enérgico, inteligente, ativo, só então há esperança de salvação. (…) (A Arte da Libertação, pág. 95)

Se não é, cumpre então que vos liberteis inteligentemente, despejando-vos do nacionalismo, da ganância, da inveja, do poder que a autoridade confere; e então, sendo um ser inteligente, estareis habilitado para observar a situação mundial e contribuir para o estabelecimento de uma nova educação e uma nova sociedade. (Idem, pág. 95-96)

(…) Agora, aqueles que têm lazeres, como as pessoas mais idosas, aposentadas, poderiam agir como intermediários, como instrumentos para a realização da revolução mundial. Dispõem de tempo, mas são indiferentes. E os que vivem empenhados em incessantes atividades, esses estão no meio da torrente e não dispõem de tempo para procurar as soluções dos vários problemas da vida. (Novo Acesso à Vida, pág. 151)

Assim, aqueles que se interessam por essas coisas, pela realização de uma transformação radical no mundo, resultante da compreensão de si próprios - só deles se pode esperar algo. (Idem, pág. 151)
Senhores, não vos parece ser esta uma pergunta importante que devemos fazer a nós mesmos? Pois estamos sempre satisfeitos com o conhecido; mas se arranhamos a crosta do conhecido, não encontramos nada, depara-se-nos o vazio, o vácuo. E, por certo, é muito importante saiba a mente viver de modo integral dentro desse vazio, desse silêncio e, lá, pensar e expressar-se, fomentar o pensamento e, conseqüentemente, a ação. (Visão da Realidade, pág. 204)

Eis por que devemos compreender o que significa “aprender”. Além de certo limite, nada mais podemos aprender, pois nada há que aprender, não há instrutor que possa ensinar-nos. E a esse ponto temos de chegar - o que significa, realmente, ser completamente livre de todo desejo de nos tornarmos alguma coisa, todo desejo de mais. (Idem, pág. 204)

Só quando a mente se acha nesse estado de vazio, em que não há conhecimento, em que não há mais o experimentador, aprendendo, acumulando - só então existe aquele esforço criador, podendo expressar-se através de vários talentos e artes, sem causar mais sofrimentos. (Visão da Realidade, pág. 204)

Está visto, pois, que devemos chegar àquele ponto em que nada há para aprender, porque lá a mente está livre da sociedade, livre de todas as mistificações, livre da luta pelo reconhecimento de nossa posição social, etc.; e só nesse estado de liberdade, fora do alcance da sociedade, se pode criar uma nova cultura, inaugurar uma nova civilização. (…) (Idem, pág. 204-205)




(…) Só existe a autoridade quando existe o medo. Com a compreensão do medo, da autoridade e da rejeição de todos os desejos de experiência - e essa é realmente a plenitude da madureza - torna-se a mente completamente silenciosa. Só nesse silêncio que é sumamente ativo - pode verificar-se uma revolução total na psique. Só então está a mente apta a criar uma nova sociedade, (…) comunidade, constituída de pessoas que, embora vivendo no mundo, a ele não pertençam. A vós cabe o dever de criar essa comunidade. (A Importância da Transformação, pág. 69)

 

20 de set. de 2011

Filantropia, Caridade, Divulgação da Verdade...


 
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Pergunta: Que pensais da caridade e da filantropia social?
Krishnamurti: A filantropia social restitui à vítima um pouco daquilo que o filantropo violentamente lhe arrancou. Primeiro, vós a explorais, (…) amontoando grande riqueza (…), e depois voltai-vos com magnanimidade, e dais um pouco à pobre vítima. (Palestras no Brasil, pág. 60)
Talvez não sejais astutos, hábeis, violentos o bastante para amontoar riquezas; (…) porém, espiritualista e idealisticamente amontoais aquilo que chamais conhecimento. A caridade é inconsciente de si própria; não há acúmulo prévio nem distribuição consecutiva. É semelhante a uma flor: natural, aberta, espontânea. (Idem, pág. 60)

Pergunta: Desejo auxiliar e servir meus semelhantes. Qual a melhor maneira de fazê-lo?
Krishnamurti: A melhor maneira é começar por compreender-vos e modificar-vos. No desejo de auxiliar e servir a outrem, oculta-se o orgulho e a vaidade. Se tiverdes amor, auxiliareis. A ajuda clamorosa nasce da vaidade.
(…) Como podereis saber quais as necessidades de outrem, sem conhecer-vos? Se não compreenderdes a vós mesmos, não podereis compreender nem servir a outrem. Faltando-vos autoconhecimento, agireis com ignorância (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 80)

Pergunta: Já me convenci de que a minha infelicidade se deve à grande vontade que tenho de ajudar (…)
Krishnamurti: Quer dizer que sois infeliz porque não podeis ajudar a outros! (…) Logo, tirais a vossa felicidade do ajudar a outros. Fazeis uso dos outros para obterdes vossa própria satisfação. (A Renovação da Mente, pág. 30-31)
Ora, a ação de ajudar não é coisa da mente. A generosidade da mente não é a generosidade do coração. Mas, visto que perdemos a generosidade do coração, somos generosos com a mente, que, quando encontra resistência, se revolta e sofre. (…) (Idem, pág. 31)

Pergunta: Desejo ajudar os outros. Qual a melhor maneira de o fazer?
Krishnamurti: Eu quisera saber por que desejais ajudar os outros. É porque amais o próximo? E, se o amais, precisais perguntar (…)? (Por que não te Satisfaz a Vida, pág. 153)
Há diversas maneiras de “servir” os nossos semelhantes (…) O comércio serve as pessoas; o médico, o advogado, o cientista, o lavrador - todos estão “servindo” os outros, não é exato? O desejo de servir ao próximo tornou-se uma profissão, ligado a uma recompensa. (…) Assim, pois, quando dizeis que desejais “ajudar” os outros, que significa essa palavra? (…) Em que nível desejais ajudar os outros? No nível econômico, ou no chamado espiritual ou psicológico? (…) Mas, uma simples reforma cria sempre a necessidade de outra reforma, e nunca se acabará de reformar. (…) Mas, para ajudar o próximo no sentido psicológico ou espiritual, não será preciso, primeiro, que compreendais a vós mesmo? (Por que não te Satisfaz a Vida?, pág. 154)
Se desejais pôr termo ao conflito, à confusão e às tribulações, (…) de onde deveis partir? Do mundo, do exterior, procurando reorganizar os seus valores (…)? Ou deveis partir de vós mesmos, a fim eliminardes radicalmente as causas de todos os conflitos e sofrimentos? Se fordes capazes de desvencilhar-vos da paixão e da mundanidade, em que se baseia a atual civilização, descobrireis e compreendereis o valor eterno, esse valor que não se ajusta a molde algum. Sereis então, quiçá, capazes de ajudar a outros a se libertarem da servidão. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 115)
O mendigo que encontramos ao descer a rua nenhum auxílio recebe, mas falamos muito alto sobre a necessidade de socorrer os desvalidos. Ingressais em grupos, aderis a sistemas, e o necessitado continua de mãos vazias. (…) (A Arte da Libertação, pág. 101)

Pergunta: Se um homem está passando fome e eu sinto que posso ajudá-lo, é isso ambição, ou é amor?
Krishnamurti: Tudo depende do motivo pelo qual você o ajuda. Alegando ser favorável ao amparo à pobreza, o político chega a Nova Delhi, vive numa bela casa e exibe-se. Isso é amor? (…) (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 75)
Ele está faminto e você o ajuda com comida. Isso é amor? Por que você deseja ajudá-lo? Não terá você outro motivo, nenhum outro incentivo, além do desejo de ajudá-lo? Você não obtém nenhum benefício daí? (…) Se você está procurando algum benefício, político ou não, benefício interior ou exterior, então você não o ama. Se você o alimenta para tornar-se mais popular, ou na esperança de que, assim, seus amigos o ajudarão a chegar a Nova Delhi, então isso não é amor, é? (Idem, pág. 75)
Mas se você o ama, você o alimentará sem abrigar nenhum motivo oculto, sem querer nada em troca. Se você o alimenta e ele se mostra ingrato, você se sente magoado? Se assim for, você não o ama. Se ele diz (…) que você é um homem maravilhoso, e você se sente muito lisonjeado, isso significa que você está pensando em si mesmo, e certamente isso não é amor. Portanto, é preciso estar muito alerta para descobrir se estamos auferindo algum tipo de benefício ao ajudar os outros. (…) (Idem, pág. 75-76)
Se uma pessoa teme, não tem iniciativa. Sabeis o que é iniciativa? Será muito difícil averiguá-lo? Ter iniciativa é fazer algo original, espontaneamente, com naturalidade, sem ser guiado, nem forçado, nem influenciado; fazer as coisas por amor a elas. Às vezes, quando passeais pela cidade, vedes uma pedra no meio da rua e um carro passar sobre ela, com abalo mais ou menos violento. Já alguma vez tirastes essa pedra do caminho? (Novos Roteiros em Educação, pág. 10-11)
Já observastes, quando passeais, os pobres, os camponeses, os aldeões? Já fizestes alguma coisa por eles, espontaneamente, com naturalidade, com bondade, do fundo do vosso coração, sem que alguém vos diga o que deveis fazer? Mas, se há temor, todas essas coisas vos ficam vedadas; tudo isso desaparece da vossa existência; não percebeis o que se passa ao redor de vós, sois incapazes de observá-lo. (…) (Idem, pág. 11)
(…) Assim, pois, para realmente ajudar o mundo - tal como falais em ajudá-lo - se realmente estais disposto a ajudá-lo a libertar-se de todos os seus compromissos, de seus interesses adquiridos, de seus ambientes, então tendes de verificar que jamais falareis em ajudar o mundo; então não vos colocareis sobre um pedestal para ajudar alguém à distância e mais abaixo. (Palestras em Auckland, 1934, pág. 82)
Que valor tem a vossa compreensão, vossos nobres e elevados pensamentos, vossa vida pura, se não ajudais aqueles que estão em contínuo sofrimento, nas trevas e em confusão? Que valor tem a verdade que vislumbrastes, se não podeis dar daquela verdade aos que estão famintos e sedentos do eterno? (“Vida em Liberdade”, III, pág. 21, em “Carta de Notícias”, nº 1 a 6, de 1945)

Pergunta: É difícil entender-vos, e acho mais fácil seguir as pessoas que compreenderam os vossos ensinamentos e nô-los podem explicar. Não achais que há necessidade de tais pessoas, para divulgação do vosso ensino? (…)
Krishnamurti: Sempre que alguém deseja seguir, encontra um guia, e o segui-lo destrói a possibilidade de descobrir o que é verdadeiro. (…) (Visão da Realidade, pág. 116-117)
E não precisais divulgar o meu ensino, porque, se não compreendeis a vós mesmo, não podereis divulgá-lo. Podeis por ventura comprar e distribuir uns poucos livros, mas isso por certo não é tão essencial como o compreenderdes a vós mesmo. Compreendendo a vós mesmo, havereis de disseminar a compreensão no mundo (…) (Idem, pág. 118)

Pergunta: Posso compreender mais facilmente o que dizeis, ensinando-o a outros?
Krishnamurti: Comunicando-o a outros, podeis, talvez, aprender uma nova maneira de expressar as coisas, de transmitir o que desejais dizer; mas, francamente, isso não é compreensão. Se não compreendeis a vós mesmo, como (…) podeis expressá-lo a outros? Isso é apenas propaganda. (Solução para os nossos Conflitos, pág. 13-14)
Vós não compreendeis uma coisa, mas falais sobre ela a outras pessoas; (…) Podeis comunicá-lo verbalmente; mas podeis contar a outros o que foi a vossa experiência (…) da coisa? (…) Podeis descrever a experiência, mas não se pode transmitir o estado de experimentar. Assim, pois, verdade repetida não é mais verdade.(…) (Idem, pág. 14)
Nessas, condições (…) Quereis ensinar a outros, sem experimentardes; e esperais que, ensinando, possais experimentar (…) A experiência é muito mais importante, (…) significativa do que a comunicação verbal. (Idem, pág. 14)

Pergunta: Como podemos ajudar melhor a humanidade a compreender e viver vossos ensinos?
Krishnamurti: É muito simples: vivendo-os vós mesmos. (…) Todos desejamos prestar auxílio ao mundo, porém jamais começamos por nós mesmos. (…) Principiais, portanto, por libertar a mente e o coração do sentimento de posse. Isso exige, não apenas renúncia, porém o discernimento, a inteligência. (Palestras no Brasil, pág. 27-28)

Pergunta: Eu gostaria de vos ajudar, fazendo propaganda de vossos ensinamentos. Podeis aconselhar-me a melhor maneira de o fazer?
Krishnamurti: (…) Não podeis repetir a verdade, porque a verdade não é constante. A verdade é um estado de experimentar (…) O propagandista é mero repetidor, e não um arauto da verdade; (…) (Da Insatisfação à Felicidade, pág. 179)
Agora, com essa compreensão, que podeis fazer (…) para divulgar os meus ensinamentos? O que podeis fazer é, unicamente, vivê-los. (…) Então, como uma flor num jardim, esse próprio viver espalha o seu perfume. Não precisais fazer propaganda do jasmim. O jasmim faz a sua própria propaganda: sua beleza, seu perfume, sua delicadeza, dizem tudo. (…) (Idem, pág. 180)

Pergunta: Qual é o mais sábio caminho a seguir - proteger e abrigar o ignorante, por meio de conselho e orientação, ou deixá-lo descobrir, por experiência e sofrimento próprios (…)?
Krishnamurti: Eu diria: nenhum dos dois (…) auxiliai-o a ser inteligente, o que é coisa inteiramente diferente. (Palestras em Adyar, Índia, 1933-1934, pág. 135-136)
Se puderdes auxiliar outrem a tornar-se inteligente, isso é tudo quanto necessitamos fazer. A inteligência é livre, desimpedida, sem temor ou superficialidade. Somente podemos auxiliar alguém a libertar-se da aquisitividade, das muitas ilusões e empecilhos que o aprisionam, quando começamos a nos libertar a nós próprios. Temos, porém, essa extraordinária atitude de desejar melhorar as massas enquanto nós próprios somos ainda ignorantes. (…) (Idem, pág. 136-137)
Trabalha, trabalha pela humanidade, Serve, serve os teus semelhantes, Segue esta Senda, mas cuidado nela, Cumpre a vontade de Deus, Segue cegamente, (…) tenho a chave de Sua morada, Aproveita esta oportunidade que Ele te oferece, A tristeza e a dita a Ele levam, Se isto fizeres tua busca cessará - E então O encontrarás, bradaram muitos. (O Amigo Imortal, pág. 49)

 

6 de set. de 2011

A Busca do Homem # 3


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A Consciência — A Totalidade da Vida — O Percebimento

Ao vos tornardes cônscio do vosso condicionamento compreendereis a totalidade de vossa consciência. A consciência é o campo total onde funciona o pensamento e existem as relações. Todos os motivos, intenções, desejos, prazeres, temores, inspiração, anseios, esperanças, dores, alegrias, se encontram nesse campo.

Mas nós dividimos a consciência em ativa e latente, em nível superior e nível inferior; quer dizer, na superfície todos os pensamentos, sentimentos e atividades de cada dia e, abaixo deles, o chamado subconsciente, as coisas que não nos são familiares, que ocasionalmente se expressam por meio de certas sugestões, intuições e sonhos. Ocupamo-nos com um pequeno canto da consciência, que constitui a maior parte de nossa vida; quanto ao resto, a que chamamos subconsciente, com todos os seus motivos, temores, atributos raciais e hereditários, não sabemos sequer como penetrá-lo. Agora, pergunto-vos: Existe mesmo tal coisa — o subconsciente? Empregamos muito livremente essa palavra. Admitimos que essa coisa existe e todas as frases e terminologias dos analistas e psicólogos se insinuaram na nossa linguagem; mas, existe ela? E, por que razão lhe atribuímos tamanha importância?

A mim ela parece tão trivial e estúpida como a mente consciente, tão estreita, tão fanática, condicionada, ansiosa e sem valor quanto ela. Assim, será possível ficarmos completamente cônscios de todo o campo da consciência e não meramente de uma parte, de um fragmento? Se puderdes tornar-vos cônscio da totalidade, agireis sempre com vossa atenção total e não com uma atenção parcial. Importa compreender isso, porque, quando se está cônscio de todo o campo da consciência, não há atrito. Quando se divide a consciência — toda ela constituída de pensamento, sentimento e ação — em diferentes níveis, é então que há atrito.


Vivemos de maneira fragmentária. No escritório som os uma coisa, em casa somos outra coisa; falais de democracia e, no íntimo, sois autocrata; falais em amor ao próximo e ao mesmo tempo o estais matando na competição; uma parte de vós está ativa, a olhar, independentemente da outra. Estais cônscio dessa existência fragmentária  em vós mesmo? E será possível ao cérebro, que dividiu o seu próprio funcionamento, o seu próprio pensar em fragmentos, tornar-se cônscio do campo inteiro? É possível olharmos o todo da consciência completa e totalmente, o que significa sermos entes humanos totais? Se, a fim de compreender a estrutura total do "eu", de extraordinária complexidade, procederdes passo a passo, descobrindo camada por camada, examinando cada pensamento, sentimento e_ motivo, ver-vos-eis todo enredado no processo analítico, que vos levará semanas, meses, anos; e quando admitimos o tempo no processo da  autocompreensão, temos de estar preparados para toda espécie de deformação, porquanto o "eu" é uma entidade complexa, que se move, vive, luta, deseja, nega; sujeita a pressões e tensões de toda espécie, que nela atuam continuamente.

Descobrireis, assim, por vós mesmo, que não é esse o caminho que deveis seguir; compreendereis que a única maneira de olhardes a vós mesmo é fazê-lo totalmente, imediatamente, fora do tempo; e só podeis ver a totalidade de vós mesmo quando a mente não está fragmentada. O que vedes em sua totalidade é a verdade. Mas, sois capaz disso? A maioria não o é, porque nunca nos abeiramos do problema com seriedade, porque na realidade nunca olhamos a nós mesmos.

Nunca! Lançamos a culpa a outros, satisfazemo-nos com explicações, ou temos medo de olhar. Mas, quando olhardes totalmente, aplicareis toda a vossa atenção, todo o vosso ser, tudo o que tendes, vossos olhos, vossos ouvidos, vossos nervos; estareis atento com o mais completo auto-abandono e não haverá então mais lugar para o medo, para a contradição e, por conseguinte, não haverá mais conflito. Atenção não é a mesma coisa que concentração. A concentração é exclusão; a atenção é percebimento total, que nada exclui. A maioria de nós não me parece estar cônscia, não só do que estamos dizendo aqui, mas também de nosso ambiente, das cores que nos rodeiam, das pessoas, da forma das árvores, das nuvens, do movimento da água. Isso acontece, talvez, porque estamos tão interessados em nós mesmos, em nossos insignificantes problemas, nossas próprias idéias, nossos prazeres, ocupações e ambições, que não podemos ficar objetivamente cônscios.

Entretanto, muito se fala de percebimento. Certa vez, na índia, eu viajava de automóvel. Um motorista conduzia o carro, e eu ia sentado a seu lado. Atrás, três homens discutiam com muito ardor sobre o percebimento, fazendo-me de vez em quando perguntas sobre o assunto. Naquele momento, o motorista, que estava a olhar para outra parte, infelizmente, atropelou uma cabra, e aqueles três homens prosseguiram na discussão sobre o percebimento, completamente alheios ao atropelamento da cabra. Quando essa falta de atenção lhes foi apontada, os três cavalheiros, que tanto se empenhavam em estar atentos, demonstraram grande surpresa.

A mesma coisa acontece com a maioria de nós. Não estamos conscientes nem das coisas exteriores nem das interiores. Se desejais compreender a beleza de uma ave, de uma mosca, de uma folha, de uma pessoa, com todas as suas complexidades, tendes de dispensar-lhe toda a vossa atenção — e isso é percebimento. E só podeis dar toda a atenção quando tendes zelo, quer dizer, quando amais realmente o compreender; aplicais então ao descobrimento todo o vosso coração e toda a vossa mente.


Esse percebimento é coisa semelhante a viverdes com uma serpente em vosso quarto; observais cada um dos seus movimentos, sois altamente sensível a cada ruído que ela produz. Um tal estado de atenção é energia total; nesse percebimento se revela instantaneamente a totalidade de vós mesmo.


Ao vos olhardes dessa maneira profunda, podeis descer mais fundo ainda. Empregando as palavras "mais fundo" não estamos fazendo comparação. Nós pensamos comparativamente — profundo e superficial, feliz e infeliz. Estamos sempre a medir, a comparar. Mas, será que existe em alguém mesmo tal estado — o superficial e o profundo? Quando digo "minha mente é superficial, mesquinha, estreita, limitada" — como sei dessas coisas? Porque comparei minha mente com vossa mente, que é mais brilhante, tem mais capacidade, é mais inteligente e alertada. Posso conhecer minha pequenez sem comparação? Quando sinto fome, não comparo essa fome com a fome que ontem senti. A fome de ontem é uma idéia, uma lembrança. Se estou sempre a medir-me por vós, a esforçar-me para ser igual a vós, estou então negando a mim mesmo. Por conseguinte, estou criando uma ilusão.

Ao compreender que a comparação, em qualquer forma, só leva a uma ilusão e um sofrimento maiores ainda (tal como acontece quando analiso a mim mesmo, aumentando o meu conhecimento pouco a pouco, ou identificando-me com algo fora de mim mesmo — o Estado, um salvador ou uma ideologia), ao compreender que todos esses processos só levam a mais ajustamento e conflito, abandono toda comparação. Minha mente já não está a buscar. Muito importa compreender isso.

Minha mente já não está então a tatear, a buscar, a indagar. Isso não significa estar satisfeito com as coisas como são, porém, sim, que a mente não tem ilusão nenhuma. Pode então mover-se numa dimensão totalmente diferente. A dimensão na qual vivemos nossa vida cotidiana, de dor, de prazer, de medo, condiciona a mente, limita-lhe a natureza, e quando aquela dor, aquele prazer e aquele medo deixaram de existir (o que não significa não ter mais alegria; a alegria é coisa totalmente diferente do prazer), a mente passa então a funcionar numa dimensão diferente, na qual não existe conflito, nenhuma idéia de diferença.

Verbalmente, só podemos chegar até esse ponto; o que existe além não pode ser expresso em palavras, porque a palavra não é a coisa. Até aqui, pudemos descrever, explicar, mas nem palavras nem explicações podem abrir a porta. O que abrirá a porta é o percebimento e a atenção diários — percebimento da maneira como falamos, do que dizemos, de nossa maneira de andar, do que pensamos. Isso é como limpar e manter em ordem um aposento. Manter o aposento em ordem é importante a um respeito e totalmente sem importância a outro respeito.

Deve haver ordem no aposento, mas a ordem não abrirá a porta ou a janela. O que abre a porta não é vossa volição ou desejo. Não se pode de modo nenhum chamar o outro "estado de espírito". O que se pode fazer é apenas manter o aposento em ordem, o que significa ser virtuoso por amor à virtude e não pelo que isso nos trará, ser equilibrado, racional, ordenado. Então, talvez, se tiverdes sorte, a janela se abrirá e a brisa entrará. Ou pode ser que não. Tudo depende do estado de vossa mente.

E esse estado da mente só pode ser compreendido por vós mesmo ao observá-lo sem tentar moldá-lo, sem ser parcial, sem contrariá-lo, sem jamais concordar, justificar, condenar, julgar; quer dizer, estar vigilante sem fazer nenhuma escolha. E, em razão desse percebimento sem escolha, a porta talvez se abrirá e conhecereis aquela dimensão em que não existe o conflito nem o tempo.

 

28 de jul. de 2011

A Busca do Homem # 2

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O Aprender a Conhecer-se — A Simplicidade e a Humildade — O Condicionamento. 

Se considerais importante conhecerdes a vós mesmo só porque eu ou outro disse que é importante, receio então que esteja terminada toda comunicação entre nós. Mas, se concordamos ser de vital importância compreendermos a nós mesmos, totalmente, torna-se então diferente a relação entre vós e mim e poderemos explorar juntos, fazer com agrado uma investigação cuidadosa e inteligente.

Eu não vos exijo fé; não me estou arvorando em autoridade. Nada tenho para ensinar-vos — nenhuma filosofia nova, nenhum sistema novo, nenhum caminho novo para a realidade; não há caminho para a realidade, como não o há para a verdade. Toda autoridade, de qualquer espécie que seja, sobretudo no campo do pensamento e da compreensão, é a coisa mais destrutiva e danosa que existe. Os guias destroem os seguidores, e os seguidores destroem os guias. Tendes de ser vosso próprio instrutor e vosso próprio discípulo. Tendes de questionar tudo o que o homem aceitou como valioso e necessário.

Se não seguis alguém, vos sentis muito solitário. Ficai solitário, pois. Porque tendes medo de ficar só? Porque vos defrontais com vós mesmo, tal como sois, e descobris que sois vazio, embotado, estúpido, repulsivo, pecador, ansioso — uma entidade insignificante, sem originalidade. Enfrentai o fato; olhai-o e não fujais dele. Tão logo começais a fugir, começa a existir o medo. Ao investigar-nos não nos estamos isolando do resto do mundo. Não se trata de um processo mórbido. O homem, em todo o mundo, se vê enredado nos mesmos problemas diários, tal como nós, e, assim, investigando a nós mesmos, não estamos de modo nenhum procedendo como neuróticos, porque não há diferença entre o individual e o coletivo. Este é um fato real. Criei o mundo tal como sou. Portanto, não nos desorientemos nesta batalha entre a parte e o todo.

Tenho de estar cônscio de todo o campo de meu próprio ser, que é constituído da consciência individual e social. É só quando a mente transcende a consciência individual  e social, que posso tornar-me a luz de mim mesmo, a luz que nunca se apaga.

Pois bem; onde começaremos a compreender a nós mesmos? Aqui estou eu, e como é que vou estudar-me, observar-me, ver o que realmente está sucedendo em meu interior? Só posso observar-me em relação, porque a vida é toda de relação. De nada serve ficar sentado num canto a meditar sobre mim mesmo. Não posso existir sozinho. Só existo em relação com pessoas, coisas e idéias e, estudando minha relação com as pessoas e coisas exteriores, assim como com as interiores, começo a compreender a mim mesmo. Qualquer outra forma de compreensão é mera abstração, e não posso estudar-me abstratamente; não sou uma entidade abstrata; por conseguinte, tenho de estudar-me na realidade concreta — assim como sou, e não como desejo ser.

A compreensão não é um processo intelectual. A aquisição de conhecimentos a vosso próprio respeito e o aprendizado de vós mesmo são duas coisas diferentes, porque o conhecimento que a vosso respeito acumulais é sempre do passado, e à mente que leva a carga do passado é uma mente lamentável. O aprendizado de vós mesmo não é como o aprendizado de uma língua, uma técnica ou uma ciência; neste último caso, naturalmente, tendes de acumular e memorizar, pois seria absurdo voltar sempre de novo ao começo. Mas, no campo psicológico, o aprendizado de vós mesmo está sempre no presente, ao passo que o conhecimento está sempre no passado e, como a maioria de nós vive no passado e está satisfeita com o passado, o conhecimento se torna sumamente importante para nós. É por essa razão que endeusamos o homem erudito, talentoso, sagaz. Mas, se estais aprendendo a todo momento, a cada minuto, aprendendo pelo observar e pelo escutar, aprendendo pelo ver e atuar, vereis então que o aprender é um movimento infinito, sem o passado.

Se dizeis que aprendereis a conhecer-vos gradualmente, acrescentando sempre mais alguma coisa, pouco a pouco, não vos estais estudando agora como sois, porém por meio do conhecimento adquirido. O aprender requer muita sensibilidade. Não há sensibilidade se existe alguma idéia, que é do passado, dominando o presente. A mente já não é então ágil, flexível, alertada. A maioria de nós não é sensível, nem mesmo fisicamente. Comemos em excesso, sem nos importarmos com o regime mais adequado; abusamos do fumo e da bebida, e, dessa maneira, o nosso corpo se torna pesado e insensível; a capacidade de atenção do próprio organismo se embota. Como pode haver uma mente muito alertada, sensível, clara, se o próprio organismo está embotado e pesado? Podemos ser sensíveis a certas coisas que nos atingem particularmente, mas, para sermos completamente sensíveis a tudo o que decorre das exigências da vida, não deve haver separação entre o organismo e a psique. Trata-se de um movimento total.

Para compreendermos qualquer coisa, temos de viver com ela, observá-la, conhecer-lhe todo o conteúdo, a natureza, a estrutura, o movimento. Já experimentastes viver com vós mesmos? Se o experimentardes, começareis a ver que "vós" não sois uma entidade estática, porém uma coisa vigorosa, viva. E, para poder viver com uma coisa viva, vossa mente também tem de estar viva. Não pode, porém, estar viva, se está enredada em opiniões, juízos e valores.

Para observardes o movimento de vossa mente e de vosso coração, de vosso ser inteiro, necessitais de uma mente livre; e não de uma mente que concorda e discorda, que toma partido numa discussão, disputando por causa de meras palavras, porém que acompanha a discussão com a intenção de compreender. Isso é dificílimo, porque não sabemos olhar nem escutar o nosso próprio ser, assim como não sabemos olhar a beleza de um rio, ou escutar o murmúrio da brisa entre as árvores.

Quando condenamos ou justificamos, não podemos ver com clareza, e também não podemos fazê-lo quando nossa mente está a tagarelar incessantemente; não observamos então o que é; só olhamos nossas próprias "projeções". Temos, cada um de nós, uma imagem do que pensamos ser ou deveríamos ser, e essa imagem, esse retrato, nos impede inteiramente de vermos a nós mesmos como realmente somos.

Uma das coisas mais difíceis do mundo é olharmos qualquer coisa com simplicidade. Como nossa mente é muito complexa, perdemos a simplicidade. Não me refiro à simplicidade no vestir ou no comer, no usar apenas uma tanga ou bater um recorde de jejum, ou qualquer outra das absurdas infantilidades que os santos praticam; refiro-me àquela simplicidade que nos torna capazes de olhar as coisas diretamente e sem medo, capazes de olhar a nós mesmos sem nenhuma deformação, de dizer que mentimos quando mentimos e não esconder o fato ou dele fugir.

Outros sim, para compreendermos a nós mesmos, necessitamos de muita humildade. Se começais dizendo: "Eu me conheço" — já travastes o processo do auto-aprendizado; ou, se dizeis "Não há muito que aprender a meu respeito, porque sou apenas um feixe de memórias, idéias, experiências e tradições" — tereis também parado o processo de aprendizado a vosso próprio respeito. No momento em que alcançais qualquer alvo, perdeis o atributo da inocência e da humildade; no momento em que chegais a uma conclusão ou começais a examinar com base no conhecimento, está tudo acabado, porque então estais traduzindo tudo o que é vivo em termos do velho. Mas se, ao contrário, não tendes nenhum ponto de apoio, nenhuma certeza, nenhuma perfeição, estais em liberdade para olhar, e quando olhais uma coisa em liberdade, ela é sempre nova. Um homem seguro de si é um ente morto.

Mas, como ser livre para olhar e aprender, quando nossa mente, da hora do nascimento à hora da morte, é moldada, por uma determinada cultura, no estreito padrão do "eu"? Há séculos vimos sendo condicionados pela nacionalidade, a casta, a classe, a tradição, a religião, a língua, a educação, a literatura, a arte, o costume, a convenção, a propaganda de todo gênero, a pressão econômica, a alimentação que tomamos, o clima em que vivemos, nossa família, nossos amigos, nossas experiências — todas as influências possíveis e imagináveis — e, por conseguinte, nossas reações a cada problema são condicionadas.

Percebeis que estais condicionado? Esta é a primeira coisa que deveis perguntar a vós mesmo, e não como vos libertardes do condicionamento. Pode ser que nunca vos livrareis dele, e se disserdes "Preciso livrar-me dele", podereis cair noutra armadilha, noutra forma de condicionamento. Assim, percebeis que estais condicionado? Sabeis que até mesmo quando olhais uma árvore e dizeis "Aquela árvore é uma figueira" ou "Aquela árvore é um carvalho", o dar nome à árvore, que é conhecimento botânico, de tal maneira vos condiciona a mente que a palavra se interpõe entre vós e o real percebimento da árvore? Para entrardes em contato com a árvore tendes de tocá-la com a mão, e a palavra não vos ajudará a tocá-la.

Como podeis saber que estais condicionado? Que é que vos diz isso? Que é que vos diz que estais com fome? — não como teoria, porém o fato real da fome? Do mesmo modo, como é que descobris o fato real de que estais condicionado? Pela vossa reação a um problema, a um desafio, não é? Reagis a cada desafio segundo o vosso condicionamento e como vosso condicionamento é inadequado reagirá sempre inadequadamente.

Quando vos tornais cônscio dele, esse condicionamento de raça, de religião e cultura vos faz sentir aprisionado? Considerai uma única modalidade de condicionamento, a nacionalidade, considerai-a seriamente, com pleno percebimento, para verdes se vos agrada ou se vos revolta, e se vos revolta, se sentis vontade de libertar-vos de todo condicionamento. Se vosso condicionamento vos satisfaz, é óbvio que nada fareis a respeito dele; mas, se não vos sentis satisfeito ao vos tornardes cônscio dele, percebereis que nunca fazeis coisa alguma sem ele. Nunca Por conseguinte, estais sempre vivendo no passado, com os mortos.

Só percebereis por vós mesmo o quanto estais condicionado quando se manifestar um conflito na continuidade do prazer ou na fuga à dor. Se tudo ao redor de vós decorre de maneira perfeitamente feliz, vossa esposa vos ama, vós a amais, tendes uma bonita casa, filhos interessantes e dinheiro à farta, nesse caso não estais cônscio de vosso condicionamento. Mas, quando surge uma perturbação, quando vossa esposa olha para outro homem, ou perdeis vossa fortuna, ou vos vedes ameaçado pela guerra ou qualquer outra coisa que cause dor ou ansiedade — então sabeis que estais condicionado. Quando lutais contra uma perturbação qualquer ou vos defendeis de uma dada ameaça exterior ou interior, sabeis então que estais condicionado. E, como a maioria se vê perturbada na maior parte do tempo, seja superficialmente, seja profundamente, essa nossa própria perturbação indica que estamos condicionados. Enquanto um animal é mimado, reage agradavelmente, mas no momento em que se vê hostilizado, toda a violência de sua natureza se revela.

Vemo-nos perturbados a respeito da vida, da política, da situação econômica, do horror, da brutalidade e do sofrimento existentes tanto no mundo como em nós mesmos, e essa perturbação nos revela quão estreitamente condicionados estamos. Que devemos fazer? Aceitar a perturbação e ir vivendo com ela, como o faz a maioria dos homens? Acostumar-nos com ela, assim como nos acostumamos com uma dor nas costas? Conformar-nos com ela?

É tendência de todos nós conformar-nos com as coisas, acostumar-nos com elas, delas culpando as circunstâncias. "Ah, se as coisas estivessem correndo bem, eu seria diferente", dizemos, ou "Dai-me a oportunidade e eu me preencherei", ou "Esmaga-me a injustiça de tudo isso" — sempre a culparmos das nossas perturbações os outros ou o nosso ambiente ou a situação econômica.

Se nos acostumamos com a perturbação, isso significa que nossa mente se embota, assim como uma pessoa pode acostumar-se de tal maneira com a beleza que a cerca, que nem a nota mais. Tornamo-nos indiferentes, calejados, insensíveis, e nossa mente se embota mais e mais. Se não podemos acostumar-nos com a perturbação, dela tratamos de fugir, recorrendo a uma certa droga, ou ingressando num partido político, bradando, escrevendo, assistindo a uma partida de futebol, indo a uma igreja ou templo, ou procurando outro tipo de divertimento.

Por que razão fugimos dos fatos reais? Temos medo da morte — isso apenas para exemplo — e inventamos teorias, esperanças e crenças de toda espécie, para disfarçarmos o fato da morte, mas esse fato continua existente. Para compreendermos um fato cumpre olhá-lo e não fugir dele. Em geral, temos tanto medo do viver como do morrer. Temos medo de nossa família, da opinião pública, de perder nosso emprego, nossa segurança, medo de centenas de outras coisas. O fato simples é que temos medo, e não que temos medo disto ou daquilo. Mas, porque é que não podemos enfrentar esse fato?

Só podemos enfrentar um fato no presente; mas, se nunca o deixais estar presente, porque estais sempre a fugir dele, nunca podereis enfrentá-lo, e, tendo criado uma verdadeira rede de fugas, estamos dominados pelo hábito da fuga.

Ora, se sois sensível, sério, por pouco que seja, não só estareis cônscio de vosso condicionamento, mas também dos perigos dele decorrentes, da brutalidade e do ódio a que ele conduz. Por que então, se estais vendo o perigo de vosso condicionamento, não agis? É por que sois indolente? Indolência é falta de energia; entretanto, não vos faltará energia em presença de um perigo físico imediato — uma serpente no vosso caminho, um precipício, um incêndio. Por que então não agis ao verdes o perigo de vosso condicionamento? Se vísseis o perigo do nacionalismo para vossa própria segurança, não agiríeis?

A resposta é que não vedes. Por um processo intelectual de análise podeis ver que o nacionalismo leva à autodestruição, mas nisso não há nenhum conteúdo emocional. Só quando há esse conteúdo emocional, tendes vitalidade.

Se vedes o perigo de vosso condicionamento como um mero conceito intelectual, jamais fareis coisa alguma em relação a ele. No perceber um perigo como uma mera idéia, há conflito entre a idéia e a ação e esse conflito tira-vos a energia. Só quando vedes o condicionamento e o seu perigo imediatamente, tal como vedes um precipício, é só então que agis; portanto, ver é agir.

A maioria de nós percorre a vida desatentamente, reagindo sem pensar, de acordo com o ambiente em que fomos criados, e tais reações só acarretam mais servidão, mais condicionamento; mas, no momento em que aplicardes toda a atenção ao vosso condicionamento, ver-vos-eis inteiramente livres do passado; ele se desprenderá naturalmente de vós.

   
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